A figura do outro é como uma fantasia inacessível que só se torna real na imprevisibilidade do contato. É na interação que o outro se mostra como tal e se faz impossível de acesso.
Paradoxalmente, é justamente no acesso que o outro se mostra impenetrável. Não se trata de uma barreira intencional, mas ontológica. O outro é inacessível pois há um limite na própria cognição e na própria apresentação de si no mundo.
O outro, assim, só é realmente outro quando de maneira nenhuma é objeto. Objeto é aquele que funciona para satisfazer uma fantasia individual. O alvo do preconceito, por exemplo, não é um sujeito, aos olhos do preconceituoso, mas sim um objeto. Um objeto instável, mas ainda previsível. A imprevisibilidade atribuída à figura do alvo quando o classificam como selvagem, incivilizado, é uma falta de previsibilidade imediata: não se sabe qual será sua reação, mas se sabe nitidamente que ele não é detentor da civilidade necessária para a vida na comunidade dos educados.
O ex-detento não é visto como um sujeito imprevisível, mas como um objeto humano instável; o mesmo ocorre com o usuário de drogas. A inacessibilidade constituinte do sujeito foi, há muito, destruída por uma acessibilidade plena, preenchida, muitas vezes, por análises científicas preditivas construídas sob o ritmo de uma escrita disciplinar, distribuídas pela mídia e difundidas pelo senso comum. Quando a fantasia sobre o outro se eleva, a possibilidade de que este — transformado em objeto — de fato toque nossa pele e gere o efeito transformador da imprevisibilidade torna-se quase nula.
Quando a fantasia do outro se eleva, a possibilidade deste outro, que se transforma em objeto de nossa fantasia, de fato tocar nossa pele e gerar o efeito transformador da imprevisibilidade é quase nula.
Isso, pois, quando eu já sei o que o outro é, quando eu já sei que ele não é sujeito o bastante, eu também já sei que minha postura frente o outro está sempre garantida. A aprovação social está garantida, a legitimidade cognitiva impera: o saber do sujeito frente ao outro-objeto é pleno.
A transformação de si pode ocorrer de dentro para fora, como nos manuais de meditação contemporâneos e adaptados à vida neoliberal, e de fora para dentro, como na moral cristã. Talvez, a contribuição mais interessante dos estudos de Michel Foucault acerca do cuidado de si seja a percepção de que o movimento do cuidado em certo período da Grécia Antiga era definido por um incessante movimento de dentro para fora e fora para dentro. Ou seja, a ética que guia um cuidado de si promove a autorreflexão enquanto parte de um processo em que a matéria é direcionada para si, de tal maneira que o corpo, ao ser atingido por ela, possa se modificar para atingir um objetivo geral.
Participar da política e, assim, cuidar da cidade, envolve inicialmente cuidar de si próprio. Cuidar de si próprio envolve um movimento incessante de trabalho sobre o próprio corpo. Na manutenção de um diário, a palavra que é escrita do lado de fora do corpo sai de uma reflexão do lado de dentro. Mas na leitura do diário, as mesmas palavras que antes estavam do lado de dentro precisarão ser lidas já num momento em que estão do lado de fora. A palavra que sai não entra da mesma forma. Não se é o mesmo que escreve quando se lê, mas a própria escrita modifica o sujeito, assim como a própria leitura. A diferença que é a transformação guiada por objetivos pouco delimitados, amplos, gerais, permite uma manifestação singular do sujeito na vida social, qualitativamente diferente do resultado do mesmo processo feito pelos outros sujeitos. Uma transformação guiada por objetivos ultra delimitados, como quando o manual de etiqueta ou o manual da Bíblia se tornam as referências, tem como resultado a homogeneidade.
A transformação a partir desta introspecção é material. Está situada na materialidade discursiva do processo de transformação de si, na materialidade linguística do diário e na materialidade social do mundo que gera experiências ao sujeito.
O ponto é: a descoberta do outro é um momento de vulnerabilidade que não acontece naturalmente. O outro, para o eu, nunca é, mas se faz como outro a partir da vulnerabilidade sentida por nós. Não é necessária uma evocação da empatia nem da condescendência. A vulnerabilidade pode facilmente ser assumida num evento traumático. O existência do outro real não pede licença, mas aparece como numa imposição.
E, num jogo de imposição de si no mundo, é este outro que fornece o contato da própria transformação de si. Quando o outro é capturado pela mesma estrutura moral que o sujeito tenta aplicar em si próprio, ele já está captura e produzido por esta moral. O olhar do sujeito, por mais que se entenda subjetivamente como aquele que está em tentativa de adequação, compreende o outro como pronto, nem que seja sob o signo condescendente de um outro que está em processo de adequação. O processo de adequação do eu é guiado por uma subjetividade errante, o processo de adequação do outro é guiado por uma disciplina. O eu se submete, o outro é submetido. É por isso que o eu, sob as normas externas, se faz enquanto um outro. É por isso que a autenticidade é uma questão contemporânea. É por isso, por fim, que a psicopolítica neoliberal trabalha na incorporação da norma, não mais na vigilância absoluta do indivíduo. O imperativa da produtividade não é mais uma norma externa, mas funciona como uma força motriz do trabalhador especializado nos grandes centros urbanos.
A questão da autenticidade é resolvida pela introjeção da própria norma. Desta forma, ela passa a ser incorporada como parte da autenticidade. “Empoderamento”.
O outro é aquele que não permite que a incorporação da norma se torne empoderamento, na medida em que o outro mostra o imprevisível do real. O outro é a existência do mundo num contexto autocentrado. O outro-objeto é a realização deste autocentramento.
Desta forma, a simples interação casual é um momento oportuno para que o outro emerja e o eu se faça presente no real. Para que, controladamente, a imprevisibilidade assuma sua importância na própria constituição do eu realizada num processo que não se limita somente à submissão, mas se expande na imposição de si no mundo.
Referências
BUTLER, Judith. Vidas precárias.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir.
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade Vol 3, Cuidado de si.
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica.
LÉVINAS, Emmanuel. Entre nós: Ensaios sobre a alteridade.
Instagram: @viniciussiqueiract
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.
Autor dos e-books:
Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;
Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.

