A diferença de idade num relacionamento amoroso

No mês passado, fiz um vídeo no canal do Colunas Tortas sobre o interesse de homens mais velhos em mulheres de 18 anos. Este interesse, aliás, não é individual e meramente subjetivo, há um fenômeno social que torna a idade da mulher um alavancador de fantasias ou legitimidade para relacionamentos “puros”, “bons”, “de longa duração” etc.

Tal olhar sobre a idade feminina acontece tanto na esfera religiosa como na atual esfera masculinista, que preconiza a mulher jovem por seu status de pureza.

Não existem comportamentos naturais em sociedade

O texto propõe a distinção entre “comportamento” — mecânico e biológico — e “conduta” — categoria ética e social. Através da análise de instintos e da teoria skinneriana, argumenta-se que ações biológicas só ganham sentido quando reconhecidas socialmente. Conclui-se que não há condutas naturais: toda performance em sociedade está imersa em significações que transcendem a causalidade genética.

O nascimento do racismo na Alemanha – Hannah Arendt

Este artigo analisa a gênese da ideologia racista na Alemanha segundo Hannah Arendt, contrastando-a ao modelo francês. Investiga-se como a derrota prussiana e o romantismo político forjaram uma unidade baseada no “parentesco de sangue” em resposta à falta de coesão nacional. A análise destaca o papel da classe média intelectual na criação da “personalidade inata”, conceito que naturalizou privilégios sociais e fundamentou o antissemitismo ao rotular o judeu como inatamente desprovido de caráter. Conclui-se que essa mística orgânica, ao substituir a realidade política, transformou o isolamento ético em ferramenta de dominação e preparou o terreno para o imperialismo moderno.

A cumplicidade é uma trama

O presente texto analisa a exclusão social e ética a partir do desalinhamento entre o habitus e a doxa de um campo. Integrando a sociologia de Bourdieu, a dramaturgia de Goffman e a análise do discurso de Pêcheux, propõe-se o conceito de “trama de cumplicidade”. Esta trama é definida por um sistema de antecipações imaginárias e reconhecimentos mútuos (“eu sei que você sabe”) que sustenta a agência do ator social. O estudo argumenta que a adequação interacional é pré-reflexiva; quando essa cumplicidade falha, o indivíduo é destituído de sua subjetividade, sendo reduzido a “cenário” no jogo social. Conclui-se que o isolamento físico é a concretização de um isolamento ético e existencial prévio, onde a negação do acesso aos códigos da trama impede o pertencimento e compromete a alteridade, transformando o papel esperado em um enigma insolúvel para o sujeito excluído.

Trend “treinando caso ela diga não” é uma catarse do feminicídio

Este artigo analisa a trend “caso ela diga não” no TikTok, onde criadores encenam agressões contra parceiras após rejeição. Longe de ser apenas “humor do absurdo”, a prática revela uma catarse voltada à reafirmação da masculinidade hegemônica em crise. Apoiando-se em Butler, Althusser e Bauman, discute-se como esses vídeos funcionam como atualizadores de uma performatividade violenta. O humor, aqui, atua como gênero estruturante que mantém a cumplicidade social. Conclui-se que o conteúdo cristaliza a necessidade de obliterar o outro para a manutenção de uma honra masculina arcaica.

“Ele não acredita no que fala, é só um personagem”

O presente artigo analisa a tendência contemporânea de desqualificar discursos públicos nocivos sob a justificativa de serem “apenas personagens”. Através da sociologia de Erving Goffman, argumenta-se que a “fachada” e a representação social são constituintes da interação, tornando a crença íntima do emissor irrelevante diante do efeito produzido no mundo. O texto explora a “trama da cumplicidade” na cultura brasileira, dialogando com Sérgio Buarque de Holanda e Michel Pêcheux para demonstrar como a busca por uma autenticidade psicológica ignora a eficácia do sentido no corpo social. Conclui-se que a interpelação ideológica e os danos coletivos — como o machismo e o negacionismo — operam independentemente da sinceridade do ator, deslocando a responsabilidade ética do foro íntimo para a consequência objetiva da prática verbal na esfera pública.

A origem do racismo na Europa – Hannah Arendt

Este ensaio investiga a gênese do racismo em Hannah Arendt, localizando as raízes da ideologia nazista na aristocracia francesa do século XVIII. O objetivo é analisar como a distinção de castas de Boulainvilliers fraturou a unidade nacional ao alegar uma ascendência germânica superior para a nobreza, reduzindo o povo francês à condição de súdito conquistado. Por meio de uma revisão teórica de As Origens do Totalitarismo, observa-se a transição do “direito de conquista” para um determinismo a-histórico. Conclui-se que a transformação dessa narrativa em doutrina racial por Gobineau substituiu a política pela biologia, estabelecendo a “internacional da aristocracia” como precursora da ideologia supranacional. Assim, o racismo emerge não como fenômeno biológico original, mas como recurso de classe para sustentar hierarquias de poder.

Por que entendemos que a obra é um reflexo da consciência do artista?

O texto analisa a recepção da obra de arte sob a ótica de Bourdieu e Foucault, defendendo que o sentido de uma produção não emana apenas do autor, mas do olhar socialmente construído do receptor. O autor argumenta que existe uma clivagem de classe na percepção estética: enquanto o campo artístico legítimo valoriza a forma e a autonomia da obra, o público com menor capital cultural tende a aplicar critérios da “ética de vida”, reduzindo a criação a uma função moral ou biográfica. Essa dinâmica transforma a “posição-autor” no centro do julgamento, revelando como a interpretação da arte é moldada por habitus distintos e pela segregação social, que define quem possui os critérios para descolar o objeto artístico da moralidade de quem o criou.

Big Brother é o alívio político de uma população despolitizada – V. Magnaroli

O Big Brother é um programa de televisão. Um jogo de entretenimento. É legítima sua existência na nossa realidade e acompanhá-lo não torna um sujeito menos inteligente ou menos crítico. Como qualquer programa de entretenimento, ele abre um espaço para abaixarmos a guarda. Não há nada de errado nisso e não há nada de exceção…

O outro real e o outro imaginado

O presente texto analisa a alteridade como uma condição ontológica manifesta na imprevisibilidade do contato, argumentando que o “outro”, para o eu, constitui-se a partir da vulnerabilidade sentida. Discute-se como a racionalidade neoliberal e o saber científico-disciplinar operam na neutralização dessa alteridade, convertendo sujeitos em “objetos humanos instáveis” e previsíveis, o que anula o potencial transformador da interação. Através da recuperação do conceito de “cuidado de si” em Michel Foucault, o trabalho propõe uma ética da autorreflexão material — exemplificada pela escrita de si — como forma de resistência à homogeneização das normas e manuais de conduta. Conclui-se que a interação casual e a aceitação da imprevisibilidade são fundamentais para uma constituição do eu que transcenda a submissão, permitindo uma inserção autêntica e singular no campo social e político.