“Eu sou motoboy, por que eu tenho que defender quem dá o c…?”

Este artigo analisa o discurso de Paulo Galo, explorando a tensão entre a militância digital e a figura do "trabalhador humilde". Através de uma lente discursiva, discute-se a "polícia da enunciação" que prioriza o significante sobre o sentido. Argumenta-se que Galo substitui o conflito de classes por uma ética cristã do sofrimento, onde a "chucrice" é convertida em capital simbólico. A análise revela como essa oposição entre o pobre virtuoso e o acadêmico arrogante fragmenta a organização política brasileira.

Nos últimos dias, a polêmica produzida pela entrevista de Paulo Galo, o Galo de Luta, líder grevista de motoboys que ganhou projeção justamente pela organização inédita da categoria, causou certo alvoroço nas esquerdas jovens brasileiras.

Tanto por suas declarações, como por sua crítica direta ao Jones Manoel, recém-filiado ao PSOL e pré-candidato a deputado federal por Pernambuco.

A diferença de idade num relacionamento amoroso

No mês passado, fiz um vídeo no canal do Colunas Tortas sobre o interesse de homens mais velhos em mulheres de 18 anos. Este interesse, aliás, não é individual e meramente subjetivo, há um fenômeno social que torna a idade da mulher um alavancador de fantasias ou legitimidade para relacionamentos “puros”, “bons”, “de longa duração”…

Não existem comportamentos naturais em sociedade

O texto propõe a distinção entre “comportamento” — mecânico e biológico — e “conduta” — categoria ética e social. Através da análise de instintos e da teoria skinneriana, argumenta-se que ações biológicas só ganham sentido quando reconhecidas socialmente. Conclui-se que não há condutas naturais: toda performance em sociedade está imersa em significações que transcendem a causalidade genética.

O nascimento do racismo na Alemanha – Hannah Arendt

Este artigo analisa a gênese da ideologia racista na Alemanha segundo Hannah Arendt, contrastando-a ao modelo francês. Investiga-se como a derrota prussiana e o romantismo político forjaram uma unidade baseada no “parentesco de sangue” em resposta à falta de coesão nacional. A análise destaca o papel da classe média intelectual na criação da “personalidade inata”, conceito que naturalizou privilégios sociais e fundamentou o antissemitismo ao rotular o judeu como inatamente desprovido de caráter. Conclui-se que essa mística orgânica, ao substituir a realidade política, transformou o isolamento ético em ferramenta de dominação e preparou o terreno para o imperialismo moderno.

A cumplicidade é uma trama

O presente texto analisa a exclusão social e ética a partir do desalinhamento entre o habitus e a doxa de um campo. Integrando a sociologia de Bourdieu, a dramaturgia de Goffman e a análise do discurso de Pêcheux, propõe-se o conceito de “trama de cumplicidade”. Esta trama é definida por um sistema de antecipações imaginárias e reconhecimentos mútuos (“eu sei que você sabe”) que sustenta a agência do ator social. O estudo argumenta que a adequação interacional é pré-reflexiva; quando essa cumplicidade falha, o indivíduo é destituído de sua subjetividade, sendo reduzido a “cenário” no jogo social. Conclui-se que o isolamento físico é a concretização de um isolamento ético e existencial prévio, onde a negação do acesso aos códigos da trama impede o pertencimento e compromete a alteridade, transformando o papel esperado em um enigma insolúvel para o sujeito excluído.

Trend “treinando caso ela diga não” é uma catarse do feminicídio

Este artigo analisa a trend “caso ela diga não” no TikTok, onde criadores encenam agressões contra parceiras após rejeição. Longe de ser apenas “humor do absurdo”, a prática revela uma catarse voltada à reafirmação da masculinidade hegemônica em crise. Apoiando-se em Butler, Althusser e Bauman, discute-se como esses vídeos funcionam como atualizadores de uma performatividade violenta. O humor, aqui, atua como gênero estruturante que mantém a cumplicidade social. Conclui-se que o conteúdo cristaliza a necessidade de obliterar o outro para a manutenção de uma honra masculina arcaica.

“Ele não acredita no que fala, é só um personagem”

O presente artigo analisa a tendência contemporânea de desqualificar discursos públicos nocivos sob a justificativa de serem “apenas personagens”. Através da sociologia de Erving Goffman, argumenta-se que a “fachada” e a representação social são constituintes da interação, tornando a crença íntima do emissor irrelevante diante do efeito produzido no mundo. O texto explora a “trama da cumplicidade” na cultura brasileira, dialogando com Sérgio Buarque de Holanda e Michel Pêcheux para demonstrar como a busca por uma autenticidade psicológica ignora a eficácia do sentido no corpo social. Conclui-se que a interpelação ideológica e os danos coletivos — como o machismo e o negacionismo — operam independentemente da sinceridade do ator, deslocando a responsabilidade ética do foro íntimo para a consequência objetiva da prática verbal na esfera pública.

A origem do racismo na Europa – Hannah Arendt

Este ensaio investiga a gênese do racismo em Hannah Arendt, localizando as raízes da ideologia nazista na aristocracia francesa do século XVIII. O objetivo é analisar como a distinção de castas de Boulainvilliers fraturou a unidade nacional ao alegar uma ascendência germânica superior para a nobreza, reduzindo o povo francês à condição de súdito conquistado. Por meio de uma revisão teórica de As Origens do Totalitarismo, observa-se a transição do “direito de conquista” para um determinismo a-histórico. Conclui-se que a transformação dessa narrativa em doutrina racial por Gobineau substituiu a política pela biologia, estabelecendo a “internacional da aristocracia” como precursora da ideologia supranacional. Assim, o racismo emerge não como fenômeno biológico original, mas como recurso de classe para sustentar hierarquias de poder.

Por que entendemos que a obra é um reflexo da consciência do artista?

O texto analisa a recepção da obra de arte sob a ótica de Bourdieu e Foucault, defendendo que o sentido de uma produção não emana apenas do autor, mas do olhar socialmente construído do receptor. O autor argumenta que existe uma clivagem de classe na percepção estética: enquanto o campo artístico legítimo valoriza a forma e a autonomia da obra, o público com menor capital cultural tende a aplicar critérios da “ética de vida”, reduzindo a criação a uma função moral ou biográfica. Essa dinâmica transforma a “posição-autor” no centro do julgamento, revelando como a interpretação da arte é moldada por habitus distintos e pela segregação social, que define quem possui os critérios para descolar o objeto artístico da moralidade de quem o criou.

Big Brother é o alívio político de uma população despolitizada – V. Magnaroli

O Big Brother é um programa de televisão. Um jogo de entretenimento. É legítima sua existência na nossa realidade e acompanhá-lo não torna um sujeito menos inteligente ou menos crítico. Como qualquer programa de entretenimento, ele abre um espaço para abaixarmos a guarda. Não há nada de errado nisso e não há nada de exceção…