O fenômeno psicológico é o motor da transformação do corpo político das nações europeias: é a partir da sedução do racismo que a população europeia se viu diante de uma abertura para a criação de políticas racistas, ultrapassando o próprio alcance dos efeitos políticos da ideologia de classes.
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Hannah Arendt elabora uma visão acerca do nascimento do racismo enquanto ideologia política centrada no interior das relações étnico-políticas da Europa. Para a autora, o racismo alemão foi uma consolidação formal, enquanto política de Estado, de um tipo de racismo que já operava na opinião pública em toda Europa.
Não se trata, portanto, de uma busca pela origem histórica do racismo em abstrato, nem do racismo contra negros ou latinos, mas da origem local do racismo que culminou na biopolítica nazista, afinal, “O racismo não era arma nova nem secreta, embora nunca antes houvesse sido usada com tão meticulosa coerência” (Arendt, 2013, p.148).
Afirmou-se várias vezes que a ideologia racial foi uma invenção alemã. Se assim realmente fosse, então o “modo de pensar alemão” teria influenciado uma grande parte do mundo intelectual muito antes que os nazistas se engajassem na malograda tentativa de conquistar o mundo. Pois se o hitlerismo exerceu tão forte atração internacional e intereuropeia durante os anos 30, é porque o racismo, embora promovido a doutrina estatal só na Alemanha, refletia a opinião pública de todos os países (Arendt, 2013, p. 148).
Para Arendt, há uma diferença entre a opinião e a ideologia. É possível, inclusive, delimitar o que seria uma ideologia a partir da definição que a autora expõe:
Pois a ideologia difere da simples opinião na medida em que se pretende detentora da chave da história, e em que julga poder apresentar a solução dos “enigmas do universo” e dominar o conhecimento íntimo das leis universais “ocultas”, que supostamente regem a natureza e o homem (Arendt, 2013, p. 148).
A ideologia, portanto, seria a matriz de interpretação histórica que define como os métodos e as metodologias de estudo deveriam ser aplicadas. Para além disso, o uso dos métodos e das metodologias estariam submissos a um resultado já pronto, a uma resposta aos enigmas do universo já elaborada. A pergunta já respondida se situa no fim das possíveis produções ideológicas de conhecimento.
Entretanto, a ideologia aparece como uma forma de tornar coeso algo que não pode ser coerente. A percepção de leis “ocultas” que regem a história são, assim, negadas no sarcasmo anti ideológico, sobrando à história o papel de ser uma descrição meticulosa que encontra ocasiões e conflitos de interesses locais.
Enquanto ciência, a história se perde na tentativa de transformar a busca pelo movimento histórico de longa duração em uma busca ideológica e, portanto, mistificada. Em Marx, a mistificação ideológica acontece no desenraizamento da produção histórica das bases materiais da sociedade, não exatamente na mera pretensão de descrever leis universais. Ideologia, para Marx, aparece como uma forma de tornar legítimas as ideias da classe dominante, que legitimam politicamente e economicamente a própria classe dirigente.
Apesar de ter uma função no campo político, o que define a ideologia é o descolamento da realidade material. A descrição da sociedade e da história é submetida ao interesse das classes dominantes mesmo que inconscientemente, mesmo que fora de uma conspiração (e, provavelmente, fora de uma conspiração).
Arendt, por sua vez, expande o conceito de ideologia e, ao fazer isso, retrai o conceito de história:
Poucas ideologias granjearam suficiente proeminência para sobreviver à dura concorrência da persuasão racional. Somente duas sobressaíram e praticamente derrotaram todas as outras: a ideologia que interpreta a história como uma luta econômica de classes, e a que interpreta a história como uma luta natural entre raças (Arendt, 2013, p. 148).
