A classe média não existe

Classe média é um rótulo ao mesmo tempo confuso e poderoso: é o centro de um imaginário derrogatório, é demarcador social, é sinal de alta renda. A busca por uma classe média feita nos governos do Partido dos Trabalhadores foi um objetivo de criar um conceito brasileiro de classe média no momento em que a renda das camadas mais baixas estavam se elevando.

A nova classe média brasileira teria o rendimento de um trabalhador formal com especialização. Isso gerava uma tensão específica: se, por um lado, este trabalhador formal era enquadrado como membro da classe média, por outro lado, era improvável que ele se autodeclarasse desta maneira.

Gostaria de reavivar uma discussão sobre classe média a partir das observações de Salata (2015) num artigo chamado “Quem é Classe Média no Brasil?”.

A classe média brasileira é um fenômeno pouco ligado à realidade econômica brasileira. Basicamente, a classe média brasileira faz parte daqueles situados na camada salarial mais alta e, ao mesmo tempo, não correspondem à média estatística do rendimento brasileiro.

E classe média já é a figura do rico. Talvez do menos rico. Do rico que os pobres conhecem.

A fim de aprofundar nossa análise, no decorrer deste artigo tomamos como objeto não somente as identidades de classe, mas, também, as percepções dos indivíduos sobre o que os mesmos consideram ser necessário para fazer parte da classe média. Como resultado, vimos que parece haver um consenso, que percorre os vários estratos sociais, acerca da importância de algumas características que uma pessoa deve ter a fim de fazer parte da classe média no Brasil; e isso é ainda mais surpreendente quando levamos em conta a natureza das características avaliadas, que incluem renda alta, nível superior de escolaridade, ocupação de prestígio, acesso a lazer e diversão, padrão de vida estável etc. Essas são características que, com algumas ressalvas, poderiam facilmente ser compartilhadas pelos indivíduos e famílias provenientes das camadas mais abastadas da sociedade brasileira (perfil AB), mas dificilmente corresponderiam à realidade daqueles que estão situados em posições intermediárias, ou seja, a chamada “classe média estatística” (Salata, 2015, pp.134-135).

A estabilidade de vida, firmada na composição do capital social, cultural e econômico desta posição de classe, a faz ter um destino mais ou menos retilíneo baseado na completa ausência de dificuldades financeiras e de todas aquelas que surgem a partir da primeira (moradia, contas do mês etc.).

Mais que uma vida estável, a classe média é aquela que consegue utilizar o mercado de consumo como demarcador de classe para se afastar da classe trabalhadora e, ao mesmo tempo, construir um mundo autônomo na medida em que não é possível alcançar o mundo dos ricos, da pequena leva de 70 bilionários e suas famílias, além das outras 386 mil pessoas com patrimônio superior a US$ 1 milhão.

A classe média brasileira, assim, não é exatamente média, pelo menos não no sentido estatístico. A palavra média precisa ser retirada do seu contexto matemático. O termo “classe média” é uma transposição do imaginário sobre a classe média europeia e estadounidense. Esta transposição naturalmente é recolocada no território nacional com algumas modificações: o mais importante não é a vida “média” desta classe média, mas é a vida enquanto fenômeno autônomo.

O que veio com a incorporação do imaginário da classe média do Norte Global foi uma produção simbólica que não se refere à realidade brasileira, mas à possibilidade de participar da realidade do norte. Quase como um caminho para se pedir permissão. Quase como uma forma de afirmar uma posição distanciada da majoritária realidade brasileira.

