“Eu sou motoboy, por que eu tenho que defender quem dá o c…?”

Este artigo analisa o discurso de Paulo Galo, explorando a tensão entre a militância digital e a figura do "trabalhador humilde". Através de uma lente discursiva, discute-se a "polícia da enunciação" que prioriza o significante sobre o sentido. Argumenta-se que Galo substitui o conflito de classes por uma ética cristã do sofrimento, onde a "chucrice" é convertida em capital simbólico. A análise revela como essa oposição entre o pobre virtuoso e o acadêmico arrogante fragmenta a organização política brasileira.

Nos últimos dias, a polêmica produzida pela entrevista de Paulo Galo, o Galo de Luta, líder grevista de motoboys que ganhou projeção justamente pela organização inédita da categoria, causou certo alvoroço nas esquerdas jovens brasileiras.

Tanto por suas declarações, como por sua crítica direta ao Jones Manoel, recém-filiado ao PSOL e pré-candidato a deputado federal por Pernambuco.

Eu acredito que o suco dessa conversa pode ser delimitado na figura cristã do pobre humilde em oposição ao universitário, supostamente rico, arrogante.

Este trecho da entrevista talvez seja interessante para destrinchar toda minha análise:

Por que todo mundo tem que jogar na mesma posição? Porque eu, que sou um motoboy, que tenho que fazer greve de motoboy, tenho que defender quem quer dar o cu? Olha só a palavra que eu usei: ‘dar o cu’. Que ofensivo, né? Assim que os trabalhadores falam. Por que a Erika Hilton não defende isso? Eu defendo o meu. A gente joga no mesmo campo, ela numa posição, eu em outra posição.

Eu gostaria de ir por partes, com objetivo de não interpretar esta fala a partir de uma visão condescendente mas também para evitar qualquer forma de moralismo.

“Que ofensivo, né?”

“Olha só a palavra que eu usei: ‘dar o cu’. Que ofensivo, né? Assim que os trabalhadores falam”. É evidente que, aqui, Paulo Galo está interpretando um outro, um sujeito genérico, um trabalhador genérico. Ele não está se colocando como enunciador, apesar de ser, na medida em que o sujeito está deslocado. Quem fala é ele, mas a partir de uma citação indireta do sujeito trabalhador genérico.

Logo ao enunciar aquilo que poderia ser polêmico e pouco antes de inserir o sujeito emulado na fala, ele diz “que ofensivo, né?” e eu acredito que aqui está o primeiro ponto.

A construção de certa militância de esquerda no Brasil durante os últimos vinte anos foi associada ao uso ou não uso de palavras. Ignorando completamente que a produção do sentido se dá justamente no uso, que o sentido não está preso em um dicionário e muito menos numa etimologia, uma parte superficial e numerosa de pessoas que se colocam como militantes de esquerda (ou progressistas) trabalharam, nas últimas duas décadas, como uma polícia da enunciação.

É interessante notar que essa polícia não se refere ao enunciado, ou seja, ao produto da enunciação que tem um lugar social e histórico determinado, mas à própria enunciação. Desta forma, o que interessa a essa polícia não é o sentido, mas o significante utilizado, independentemente do sentido.

Melhor dizendo, o sentido está antes do enunciado, está preso na enunciação, na medida em que ele não é produzido a respeito do que se diz, mas é montado sobre quem diz. O sentido está no “Olha só a palavra que eu usei”.

Esta militância bem específica e construída a partir de um discurso fabricado na internet brasileira, está diretamente ligada ao senso comum que afirma a identidade entre o sujeito que diz com aquilo que é dito. Desta forma, aquilo que é dito funciona como espelho da alma de quem diz: não importa exatamente o sentido que pode ser produzido na fala, mas a adequação ou não do próprio uso das palavras.

O sentido não se refere ao enunciado, mas ao sujeito que enuncia. O sentido é produzido na própria enunciação, a partir da enunciação e realiza um caminho inverso: em vez de sair da boca do enunciador e transitar até o enunciado, ele retornar da boca para o sujeito.

