No mês passado, fiz um vídeo no canal do Colunas Tortas sobre o interesse de homens mais velhos em mulheres de 18 anos. Este interesse, aliás, não é individual e meramente subjetivo, há um fenômeno social que torna a idade da mulher um alavancador de fantasias ou legitimidade para relacionamentos “puros”, “bons”, “de longa duração” etc.
Tal olhar sobre a idade feminina acontece tanto na esfera religiosa como na atual esfera masculinista, que preconiza a mulher jovem por seu status de pureza.
Veja abaixo o vídeo em questão:
No vídeo em questão, eu dialoguei com um rapaz que fez um conteúdo com linguagem direta afirmando a estranheza de um homem de 30 e tantos anos, 40 e tantos anos, ter interesse especificamente por mulheres de 18, no limite da legalidade. Segundo o rapaz que fez sua exposição inicial, este interesse sugeriria que, se o limite abaixasse para 16 anos, então esta seria a nova idade de interesse e assim por diante.
De minha parte, complementei o conteúdo iniciado por ele indicando que a diferença de idade entre homens e mulheres é um fenômeno social de massas e que ela não está meramente relacionada à idade, mas à possibilidade da reprodução da hierarquia representada pelo Pai de Família. Sendo assim, a esposa, uma auxiliadora submissa, teria também na idade a representação de sua dependência.
A possível dependência econômica se uniria a uma dependência civilizacional. O homem mais velho é aquele que “pega pra cuidar”, sendo assim, é aquele que toma o corpo feminino para discipliná-lo no contexto familiar e, portanto, transforma uma menina em mulher. A transformação não acontece no ato sexual, um homem não faz uma menina “se transformar” em mulher quando retira sua virgindade, como nos apresentam diferentes representações culturais: a retirada da virgindade é a marca da possibilidade de engravidar, mas o casamento do homem mais velho com a menina é a marca da introdução do corpo feminino no processo de transformação em mulher. “Mulher” é um conceito diferente de “corpo capaz de reproduzir”, embora seja possível ver a utilização do mesmo significante para dar conta de ambos os conceitos.
Dito isso, a presença de comentários que reatualizavam a necessidade de uma idade mínima como limite ou que tratavam a questão como uma disputa jurídica do limite etário foi constante (além, claro, da relativização da diferença de idade a partir de um conceito mal definido de “maturidade”):






Há uma clara dificuldade de compreender questões humanas fora da exatidão jurídica (que retira do sujeito a necessidade de ser responsável pela construção dos critérios de avaliação da realidade, já que o mundo jurídico já traduz estes critérios em termos de lei) e fora do relativismo abstrato (que retira do sujeito a necessidade de dividir os fenômenos morais entre certo e errado).
o juridicismo e o relativismo humanístico tornam-se, assim, ferramentas de reprodução do espaço de conveniência dos relacionamentos predatórios. Assim, a predação, que é comum em relacionamentos com diferença de idade significativa entre uma mulher adolescente ou recém adulta e um homem já adulto, torna-se um fato em aberto dependente de uma construção particular: o senso comum do relacionamento amoroso que é único, que é um senso comum correto, acaba sendo utilizado como senso comum sociológico, retirando, assim, a própria sociologia como ferramenta de análise.
O resultado é uma compreensão abstrata do ser humano como indivíduo único e da predação como resultado da falta de moralidade aleatória que pode ou não acontecer em qualquer tipo de relacionamento. Assim, a violência contida na predação se torna arbitrária, fruto de uma reunião também arbitrária entre um predador, essencialmente mau, e uma vítima.
É nesta abstração do indivíduo aleatório, do arbitrário, que se situa a permissividade dos relacionamentos predatórios enquanto parte integrante de um modo de construção da própria sexualidade masculina e feminina. Ou da própria relação hierárquica entre os gêneros.
A permissividade, doença presente numa cotidianidade brasileira que permite a manutenção das pequenas violências nas microrrelações sociais e que as naturaliza como parte da convivência, é a vilã que se veste de filosofia moral individualista, que se mostra como maturidade de percepção da multiplicidade humana.
Instagram: @viniciussiqueiract
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.
Autor dos e-books:
Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;
Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.
