Identidade é metamorfose

O artigo discute a constituição da identidade a partir da teoria de Antonio da Costa Ciampa. Diferencia-se a "política de identidade", que estigmatiza e limita o sujeito, da "identidade política", associada ao exercício coletivo da cidadania. O núcleo da identidade é a metamorfose contínua, contrapondo-se à ilusão de fixidez. A "aparência de não metamorfose" surge quando o indivíduo repete exaustivamente a mesma identidade ("re-posição"), um esforço extenuante para manter papéis sociais e submeter-se a constrições externas. Embora a sociedade valorize histórias de vida lineares e coerentes, as rupturas são quotidianas. É através de pequenas ruturas e do fluxo natural da identidade-metamorfose que se libertam fragmentos de emancipação. Estes fragmentos viabilizam a autonomia e a busca por uma "vida boa" — livremente escolhida e isenta de coerções, aproximando o sujeito da emancipação social e pessoal.

Identidade política e política de identidade são conceitos completamente diferentes.

A política de identidade é toda forma mais ou menos sistemática de interagir com uma pessoa que carrega algum estigma. É a partir desta política que um sujeito é captura e enquadrado numa identidade que limita ou diminui sua presença na vida cotidiana.

Já a identidade política é aquela que permite a associação ao fazer político, ao exercício da cidadania, em conjunto com uma experiência de atividade em grupo que altera qualitativamente a vida de todos. Todas as informações são retiradas de Dantas (2017).


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O que define os caminhos de nossa identidade é o conceito de metamorfose. Dantas está realizando uma elaboração sobre a teoria de Antonio da Costa Ciampa, famoso psicólogo social brasileiro:

 

Compreender a metamorfose como condição da identidade também nos é de fundamental importância e é uma das grandes contribuições da teoria ciampiana.

Na análise dos relatos de história de vida, temos a tendência a jogar foco sobre momentos de ruptura, em que, geralmente, uma personagem foi substituída ou sensivelmente alterada, o que promoveu mudanças significativas na relação do indivíduo com o mundo e consigo mesmo e, inclusive, procuramos destacar processos metamorfósicos que tenham um desfecho emancipatório, de maior “ser-para-si”, de maior busca de autonomia (DANTAS, 2017, p. 5).

Uma história de vida só é coerente e harmônica se a escolha foi de contá-la desta maneira. Como a ruptura é acontecimento cotidiano geralmente escondido da nossa percepção como subproduto da vida, jogá-la às claras é uma forma de demonstrar como a transformação é o movimento mais básico na construção da identidade.

Mas mais importante que isso: a coerência e a harmonia não são naturais. São esperadas, fazem parte de um entendimento racional de como o mundo de movimenta, ajudam nossa consciência a compreender o mundo imediato, mas são só conceitos. Na realidade de uma trajetória de vida, todos os caminhos possíveis são trilhados, até aqueles que não podem ser vistos.

Um caminho invisível é o da eterna repetição da mesma identidade, independente do motivo. Tudo se passa como se fosse um estado de permanência, uma fixidez inegociável, mas o trabalho de manutenção de uma identidade, de eterna repetição dos moldes desta identidade, este trabalho tende a ser extenuante:

Entretanto, essa prática pode resultar num falso entendimento de que só nesses momentos a metamorfose acontece, o que não é verdade. É preciso compreender também que existe a situação de “aparência de não metamorfose”, quando avaliamos que, por aparentemente não haver nenhuma grande mudança (poderíamos dizer que a representação de si aparenta estar igual), achamos que a identidade do indivíduo se cristalizou (DANTAS, 2017, p. 5).

Na relação entre indivíduo e mundo, o papel social é o elemento que confere inteligibilidade à conduta social humana. Ou seja, o papel social não é meramente um conjunto de normas impostas aos indivíduos, mas é o próprio critério de percepção de uma realidade específica: por mais que um sujeito não se comporte como pai, ele ainda será avaliado segundo o papel social de pai (provavelmente, com uma avaliação negativa).

Desta forma, numa submissão completa ao papel social e à política de identidade, a relação de transformação parece terminar. A identidade aparenta ser uma peça imóvel, mas a medida em que a força das constrições sociais forçaram a permanecer a mesma.

A batalha que vale a pena gira torno da construção de espaços em que a diferença não é disruptiva, mas parte de uma cotidianidade, em que a identidade pode autonomamente transitar por diferentes caminhos sem esbarrar em normas de grupo.

O que Ciampa (1987/2009) propõe é que a identidade é necessariamente um processo de metamorfose. O que está ocorrendo no caso da aparência de não metamorfose é um movimento de “re-posição” da identidade, de mesmice, que, dependendo das condições (e principalmente quando há mudanças significativas no contexto em que o processo identitário se dá), fazer esse movimento de “re-posição” é mais difícil e exige mais do indivíduo do que seguir o fluxo natural que é o processo de identidade-metamorfose (DANTAS, 2017, p. 5).

Na vida cotidiana, há diversos momentos de pequenas rupturas, de pequenos fragmentos que se soltam e permitem que os indivíduos toquem na emancipação, no horizonte emancipatório como horizonte de vida.

Nestes momentos, os fragmentos de emancipação que são liberados pela metamorfose da identidade proporcionam a oportunidade ao indivíduo de se aproximar do desejo de “vida boa”. Nas palavras de Habermas, uma vida que foi escolhida de forma livre, que evitou processos coercitivos de escolha e pode se realizar livremente pelo sujeito que a vive.

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Referência

DANTAS, S. S. Identidade política e projetos de vida: uma contribuição à teoria de Ciampa. Psicologia & Sociedade, v. 29, p. e172030, 2017.

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