Identidade política e política de identidade são conceitos completamente diferentes.
A política de identidade é toda forma mais ou menos sistemática de interagir com uma pessoa que carrega algum estigma. É a partir desta política que um sujeito é captura e enquadrado numa identidade que limita ou diminui sua presença na vida cotidiana.
Já a identidade política é aquela que permite a associação ao fazer político, ao exercício da cidadania, em conjunto com uma experiência de atividade em grupo que altera qualitativamente a vida de todos. Todas as informações são retiradas de Dantas (2017).
O que define os caminhos de nossa identidade é o conceito de metamorfose. Dantas está realizando uma elaboração sobre a teoria de Antonio da Costa Ciampa, famoso psicólogo social brasileiro:
Compreender a metamorfose como condição da identidade também nos é de fundamental importância e é uma das grandes contribuições da teoria ciampiana.
Na análise dos relatos de história de vida, temos a tendência a jogar foco sobre momentos de ruptura, em que, geralmente, uma personagem foi substituída ou sensivelmente alterada, o que promoveu mudanças significativas na relação do indivíduo com o mundo e consigo mesmo e, inclusive, procuramos destacar processos metamorfósicos que tenham um desfecho emancipatório, de maior “ser-para-si”, de maior busca de autonomia (DANTAS, 2017, p. 5).
Uma história de vida só é coerente e harmônica se a escolha foi de contá-la desta maneira. Como a ruptura é acontecimento cotidiano geralmente escondido da nossa percepção como subproduto da vida, jogá-la às claras é uma forma de demonstrar como a transformação é o movimento mais básico na construção da identidade.
Mas mais importante que isso: a coerência e a harmonia não são naturais. São esperadas, fazem parte de um entendimento racional de como o mundo de movimenta, ajudam nossa consciência a compreender o mundo imediato, mas são só conceitos. Na realidade de uma trajetória de vida, todos os caminhos possíveis são trilhados, até aqueles que não podem ser vistos.
Um caminho invisível é o da eterna repetição da mesma identidade, independente do motivo. Tudo se passa como se fosse um estado de permanência, uma fixidez inegociável, mas o trabalho de manutenção de uma identidade, de eterna repetição dos moldes desta identidade, este trabalho tende a ser extenuante:
Entretanto, essa prática pode resultar num falso entendimento de que só nesses momentos a metamorfose acontece, o que não é verdade. É preciso compreender também que existe a situação de “aparência de não metamorfose”, quando avaliamos que, por aparentemente não haver nenhuma grande mudança (poderíamos dizer que a representação de si aparenta estar igual), achamos que a identidade do indivíduo se cristalizou (DANTAS, 2017, p. 5).
Na relação entre indivíduo e mundo, o papel social é o elemento que confere inteligibilidade à conduta social humana. Ou seja, o papel social não é meramente um conjunto de normas impostas aos indivíduos, mas é o próprio critério de percepção de uma realidade específica: por mais que um sujeito não se comporte como pai, ele ainda será avaliado segundo o papel social de pai (provavelmente, com uma avaliação negativa).
Desta forma, numa submissão completa ao papel social e à política de identidade, a relação de transformação parece terminar. A identidade aparenta ser uma peça imóvel, mas a medida em que a força das constrições sociais forçaram a permanecer a mesma.
A batalha que vale a pena gira torno da construção de espaços em que a diferença não é disruptiva, mas parte de uma cotidianidade, em que a identidade pode autonomamente transitar por diferentes caminhos sem esbarrar em normas de grupo.
O que Ciampa (1987/2009) propõe é que a identidade é necessariamente um processo de metamorfose. O que está ocorrendo no caso da aparência de não metamorfose é um movimento de “re-posição” da identidade, de mesmice, que, dependendo das condições (e principalmente quando há mudanças significativas no contexto em que o processo identitário se dá), fazer esse movimento de “re-posição” é mais difícil e exige mais do indivíduo do que seguir o fluxo natural que é o processo de identidade-metamorfose (DANTAS, 2017, p. 5).
Na vida cotidiana, há diversos momentos de pequenas rupturas, de pequenos fragmentos que se soltam e permitem que os indivíduos toquem na emancipação, no horizonte emancipatório como horizonte de vida.
Nestes momentos, os fragmentos de emancipação que são liberados pela metamorfose da identidade proporcionam a oportunidade ao indivíduo de se aproximar do desejo de “vida boa”. Nas palavras de Habermas, uma vida que foi escolhida de forma livre, que evitou processos coercitivos de escolha e pode se realizar livremente pelo sujeito que a vive.
Referência
DANTAS, S. S. Identidade política e projetos de vida: uma contribuição à teoria de Ciampa. Psicologia & Sociedade, v. 29, p. e172030, 2017.
Instagram: @viniciussiqueiract
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.
Autor dos e-books:
Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;
Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.

