Pierre Bourdieu (1983), a partir da noção de habitus, nos apresenta uma forma de lidar com a aparente segurança sentida pelo sujeito nos diferentes espaços em que participa. Ao mesmo tempo, a partir do mesmo conceito, a insegurança, o vacilo, também é concebido como um desalinhamento entre a doxa de um campo e o sistema de disposições do sujeito no interior deste espaço.
Se a doxa é o senso comum de um campo social, o habitus fornece as disposições para operar a partir deste senso comum, para ser conquistado pela illusio, portanto, pela obviedade de que o jogo vale a pena ser jogado.
Gostaria de adaptar esta construção conceitual ao nível interacional (Goffman, 1985): ao se acomodar em um novo local, em um novo palco, o ator social pode ou não estar adequado ou sentir-se adequado para participar livremente das interações sociais. Por exemplo, para participar de um debate no interior de uma livraria reconhecida por ser berço de um público intelectual, esta sensação de estar à vontade é diretamente ligada ao domínio da linguagem, dos conceitos, das teorias e da performance corporal ligada às práticas discursivas dos outros atores no interior deste mesmo espaço, ou seja, sua competência na prática do discurso (Bourdieu, 2003).
Durante a interação, os sujeitos se percebem: percebem o outro e a si próprios, mesmo que essa percepção não seja consciente ou planejada. Talvez, a ausência de qualquer sensação de auto consciência ou de qualquer avaliação do outro seja o sinal mais perfeito da adequação social. O ator social está, assim, cumprindo o papel que é esperado e, justamente por isso, consegue circular pelo espaço, interagir com as pessoas, se apresentar a partir de sua singularidade mediada pela regularidade do papel social.
A tranquilidade dos gestos leves e despreocupados do filho da classe média artística no interior de um museu é contrastada pela auto consciência do filho da classe trabalhadora que visita o mesmo museu pela primeira vez.
O mesmo vale para a interação em locais específicos, como num bar, num restaurante, numa reunião dentro da casa de um membro de um grupo etc.
A cumplicidade que nasce da incorporação do habitus funciona como uma trama: 1) eu sei que você sabe; 2) eu sei que você sabe que eu sei; 3) você sabe que eu sei e; 4) você sabe que eu sei que você sabe. Formulo esta trama tendo como base a noção de formação imaginária de Pêcheux (1997).
Quando eu sei que você sabe o funcionamento da nossa interação e, ao mesmo tempo, eu sei que você sabe que eu sei, nós estamos automaticamente presentes num mesmo jogo. Este jogo pode ser falho, afinal, são suposições sobre a posição do outro no interior da dinâmica social. Esta trama não representa aquilo que os atores sociais pensam, mas a estrutura da dinâmica de cumplicidade.
De qualquer forma, o ponto principal deste texto não é a dinâmica em si, mas a posição do eu que não se adequa, ou seja, do eu que não representa corretamente o papel que é esperado de si e, justamente por isso, na dinâmica, a cumplicidade falha e logo ele é apartado do convívio. Ao quebrar o pressuposto da cumplicidade, a relação mais ou menos horizontal, pelo menos no nível da aceitação das regras do jogo, é quebrada e o jogo continua a ser jogado a despeito do ator social que não consegue praticá-lo.
Neste momento, o ator social inadequado, aos outros, deixa de ser ator e começa a fazer parte do cenário. A cumplicidade, portanto, é a condição da existência do indivíduo enquanto ator social, não somente enquanto cenário. De certa forma, a cumplicidade pode se entendida como a condição da ética. Se os sujeitos não se percebem como iguais (mesmo que no nível da aceitação do jogo), a ética fica comprometida.
No bullying, a ética da vítima é questionada por não compartilhar da cumplicidade existencial dos pares. “Eu sei que você sabe” não funciona, porque aquilo que é sabido pela vítima é (forçadamente) não sabido pelos outros. Ao mesmo tempo, o esforço dos agressores e de seus cúmplices é de isolar eticamente a vítima. “Eu sei que ela não sabe e, ainda por cima, ela sabe que eu sei”.
A exclusão, de maneira geral, talvez possa ser descrita como o momento em que a trama é travada para o sujeito excluído: ele não sabe, sabe que os outros sabem e, ao mesmo tempo, é impedido de saber. É evidente que o verbo saber está sendo manipulado neste texto para representar o jogo de cumplicidade, mas pode ser interpretado como uma representação do movimento de pertencimento: “eu não pertenço, vejo que você pertence e sei que nunca vão me deixar pertencer”.
No fundo, “eu sei que você sabe, mas eu não sei exatamente aquilo que você sabe e, ao mesmo tempo, sei que nunca vou saber”.
Ou seja, antes do isolamento físico do sujeito inadequado, não pertencente ao grupo de que participa da dinâmica social, há o isolamento ético e existencial: pode-se entender que o isolamento físico é a concretização de um isolamento já sentido e, sendo assim, é até previsível.
A cumplicidade, como toda trama, quando é quebrada, separa aqueles que pertencem e aqueles que não pertencem, mas, ao mesmo tempo, é justamente por ser uma trama que também permite ou não a entrada de atores sociais no interior de sua dinâmica. Uma trama deve ser aprendida e incorporada, transformada em habitus, mas quando é negada ao ator social, até mesmo o papel esperado se transforma em um enigma.
Referências
BOURDIEU, Pierre. Esboço de uma teoria da prática IN ORTIZ, Renato (Org.). Pierre Bourdieu: Sociologia. São Paulo: Ática, 1983.
BOURDIEU, Pierre. Questões de sociologia. 1ª edição, Fim de Século: Lisboa, 2003.
GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana . Petrópolis: Editora Vozes, 1985.
PÊCHEUX, Michel. Análise Automática do Discurso (AAD-69) IN GADET, F. HAK, T. (Org.). Por Uma Análise Automática do Discurso: Uma Introdução à Obra de Michel Pêcheux. 3ª Ed. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1997.
Instagram: @viniciussiqueiract
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.
Autor dos e-books:
Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;
Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.


