Não existem comportamentos naturais em sociedade

O texto propõe a distinção entre "comportamento" — mecânico e biológico — e "conduta" — categoria ética e social. Através da análise de instintos e da teoria skinneriana, argumenta-se que ações biológicas só ganham sentido quando reconhecidas socialmente. Conclui-se que não há condutas naturais: toda performance em sociedade está imersa em significações que transcendem a causalidade genética.

Evidentemente, o título deste texto é uma traição. Talvez, funcione como parte da introdução, na medida em que o objetivo deste artigo não é nem mesmo lidar com o conceito de comportamento. Comportamento é um conceito classicamente utilizado para lidar com a forma-sujeito individual e biológica. Acredito, inclusive, que seja pouco rigoroso delimitar essa forma-sujeito como sendo biológica, mas talvez como biológica e mecânica.

O comportamento, isolado, mecaniza o sujeito em uma máquina sofisticada. Isso não significa que o ser humano acaba sendo mecanicizado, mas que a forma-sujeito mecânica que serve de base para a existência do conceito de comportamento e sua centralidade tem limites na análise da realidade – esta que é múltipla e pede diversas abordagens.

Conduta e comportamento

Entendo que o conceito adequado para corrigir o título seja o de conduta. Conduta é ligada a uma abordagem ética que pode ser facilmente incorporada pela análise social. Na conduta, o sujeito não é um mediador entre estímulos e respostas, mas um receptáculo de significações sociais e responsável por suas decisões.

Ou seja, tanto o sujeito assujeitado como o agente social, passando pelo ator social, todas essas formas-sujeito que estão no interior de diferentes teorias sociais podem se utilizar do conceito de conduta.

Dito isso, é necessário compreender o jogo entre o mundo social e o mundo natural. Não acredito que haja grandes distinções, para o ser humano, do mundo natural e do mundo social, afinal, a existência das sociedades humanas é naturalmente social. O mundo social é a manifestação da natureza humana, se é possível utilizar este termo. Mas existe uma diferença da observação da natureza e do mundo social.

Comportamentos podem ser naturais, podem estar ligados ao corpo biológico. A ligação pode ser, por exemplo, de causa e efeito. Condutas não estão ligadas com o corpo biológico enquanto efeitos de uma causa natural. Condutas estão numa dinâmica de conhecimento e reconhecimento própria do mundo social.

Ou seja, a questão social não é relativa à causa individual de um comportamento, mas às dinâmicas que compõem uma conduta. Ao sentido que é construído na interação ou que é incorporado pelo sujeito ao longo de sua vida.

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Forma-sujeito comportamental e genética

Para fundamentar essa distinção, vale observar como a teoria skinneriana define a forma-sujeito. Veiga e Vandenberghe (2001, p. 13) contribuem para este objetivo:

o sujeito Skinneriano, não é algo que existe por si mesmo. ‘Sujeito’ deve ser visto como ‘interação’. Na relação entre homem e mundo, há uma transformação recíproca, onde não existe autonomia nem de um nem de outro. Nesta relação de troca contínua acontece o comportamento, que produz conseqüências sobre o ambiente as quais modificam o comportamento. Assim, o homem e o seu ambiente são intrinsecamente entrelaçados. É através dessa reciprocidade que cada pessoa, ao agir, desenvolve uma maneira de ser que lhe é única.

O conceito de interação presente na citação acima é diretamente relacionado à relação de causa e efeito, em que o efeito passa a ser a causa de outro efeito e assim por diante. Desta maneira, mecanicamente, a cadeia infinita de causas e efeitos geram sujeitos únicos.

Por sua vez, a raiz biológica de determinados comportamentos seria descrita da seguinte maneira

Para vários autores, entre eles Oswaldo Frota-Pessoa, o ato instintivo é inato porque o indivíduo é capaz de executá-lo com eficiência desde a primeira vez, mesmo sem ter visto o ato ser executado por outro; ele é também inconsciente, porque não há um ensaio mental prévio ou um planejamento consciente que oriente a ação para a meta útil. Assim, alguns atos instintivos, bem típicos e automáticos (realizados sempre do mesmo jeito, embora sejam necessárias alterações para se atingir a meta útil), fazem parte do repertório do bebê – ele chora, mesmo sem ter visto ninguém chorar (Frota-Pessoa, 1987).

Em outras palavras, o comportamento instintivo é fundamentalmente genético, isto é, depende mais dos genes que o indivíduo herda, do que das experiências por que passa. Mas isto, como bem ressaltou Frota-Pessoa (1987), não significa que muitos instintos não possam se aperfeiçoar ou mesmo se redirecionar ante circunstâncias novas do ambiente.

O comportamento aprendido, por outro lado, resulta da interação do indivíduo com o meio; esta interação cria experiências que se registram na memória e contribuem para o aperfeiçoamento dos desempenhos subseqüentes. Nota-se que, por resultar de uma interação do indivíduo com o meio, sua execução é possibilitada pela constituição genética do indivíduo (Pinheiro, 1994, s/p).

Ou seja, aquilo que é inato, como o choro, não precisa ser aprendido. Está em nossos genes. Pode ser, claro, aperfeiçoado, controlado ou instrumentalizado, mas não é, essencialmente, aprendido. Simplesmente acontece.

O mundo social

Entre uma abordagem mecânica e uma abordagem inatista, a abordagem social é aquilo que trabalha justamente no entendimento de que até mesmo comportamentos inatos podem ser aperfeiçoados. A diferença está no sentido da palavra “aperfeiçoado”. Talvez, a melhor palavra seja “manejado” ou “treinado”. O choro, independentemente da situação, só é choro se for reconhecido como tal. Seja por outra pessoa ou pela própria pessoa que chora. Choro só é choro quando participa da produção de sentido no interior da relação social.

Este é o mundo social. Em que a causa genética não é relevante na medida em que a relevância está na própria prática social e na maneira como ela pode ser interpretada. Até mesmo se for reconhecida como efeito da genética do sujeito, o reconhecimento de que uma atitude existe sob influência genética por si só está localizado numa camada simbólica que produz, na própria interação, o sentido que se constrói na relação entre os diferentes indivíduos participantes.

Não há condutas naturais. Toda conduta é social. Mas social no interior da vida social. Ou seja, todo comportamento, quando se transforma em performance e passa a ser desempenhado pelos sujeitos em sociedade também passa a ser uma conduta e, enquanto conduta, está necessariamente imersa em sentido socialmente compartilhado.

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Referências

BOURDIEU, Pierre. A gênese dos conceitos de habitus e de campo IN O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil S.A, 1989.

FROTA PESSOA, Oswaldo. Genética e ambiente: o comportamento. In: Conselho Regional de Psicologia. Psicologia no ensino de 2ş grau: uma proposta emancipadora. 2 ed. São Paulo: EDICON, 1987. P.41-48.

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana . Petrópolis: Editora Vozes, 1985.

PINHEIRO, M.. Comportamento humano: interação entre genes e ambiente. Educar em Revista, n. 10, p. 53–57, jan. 1994.

VIEGA, Marla e VANDENBERGHE, Luc. Behaviorismo: reflexões acerca da sua epistemologia. Rev. bras. ter. comport. cogn. [online]. 2001, vol.3, n.2, pp.09-18. ISSN 1517-5545.

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