Esta militância específica saiu da internet e incorporou-se à realidade fora dos computadores. A realidade não é dividida entre o que seria real e o digital. O digital é real. Desta forma, o digital se fez real também fora da própria internet e adentrou as universidades, os movimentos sociais, as conversas de boteco, os escritórios etc.

As pessoas jovens que utilizam a internet também vivem uma vida complexa fora dela, também levam consigo o discurso da internet pra fora dela e também transformam a realidade que as cercam fora da internet.

É necessário dizer “dá o cu” justamente para se referir a essa esquerda inventada nas redes sociais que “se ofende” com o uso da palavra, independentemente de seu sentido.

“Assim que os trabalhadores falam”

“Assim que os trabalhadores falam”, mas quais trabalhadores? Uma das maiores ingenuidades dos movimentos de esquerda, principalmente de raiz marxista, é ignorar o fato de que a posição relativa na estrutura econômica não traduz a posição social.

Há trabalhadores com inúmeros modos de vida, inúmeras formas de se colocar no mundo e de se observar enquanto parte dele. Aqui, não desejo me referir a um subjetivismo que seria muito mal colocado. Estou falando de modos de vida regulares, de tipos sociais, de grupos sociais, de formas regulares de entender a vida, entender suas próprias relações e seu lugar no mundo. Estou falando de habitus.

Como esta diferença entre trabalhadores não é uma opinião, mas uma realidade, então é necessário entender de quais trabalhadores Galo está falando: são aqueles que utilizam palavras chulas; que se referem a um tipo social a partir de suas práticas sexuais, desta forma, que destacam a prática sexual devido sua falta de familiaridade; que não conseguem manejar um vocabulário minimamente pacífico para se referir a um outro diferente a partir de sua diferença; que não se preocupam com aquilo que falam nem com quem escuta.

Galo está produzindo a imagem do trabalhador chucro, burro e inapto social. A categoria “trabalhador”, conforme produzida na fala de Galo, é reduzida a isso.

Aqui, é necessário relembrar a contraposição que o “ofensivo, né?” produz: quem está do outro lado são os militantes jovens criados desde cedo nas redes sociais. São os militantes que, supostamente, não conhecem o que é um trabalhador, desta forma, precisam que a realidade crua seja informada. Esta militância imaginada (real, mas parcialmente), se situa justamente na oposição do trabalhador.

Enquanto o trabalhador é chucro, burro e inapto social, a militância não trabalhadora é elegante, universitária e civilizada. Nenhuma destas três características da militância não trabalhadora é positiva: elegância é sinal de falsidade, de excesso, de luxo; universitária é sinal de arrogância; civilizada é sinal também de excesso, desapego com a realidade.

O discurso de Paulo Galo não estabelece uma afirmação sobre os trabalhadores, mas revive uma oposição clássica do senso comum brasileiro: o pobre contra o rico, sendo que o rico não precisa ser de fato rico, basta estar um passo acima do pobre que, por sua vez, pertence a camada social mais baixa de todas.

Mas justamente por ser pobre, está aí seu trunfo: na camada mais baixa de todas, a chucreza é virtude, é sinal de uma vida sofrida, de uma vida cristã, de uma legitimidade ética e de um direito adquirido pelo sangue e suor. É a figura do humilde.

O humilde pobre é humilde por essência, mesmo que seu exercício da vida cotidiana não seja de humildade. Mesmo que seu caráter manifeste completa falta de humildade, por exemplo, para reconhecer a necessidade de não ser homofóbico. A humildade seria, assim, uma essência do pobre, mas não de qualquer pobre: seria essência deste pobre que não pode estar numa camada superior a nenhum outro.

Daí, inclusive, a necessidade eterna de se rebaixar para demonstrar humildade no cotidiano brasileiro: é necessário sempre ser o mais pobre ou, ao menos, tentar alcançar o pior lugar possível. Sinaliza, pelo menos, a tentativa de ser humilde e demonstra o reconhecimento da humildade como capital simbólico.

