Não se nasce homem, torna-se homem.
Esse tornar-se homem se dá justamente pela socialização entre homens. É a partir de interações entre iguais que a diferença com o feminino é estabelecida e a incorporação do habitus masculino é produzida.
Esse tipo de socialização acontece na chamada casa dos homens:
Descrevi como a educação dos meninos nos lugares monossexuados (pátios de colégios, clubes esportivos, cafés…, mas mais globalmente o conjunto de lugares aos quais os homens se atribuem a exclusividade de uso e/ou de presença) estrutura o masculino de maneira paradoxal e inculca nos pequenos homens a ideia de que, para ser um (verdadeiro) homem, eles devem combater os aspectos que poderiam fazê-los serem associados às mulheres (Welzer-Lang, 2001, p. 462).
No momento em que as crianças do sexo masculino deixam o mundo do cuidado, o mundo das mulheres, e passam a se reagrupar com outros meninos, a socialização propriamente masculina, voltada para a constituição do homem, começa a funcionar.
[…] na qual emergem fortes tendências e/ou grandes pressões para viver momentos de homossexualidade. Competições de pintos, maratonas de punhetas (masturbação), brincar de quem mija (urina) o mais longe, excitações sexuais coletivas a partir de pornografia olhada em grupo, ou mesmo atualmente em frente às strip-poker eletrônicas, em que o jogo consiste em tirar a roupa das mulheres (Welzer-Lang, 2001, p. 462).
A casa dos homens é uma forma de elaborar as diferentes etapas da socialização masculina ao longo de seu desenvolvimento ou envelhecimento. A cada etapa da vida a construção do masculino se transforma e passa por novas experiências. É na casa dos homens em que a homossociabilidade é praticada, em que a experiência entre homens se torna exclusiva e privada. “Nesses grupos, os mais velhos, aqueles que já foram iniciados por outros, mostram, corrigem e modelizam os que buscam o acesso à virilidade. Uma vez que se abandona a primeira peça, cada homem se torna ao mesmo tempo iniciado e iniciador” (Welzer-Lang, 2001, p. 462).
A modelização é feita a partir de diversos sofrimentos. O sofrimento assume papel educativo e disciplinador: o corpo que sofre se torna homem e também orgulhoso de seu sofrimento. A masculinidade, assim, é um orgulho, uma conquista, um pertencimento associado à possibilidade de dominação.
Inicialmente, a criança precisa aceitar a lei dos mais velhos. Este é o preço para estar ao lado dos homens enquanto um postulante a ser homem. Os mais velhos vão ensinar as regras, o jeito de ser, o saber ser homem.
A maneira pela qual alguns homens se lembram dessa época e a emoção que transparece então parecem indicar que esses períodos constituem uma forma de rito de passagem (Welzer-Lang, 2001, p. 463).
É compreensível, portanto, que a própria formação do gosto pelas atividades associadas aos homens, como praticar esportes competitivos, possa ser entendido como a tentativa de ser como os outros homens com estatuto masculino legitimado.
Entrar em círculos masculinos e praticar aquilo que os homens legitimados enquanto homens praticam é, ao mesmo tempo, incorporar e respeitar os códigos necessários para ser homem, assim como, aprender aquilo que não é dito.
Um desses não-ditos, que alguns anos mais tarde relatam os rapazes já tornados homens, é que essa aprendizagem se faz no sofrimento. Sofrimentos psíquicos de não conseguir jogar tão bem quanto os outros. Sofrimentos dos corpos que devem endurecer para poder jogar corretamente. Os pés, as mãos, os músculos… se formam, se modelam, se rigidificam por uma espécie de jogo sadomasoquista com a dor (Welzer-Lang, 2001, p. 463).
É aqui que a glorificação da dor se faz real: o postulante a ser homem deve não só aceitar o sofrimento como não exprimir qualquer reclamação. É assim que o habitus é incorporado, que os gestos e os jeitos de ser começam a fazer parte da carne deste novo sujeito-homem que está em construção. A violência, assim, passa a se tornar integrante da própria intermediação do sujeito-homem:
Para os homens, como para as mulheres, a educação se faz por mimetismo. Ora, o mimetismo dos homens é um mimetismo de violências. De violência inicialmente contra si mesmo. A guerra que os homens empreendem em seus próprios corpos é inicialmente uma guerra contra eles mesmos. Depois, numa segunda etapa, é uma guerra com os outros (Welzer-Lang, 2001, p. 463).
Desta forma, para conseguir os privilégios do modelo masculino, é necessário um duplo movimento de submissão, ao menos inicialmente, mas de exercício do privilégio posteriormente. O processo para se tornar homem passa, portanto, pela submissão e pela imposição.
A submissão inicial, inclusive, faz-se enquanto antecâmara do abuso. Os mais velhos se aproveitam da credulidade dos mais novos para se impor enquanto os detentores das provas concretas ao postulante que o classificam ou não como homem de verdade.