Esses resultados corroboram os argumentos levantados pela literatura sociológica mais recente sobre a classe média brasileira (O’Dougherty, 2002; Owensby, 1999). Tais autores, como vimos, afirmam que a ideia de classe média no Brasil teria sido formada tendo como referência a imagem – um tanto idealizada – da classe média europeia e norte-americana. Isso significa que, conforme verificado em nossas análises empíricas, apenas os setores mais abastados da população brasileira seriam capazes de corresponder àquele ideal. Dessa maneira, a análise aqui empreendida corrobora nossa hipótese, mostrando que no Brasil a classe média – ao menos na condição de uma coletividade com a qual os indivíduos se identificam, e são identificados – não corresponde às características dos setores intermediários (intervalo de renda “C”) da população brasileira; ao contrário, ela estaria muito mais próxima do perfil “AB”, dos indivíduos e famílias mais abastados. (Salata, 2015, p. 135)

Classe média, assim, parece ser muito mais um conceito dos estudos culturais e dos estudos sobre o capitalismo global, colonização e imperialismo do que exatamente dos estudos econômicos, que tentou criar seu conceito de classe média no Brasil na emergência da classe C. Entretanto, esta classe não se considera classe média. A referência de o que é um membro da classe média está muito mais localizada nas novelas que se passam em Ipanema ou Barra da Tijuca do que na conta bancária. O dinheiro é extremamente importante na medida em que permite adentrar no mercado de consumo, mas existe algo além no olhar dos sujeitos, há uma busca de ver a estabilidade afirmada a partir do consumo cotidiano daquilo que, para a maioria das família, é raro.

Deve-se ter em vista, portanto, que dada a posição periférica de países como o Brasil, a ideia de “classe média” surgiu nos chamados países centrais, e foi posteriormente absorvida pela sociedade brasileira no contexto específico de meados do século XX. Conforme argumentado por autores como Owensby (1999), numa situação em que os países centrais eram vistos como ápice do desenvolvimento em direção ao qual, acreditava-se, o Brasil estava começando a caminhar, ser reconhecido como pertencente à “classe média” significava ser reconhecido como parte desse mundo “desenvolvido”. Significava, portanto, uma posição social superior, que deveria corresponder a certo grau de prestígio ou status social. Afirmava-se, dessa maneira, aquilo que Souza (2003) identificara como a separação simbólica entre “europeizados” e “não europeizados”; e se reconhecer e ser reconhecido como membro da “classe média” significa(va) também fazer parte da primeira categoria. (Salata, 2015, p. 135)

Desta forma, considerando que o membro da classe média não pertence à realidade cotidiana da maioria dos brasileiros, não vive uma vida de perrengues num país de pobreza escancarada, não participa das relações cotidianas com o povo brasileiro de maneira horizontal, então, ao ser membro da classe média, talvez não seja membro do povo brasileiro.

A classe média que incorpora o habitus não é povo.

Na verdade, a existência da oposição entre ricos e pobres que talvez seja construída na mesma lógica da oposição entre nobre e povo no contexto brasileiro torna a classe média como lugar em que não se está no meio do povo e, apesar de não pertencer ao espaço dos ricos, ainda é possível construir um espaço próprio para manter distância do povo (do “povão”).

A classe, enquanto identidade, precisa de uma abordagem que envolva a percepção das próprias pessoas. A divisão por faixa de renda é simples, mas o conceito complexo de classe vai utilizar o dado de renda somente como uma possibilidade de iniciar a investigação sobre o tema.

Conforme procuramos argumentar anteriormente, baseando-nos na bibliografia recente sobre o tema, as identidades de classe devem ser tomadas não como percepções corretas ou equivocadas de uma dada posição objetiva definida a priori, mas como reivindicações de pertencimento que participam ativamente na própria formação, manutenção e questionamento dos contornos das classes e hierarquias sociais. (Salata, 2015, pp. 135-136)

Da própria maneira como as pessoas se veem no interior de uma vida social complexa, em comparação com outras pessoas e tendo como referência os imaginários brasileiros acerca da estratificação social demarcam a classe a que pertencem.

Na medida em que esta reivindicação não é um dado isolado. Ela acontece em conjunto com demarcadores de vida variados, como escolaridade e profissão. A classe média que quer ser classe média sabe que o dinheiro não pode ser o ponto principal, na medida em que a modéstia é um azeite social. A vida estável, produto de uma renda alta estável, acaba sendo o grande medidor.

Como entender analise do discurso para Pecheux

Referência

SALATA, A. R.. Quem é Classe Média no Brasil? Um Estudo sobre Identidades de
Classe*. Dados, v. 58, n. 1, p. 111–149, jan. 2015.

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