Sendo assim, o sujeito emulado por Galo é, ao mesmo tempo, o pior e o melhor. É legítimo em sua ignorância por ser destacado em sua humildade. Galo não fala sobre os trabalhadores, mas sobre os humildes.

“Eu defendo o meu”

É inegável que uma das ilusões mais infantis associadas aos movimentos de esquerda geridos por militantes jovens é a da defesa explícita de tudo, a todos instante, para qualquer um.

“Por que a Erika Hilton não defende isso? Eu defendo o meu”. Novamente, Paulo Galo se coloca ao lado dos trabalhadores – como vimos, ao lado dos humildes, chucros eticamente legitimados -, embora não perceba que entre os trabalhadores reais, concretos, também existam homossexuais por exemplo.

Mas a palavra “defendo” me interessa muito nesta etapa do presente texto. O que significa defender? Acredito que não é cobrado, no cotidiano, que o Paulo Galo dê ordem aos motoboys para fazer greve tendo a luta LGBT como motivo. Ao mesmo tempo, me parece que “defender” significa meramente “falar sobre”.

É claro, tendo em vista, como já notamos, que o trabalhador genérico de Paulo Galo é um sujeito chucro, burro e inapto social, evidentemente ele não estará aberto a um diálogo simples: homossexuais existem, costumam ser alvo de violência simplesmente por serem homossexuais e isso não é correto.

Há algo específico aqui que fica oculto: tem-se a impressão que falar sobre gênero ou orientação sexual envolve, necessariamente, estabelecer um diálogo acadêmico. Ou seja, a conversa cotidiana sobre gênero ou orientação não seria limitada à ética simples de cotidiano, mas sempre adensada por conceitos acadêmicos.

Esses conceitos acadêmicos, próprios dos militantes não trabalhadores, não seria bem-vindos dentro do grupo imaginado de trabalhadores. Novamente, uma oposição entre os arrogantes que leem sobre pobres e os trabalhadores, pobres de verdade.

Desta forma, “defendo” assume um sentido específico: preconiza o ato de interpelar os trabalhadores a partir do discurso acadêmica acerca da orientação sexual ou dos debates de gênero. Este ato seria, por sua vez, ostensivo. Desta maneira, um líder grevista teria a responsabilidade de ostensivamente estabelecer uma relação de polícia ética no interior do grupo que influencia.

Como “eu defendo o meu”, então, a polícia ética se situa no interior da relação entre pobres e ricos. A liderança de Galo, portanto, pode ser interpretada a partir do viés de classe, mas se propõe como parte de uma leitura cultural brasileira situada nos conflitos sociais que estão para além do marxismo clássico.

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Considerações finais

Galo, portanto, apesar do uso frequente do vocabulário marxista, não está situado num conflito entre classes, entre oprimidos e opressores, mas no interior de uma oposição entre os humildes e os arrogantes, entre a camada mais baixa, estereotipicamente chucra, e todas as outras camadas, todas as que “falam corretamente”, fizeram faculdade, trabalham no ar condicionado e, por isso, não são sofredores de verdade.

Por não serem sofredores de verdade, não são trabalhadores de verdade. Ou melhor, não são os trabalhadores que importam. Não importam por não serem, nesta fantasia cristã do sofrimento enquanto virtude, os que mais sofrem. Sinalizam a falta de sofrimento justamente no uso intelectualizado da palavra.

O que demonstra, inclusive, a reprimenda contra Jones Manoel ao se filiar ao PSOL: ele teria se vendido justamente aos arrogantes. Jones não teria traído a classe trabalhadora, mas sim a camada dos pobres de verdade, dos condenados da terra brasileira, dos sofridos, daqueles que expressam o sofrimento em sua suposta e imaginada chucrice, burrice e inaptidão social.

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