Quando a obra de arte é produzida, não pertence mais ao autor. Quando o autor a produz, ela passa a ser objeto. Mesmo que seja produto da consciência do autor, mesmo que seja produto do esforço solitário do criador, a obra de arte não se constitui somente pelo trabalho, mas também pelo olhar. Este texto busca se inserir na mesma conversa iniciada pela pesquisadora Lorena Varela no texto “Existe crime na literatura?”, publicado no Medium da UNIFESP.
O olhar não é um ato meramente subjetivo, pois é uma prática social. Olhar é aplicar as malhas da linguagem sobre o objeto e torná-lo passível de reconhecimento, ainda que seja a partir do estranhamento. Olhar é aplicar o discurso no mesmo momento em que o discurso nos conduz, como fica subentendido nas arqueologias do saber foucaultianas, principalmente em O Nascimento da Clínica (1977). Talvez, também, em História da Loucura (2012) isso seja facilmente observável, na medida em que o olhar sobre o louco — a possibilidade de sua identificação sem a necessidade da presença de um médico — é um dos enunciados delimitados por Michel Foucault.