Abusos individuais, mas também abusos coletivos. Que se pense nos diferentes golpes: socos, pontapés, empurrões. As pseudo-brigas nas quais, na realidade, o maior mostra sua superioridade física para impor seus desejos. As ofensas, o roubo, a ameaça, a gozação, o controle, a pressão psicológica para que o pequeno homem obedeça e ceda às injunções e aos desejos dos outros… Há um conjunto multiforme de abusos de confiança violentos, de apropriação do território pessoal, de estigmatização de qualquer coisa que se afaste do modelo masculino dito correto. Todas as formas de violência e de abuso que cada homem vai conhecer, seja como agressor, seja como vítima. Pequeno, fraco, o menino é uma vítima marcada. Protegido por seus colegas, ele pode agora fazer os outros sofrerem o que ele tem ainda medo de sofrer. Exorcizar o medo agredindo o outro e gozar dos benefícios do poder sobre o outro é a máxima que parece estar inscrita no frontal de todas essas peças (Welzer-Lang, 2001, p. 464).
Assim, a solidariedade masculina se constrói positivamente a partir do desejo de evitar a dor de ser vítima. A casa dos homens é o local em que as alianças masculinas são conceituadas e afirmadas: independentemente de quais tipos de alianças que sejam feitas, a sua própria condição de possibilidade enquanto algo específico aos homens é construída no próprio desenvolvimento da masculinidade e na reprodução das relações homossociais.
Evidentemente, toda essa socialização até aqui destacada está diretamente relacionada com a necessidade de afastar o conceito de feminino de si. É necessário exorcizar qualquer traço que possa ser reconhecido como feminino, sob a pena de ser maltratado como as mulheres assim são. Aqui, também, percebe-se a gênese da homofobia recreativa, da homofobia que se faz inclusive com homens heterossexuais.
O masculino, as relações entre homens são estruturadas na imagem hierarquizada das relações homens/mulheres. Aqueles que não podem provar que “têm” são ameaçados de serem desclassificados e considerados como os dominados, como as mulheres. Dir-se-á deles que “eles são como elas” . É assim que na prisão um segmento particular da casa-dos-homens, os jovens homens, os homens localizados ou designados como homossexuais (homens ditos afeminados, travestis….), homens que se recusam a lutar, ou também os que estupraram as mulheres, dominadas, são tratados como mulheres, violentados sexualmente pelos “grandes homens” que são os chefões do tráfico, roubados, violentados (Welzer-Lang, 2001, p. 465).
A figura do homem que resolve não lutar é intrigante: ele não necessariamente apresenta traços femininos explícitos, dificilmente pode ser identificado como homossexual, não apresenta um gosto reconhecidamente feminino. Sua não masculinidade se encontra na ausência da violência como intermediador de conflitos.
Desta forma, compreende-se que, para ser homem, é necessário arriscar a própria vida pela masculinidade. Mesmo que a morte seja certa, a luta física ainda é uma ferramenta normal de intermediação de conflitos: caso não seja utilizada, a vida é garantida, mas gera um tratamento estigmatizado. Este suposto homem se transforma em quase mulher.
Este suposto homem é o trampolim do privilégio de alguns grandes homens:
Mesmo sendo um homem, um dominante, todo homem está também submetido às hierarquias masculinas. Nem todos os homens têm o mesmo poder ou os mesmos privilégios. Alguns, que eu qualifico de “Grandes-homens”, têm privilégios que se exercem à custa das mulheres (como todos os homens) mas também à custa dos homens (Welzer-Lang, 2001, p. 466).
Evidentemente, as hierarquias não são meramente inseridas para criar formas de exclusão aos homossexuais. A masculinidade se faz enquanto única legítima. Se a homossexualidade é excluída, a bissexualidade ou as transsexualidades também são.
Ou seja, a hierarquia interna da categoria masculina convive com uma hierarquia externa com as sexualidades que nem mesmo são legitimadas.
Nós estamos claramente em presença de um modelo político de gestão de corpos e desejos. E os homens que querem viver sexualidades não-heterocentradas são estigmatizados como não sendo homens normais, acusados de serem “passivos”, e ameaçados de serem associados a mulheres e tratados como elas. Pois se trata bem disto, ser homem corresponde ao fato de ser ativo. E não foi por acaso que encontramos os estupradores dos homens, pois ativos e penetrantes não vivem como homossexuais. Michäel Pollack menciona o mesmo na obra Les homosexuels et le sida. Ele evoca “a hierarquia tradicionalmente estabelecida […] entre o “fodido” e o “fodedor”, o primeiro sendo recriminado socialmente pois ele transgride a ordem “natural” das coisas, organizada segundo a dualidade feminino (dominado) e masculino (dominante). De forma que, em algumas culturas, só é considerado um “verdadeiro veado” aquele que se deixa penetrar e não aquele que “penetra”. (Welzer-Lang, 2001, p. 468).
E é neste momento que a clássica figura do pai de família heterossexual que se relaciona com garotas de programa transsexuais não se compreende como não heterossexual.
Afinal, seria ingenuidade considerar que a casa dos homens é restrita ao convívio entre crianças e adolescentes monitorados por adultos. O adulto está sempre na casa dos homens, reaprendendo a ser homem a partir da dor, da vergonha e do exercício da dominação.
A imposição de si do homem que é produto deste processo de socialização se faz, assim, pela penetração. Ele faz. Ele viola.
Referência
WELZER-LANG, Daniel. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 9, n. 2, 2001.
Instagram: @viniciussiqueiract
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.
Autor dos e-books:
Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;
Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.

