O presente artigo analisa a tendência contemporânea de desqualificar discursos públicos nocivos sob a justificativa de serem “apenas personagens”. Através da sociologia de Erving Goffman, argumenta-se que a “fachada” e a representação social são constituintes da interação, tornando a crença íntima do emissor irrelevante diante do efeito produzido no mundo. O texto explora a “trama da cumplicidade” na cultura brasileira, dialogando com Sérgio Buarque de Holanda e Michel Pêcheux para demonstrar como a busca por uma autenticidade psicológica ignora a eficácia do sentido no corpo social. Conclui-se que a interpelação ideológica e os danos coletivos — como o machismo e o negacionismo — operam independentemente da sinceridade do ator, deslocando a responsabilidade ética do foro íntimo para a consequência objetiva da prática verbal na esfera pública.

