O nascimento do racismo na Alemanha – Hannah Arendt

Este artigo analisa a gênese da ideologia racista na Alemanha segundo Hannah Arendt, contrastando-a ao modelo francês. Investiga-se como a derrota prussiana e o romantismo político forjaram uma unidade baseada no “parentesco de sangue” em resposta à falta de coesão nacional. A análise destaca o papel da classe média intelectual na criação da “personalidade inata”, conceito que naturalizou privilégios sociais e fundamentou o antissemitismo ao rotular o judeu como inatamente desprovido de caráter. Conclui-se que essa mística orgânica, ao substituir a realidade política, transformou o isolamento ético em ferramenta de dominação e preparou o terreno para o imperialismo moderno.

Na Alemanha, nos dirá Hannah Arendt, a ideologia racista não nasceu a partir da nobreza, mas sim a partir da derrota do exército prussiano frente às forças napoleônicas. Uma união entre os patriotas da Prússia, hoje região da Alemanha unificada, e do romantismo político (movimento que impulsionou o liberalismo e a burguesia na Europa do século XIX) foi a responsável pela construção de um locus de seu nascimento, ou de condições de possibilidade para sua emergência (num vocabulário foucaultiano).

Há uma diferença entre o nascimento da ideologia racista na França e na Alemanha. O racismo francês acontece a partir de uma iniciativa de dominação no interior do território nacional, funciona como motor de coesão para uma camada social de monarcas destituídos promoverem uma guerra civil contra aqueles que não seriam franceses “de verdade”, descendentes dos povos germânicos.

Na Alemanha, “resultou do esforço de unir o povo contra o domínio estrangeiro. Seus autores não procuraram aliados além das fronteiras: buscaram despertar no povo a consciência de uma origem comum” (Arendt, 2013, p. 153).

A ideologia racista alemã acompanhou as longas e frustradas tentativas de unir os numerosos Estados alemães; permaneceu — pelo menos em seus estágios iniciais — tão intimamente ligada a sentimentos nacionais que se tornou difícil distinguir na Alemanha o mero nacionalismo do racismo declarado. Sentimentos nacionais inofensivos eram expressos em termos que hoje sabemos racistas, de modo que até mesmo os historiadores que identificaram o racismo alemão do século xx com a linguagem peculiar do nacionalismo alemão são levados a confundir o nazismo com o nacionalismo alemão, contribuindo desse modo para que se subestime a extraordinária atração que a propaganda de Hitler exerceu internacionalmente (Arendt, 2013, p. 153).

Foi após a unificação alemã de 1870 que o racismo alemão, em conjunto com o imperialismo do mesmo país, pôde se manifestar livremente. A partir deste momento histórico, o racismo alemão assumiu características específicas.

No entanto, antes disso, na própria literatura já era perceptível a tentativa de se criar um ponto de partida natural, uma origem em comum do povo germânico:

Somente a partir de 1814 essa origem comum passa a ser frequentemente descrita em termos de “parentesco de sangue”, de laços familiares, de unidade tribal, de origem pura sem “misturas” (Arendt, 2013, p. 154).

O que se entende hoje como Alemanha não era um território que operava a partir de um conceito de nacionalidade política que poderia, por sua vez, ser um potencial de agregação dos diferentes Estados ali presentes. O conceito de raça surgiu como forma de substituir esta ausência de coesão, de preencher ideologicamente o território com uma força motriz que potencializasse uma unificação política mesmo na falta de um objetivo político comum. A partir disso, a unidade orgânica, racial, foi motor para a compreensão da importância de unificação com objetivo de construir uma raça pura, um “povo genuíno”, nas palavras de Ernst Moritz Arndt, historiador alemão.

Enquanto a forma primitiva da ideologia racista da aristocracia francesa servia como instrumento de divisão interna e como arma para a guerra civil, a forma inicial da doutrina racista alemã criava-se como arma de unidade interna, vindo a transformar-se, depois, em arma para a guerra entre as nações. Assim como o declínio da nobreza francesa como classe importante na França teria anulado essa arma se os inimigos da Terceira República não a houvessem ressuscitado, também a realização da unidade nacional alemã teria roubado o significado da doutrina orgânica da história, se os maquinadores do imperialismo moderno não a houvessem restaurado, com o fito de atrair o povo e esconder a realidade de seus interesses sob a respeitável máscara do nacionalismo. O mesmo não se pode dizer, porém, de outra fonte do racismo alemão que, embora aparentemente afastada do âmbito político, teve influência bem mais forte sobre as ideologias posteriores (Arendt, 2013, p. 155).

