A diferença de idade num relacionamento amoroso

No mês passado, fiz um vídeo no canal do Colunas Tortas sobre o interesse de homens mais velhos em mulheres de 18 anos. Este interesse, aliás, não é individual e meramente subjetivo, há um fenômeno social que torna a idade da mulher um alavancador de fantasias ou legitimidade para relacionamentos “puros”, “bons”, “de longa duração”…

Não existem comportamentos naturais em sociedade

O texto propõe a distinção entre “comportamento” — mecânico e biológico — e “conduta” — categoria ética e social. Através da análise de instintos e da teoria skinneriana, argumenta-se que ações biológicas só ganham sentido quando reconhecidas socialmente. Conclui-se que não há condutas naturais: toda performance em sociedade está imersa em significações que transcendem a causalidade genética.

A cumplicidade é uma trama

O presente texto analisa a exclusão social e ética a partir do desalinhamento entre o habitus e a doxa de um campo. Integrando a sociologia de Bourdieu, a dramaturgia de Goffman e a análise do discurso de Pêcheux, propõe-se o conceito de “trama de cumplicidade”. Esta trama é definida por um sistema de antecipações imaginárias e reconhecimentos mútuos (“eu sei que você sabe”) que sustenta a agência do ator social. O estudo argumenta que a adequação interacional é pré-reflexiva; quando essa cumplicidade falha, o indivíduo é destituído de sua subjetividade, sendo reduzido a “cenário” no jogo social. Conclui-se que o isolamento físico é a concretização de um isolamento ético e existencial prévio, onde a negação do acesso aos códigos da trama impede o pertencimento e compromete a alteridade, transformando o papel esperado em um enigma insolúvel para o sujeito excluído.

Trend “treinando caso ela diga não” é uma catarse do feminicídio

Este artigo analisa a trend “caso ela diga não” no TikTok, onde criadores encenam agressões contra parceiras após rejeição. Longe de ser apenas “humor do absurdo”, a prática revela uma catarse voltada à reafirmação da masculinidade hegemônica em crise. Apoiando-se em Butler, Althusser e Bauman, discute-se como esses vídeos funcionam como atualizadores de uma performatividade violenta. O humor, aqui, atua como gênero estruturante que mantém a cumplicidade social. Conclui-se que o conteúdo cristaliza a necessidade de obliterar o outro para a manutenção de uma honra masculina arcaica.

“Ele não acredita no que fala, é só um personagem”

O presente artigo analisa a tendência contemporânea de desqualificar discursos públicos nocivos sob a justificativa de serem “apenas personagens”. Através da sociologia de Erving Goffman, argumenta-se que a “fachada” e a representação social são constituintes da interação, tornando a crença íntima do emissor irrelevante diante do efeito produzido no mundo. O texto explora a “trama da cumplicidade” na cultura brasileira, dialogando com Sérgio Buarque de Holanda e Michel Pêcheux para demonstrar como a busca por uma autenticidade psicológica ignora a eficácia do sentido no corpo social. Conclui-se que a interpelação ideológica e os danos coletivos — como o machismo e o negacionismo — operam independentemente da sinceridade do ator, deslocando a responsabilidade ética do foro íntimo para a consequência objetiva da prática verbal na esfera pública.

Por que entendemos que a obra é um reflexo da consciência do artista?

O texto analisa a recepção da obra de arte sob a ótica de Bourdieu e Foucault, defendendo que o sentido de uma produção não emana apenas do autor, mas do olhar socialmente construído do receptor. O autor argumenta que existe uma clivagem de classe na percepção estética: enquanto o campo artístico legítimo valoriza a forma e a autonomia da obra, o público com menor capital cultural tende a aplicar critérios da “ética de vida”, reduzindo a criação a uma função moral ou biográfica. Essa dinâmica transforma a “posição-autor” no centro do julgamento, revelando como a interpretação da arte é moldada por habitus distintos e pela segregação social, que define quem possui os critérios para descolar o objeto artístico da moralidade de quem o criou.

O outro real e o outro imaginado

O presente texto analisa a alteridade como uma condição ontológica manifesta na imprevisibilidade do contato, argumentando que o “outro”, para o eu, constitui-se a partir da vulnerabilidade sentida. Discute-se como a racionalidade neoliberal e o saber científico-disciplinar operam na neutralização dessa alteridade, convertendo sujeitos em “objetos humanos instáveis” e previsíveis, o que anula o potencial transformador da interação. Através da recuperação do conceito de “cuidado de si” em Michel Foucault, o trabalho propõe uma ética da autorreflexão material — exemplificada pela escrita de si — como forma de resistência à homogeneização das normas e manuais de conduta. Conclui-se que a interação casual e a aceitação da imprevisibilidade são fundamentais para uma constituição do eu que transcenda a submissão, permitindo uma inserção autêntica e singular no campo social e político.

A universidade pública é o alvo das fantasias pornográficas reacionárias

Se a fantasia pornográfica reacionária mostra um mundo de faz de conta que funciona como ameaça eterna à vida cristã reprimida, talvez seja no interior dessa fantasia que as gretas mostram sua utilidade. Talvez seja justamente a partir dessa fantasia que a fraqueza reacionária se mostra. 

Mulher na cozinha e homem na cozinha: os efeitos de sentido

A obrigação do ato de cozinhar para nutrir a prole se opõe à preferência pela cozinha no ato profissional do fazer culinário. Desta forma, se “mulher na cozinha” reproduz a desigualdade de gênero num gesto de evocação de uma suposta natureza feminina no ato de cuidar, “homem na cozinha” evoca a habilidade ou o estranhamento de um sujeito não pertencente à cozinha doméstica que, quando toma sua posse, a transforma em outro espaço discursivo.