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O romantismo político foi acusado, na segunda metade do século XX, como responsável pela criação da ideologia racista. O fato é que os primeiros intelectuais modernos prepararam um contexto em que a personalidade individual poderia ser idolatrada simplesmente por sua excentricidade, que seria prova de genialidade. Os elementos que fornecessem base para a arbitrariedade das ideias de um indivíduo poderiam facilmente se tornar centro de um modo de encarar a vida e o mundo. Tanto românticos e intelectuais modernos alemães de forma geral compreendiam que a manutenção da posição pessoal ou a ascensão individual estava acima de qualquer racionalidade específica: qualquer ideologia funcionaria se servisse aos objetivos de classe ou de camada social a que estes estivessem inseridos.

Esses intelectuais, ralé alemã, pertencentes à classe média nacional, se impuseram perante o cenário ideológico da época:

Os intelectuais alemães, embora raramente promovessem lutas políticas em prol da classe média à qual pertenciam, travaram uma batalha amarga e, infelizmente, muito bem-sucedida em prol de sua própria posição social. Até mesmo aqueles que haviam escrito em defesa da nobreza sentiam que os seus próprios interesses estavam em jogo quando se tratava da ascensão social. Para poderem competir com direitos e qualidades de nascimento, formularam o novo conceito de “personalidade inata”, que iria obter a aprovação geral da sociedade burguesa (Arendt, 2013, p. 156).

Em vez de se oporem aos essencialismos de classe, às tentativas de naturalizar certa forma de dominação, as classes médias intelectualizadas se utilizaram desta plataforma política e cultural para criarem uma própria narrativa histórica e natural sobre si. A personalidade inata é, portanto, uma maneira de estabelecer a cultura legitimada a um estrato social específico, assim, o legitimando.

A “personalidade inata”, exatamente como o título de herdeiro de uma família antiga, passou a decorrer do nascimento, sem ser adquirida pelo mérito. Assim como a falta de história comum para a formação da nação havia sido artificialmente sanada pela implantação do conceito naturalista de desenvolvimento orgânico, também na esfera social supunha-se que a natureza proporcionava ao indivíduo o título que a realidade política lhe havia negado. Cedo, escritores liberais passaram a vangloriar-se de serem os “verdadeiros nobres”, em contraposição aos surrados títulos de barão e quejandos, que afinal podiam ser concedidos e cancelados, e afirmavam, implicitamente, que seus privilégios naturais — a força ou o gênio — não podiam ser atribuídos a qualquer feito humano (Arendt, 2013, pp. 156-157).

Numa reação à falta de reconhecimento social e político, a classe média estabeleceu uma forma de recompensar a falta de importância sentida. A consequência disso foi o estabelecimento do judeu como elemento inatamente sem personalidade. O desagrado judeu era inato.

Logo ficou patente o aspecto discriminatório desse novo conceito social. Durante o período de antissemitismo social, que introduziu e preparou a descoberta do ódio aos judeus como arma política, foi o conceito da falta da “personalidade inata” — ou da inata falta de tato, da inata falta de produtividade, da inata vocação para o comércio etc. — que distinguiu a conduta do comerciante judeu da dos seus colegas em geral (Arendt, 2013, p. 157).

As elites alemãs, proprietários de terra e militares (os Junkers), aderiram à ideologia romântica da personalidade inata, na medida em que as condutas a serem rejeitadas eram justamente aquelas que não lhes pertenciam. A descrição de uma personalidade inata legítima era justamente a descrição dos traços culturais expressos pela conduta dos próprios junkers.

Por sua vez, Adam Heinrich Müller, filósofo conservador alemão, foi o responsável pela insistência na tentativa de descrever uma linha de descendência única para a nobreza alemão. Claro, junto com Karl Ludwig von Haller, jurista e teórico político suíço, que, por sua vez, insistiu na ideia de que a lei natural manifesta a dominação dos fracos pelos fortes.

Essa insistência na origem tribal comum como essência da nacionalidade, formulada pelos nacionalistas alemães durante e após a guerra de 1814, e a ênfase que os românticos davam à personalidade inata e à nobreza natural prepararam a Alemanha intelectualmente para pensar em termos racistas. Da primeira ideia, surgiu a doutrina orgânica da história com as suas leis naturais; da outra, surgiu no fim do século XIX a grotesca imitação de super-homem, com o destino “natural” de dominar o mundo.

Em sua gestação, todas essas ideias representam fuga da realidade política de uma Alemanha sem coesão política e nacional, mas justamente em sua fusão, conseguiram construir uma ideologia racista madura. Inicialmente, a França foi mãe da ideologia racista europeia (a partir do membro da nobreza conde Arthur de Gobineau), em seguida, a Alemanha foi sua segunda genitora.

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Referência

ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

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