Como ideologia seria uma resposta mistificada para uma coesão histórica inexistente, o fato social se perde em detrimento de um amontoado de pequenos fenômenos individuais. A ideologia não é a base do pensamento de uma sociedade na medida em que é reproduzida pelos meios de comunicação, pela escola, pela família, etc; a ideologia é aquilo que seduz o indivíduo num movimento de persuasão e aceitação:
A extraordinária força de persuasão decorrente das principais ideologias do nosso tempo não é acidental. A persuasão não é possível sem que o seu apelo corresponda às nossas experiências ou desejos ou, em outras palavras, a necessidades imediatas. Nessas questões, a plausibilidade não advém nem de fatos científicos, como vários cientistas gostariam que acreditássemos, nem de leis históricas, como pretendem os historiadores em seus esforços de descobrir a lei que leva as civilizações ao surgimento e ao declínio. Toda ideologia que se preza é criada, mantida e aperfeiçoada como arma política e não como doutrina teórica. É verdade que, às vezes, como ocorreu no caso do racismo, uma ideologia muda o seu rumo político inicial, mas não se pode imaginar nenhuma delas sem contato imediato com a vida política. Seu aspecto científico é secundário (Arendt, 2013, p. 149).
Se a afirmação de que a ideologia tem, fundamentalmente, uma função política é acertada, este acerto só aparece após a expansão do conceito de ideologia. Entretanto, é relevante realizar uma segunda expansão: qual saber não tem efeitos políticos? A ideologia enquanto aquilo que é separado da ciência tem efeitos políticos conscientes e voluntários, segundo Arendt, mas a ciência por si só gera efeitos políticos mesmo que não conscientes. Segundo Michel Foucault, o próprio estabelecimento de um saber tem efeitos políticos, na medida em que a realidade se constrói sobre o eixo saber-poder-sujeito.
Desta forma, a ausência da ideologia enquanto forma de conduzir à coesão no estudo da história, por si só, já não terá efeitos políticos na medida em que abre espaço para uma ontologia e epistemologia baseadas na investigação limitada ao voluntarismo dos sujeitos participantes de cada evento estudado?
A autora continua sua delimitação do fenômeno da ideologia enquanto sedução-persuasão:
É graças a esses pregadores “científicos”, e não a quaisquer descobertas científicas, que não há praticamente uma única ciência cujo sistema não tenha sido profundamente afetado por cogitações raciais. Isso, por sua vez, levou vários historiadores, alguns dos quais se viram tentados a responsabilizar a ciência pela ideologia racista, a tomarem como causas certos resultados da pesquisa filológica ou biológica, quando se tratava de consequências da ideologia racista. A doutrina do “Direito da Força” precisou de vários séculos (do xvii ao xix) para conquistar a ciência natural e formular a “lei” da sobrevivência dos mais aptos. E, se, para dar outro exemplo, a teoria de De Maistre e Schelling, que dizia serem as tribos selvagens resíduos em decomposição dos antigos povos, se houvesse ajustado tão bem aos mecanismos políticos do século xix quanto a teoria do progresso, provavelmente pouco teríamos ouvido falar de “seres primitivos”, e nenhum cientista teria perdido seu tempo à procura do “elo que faltava” entre o macaco e o homem. A culpa não é da ciência em si, mas de certos cientistas não menos hipnotizados pelas ideologias que os seus concidadãos menos cultos (Arendt, 2013, p. 149).
A ideologia racista, assim, seduz o cientista hipnotizado e os cidadãos menos cultos.
Em seguida, conflitos de ordem histórico-culturais aparecem como contexto do enraizamento do racismo enquanto ideologia:
Essa confusão foi possível porque a Primeira Guerra Mundial continha uma curiosa mistura de antigos conflitos nacionais e novos conflitos imperialistas, mistura na qual os antigos lemas nacionais demonstraram ter ainda, para as massas dos países envolvidos, uma atração que superava qualquer objetivo imperialista. Contudo, a última guerra, com seus Quislings e colaboracionistas em toda parte, deveria ter provado que o racismo engendra conflitos civis em qualquer país, e que é um dos métodos mais engenhosos já inventados para preparar uma guerra civil (Arendt, 2013, p. 150).
Mas, tendo como base as citações anteriores, é possível concluir que o contexto histórico aparece como uma economia na escrita: não se trata da descrição de um fenômeno histórico-social, mas a declaração de um fenômeno interindividual de massa. O fenômeno de massa, portanto, é um fenômeno psicológico e não necessariamente histórico ou sociológico.
Este fenômeno psicológico é o motor da transformação do corpo político das nações europeias: é a partir da sedução do racismo que a população europeia se viu diante de uma abertura para a criação de políticas racistas, ultrapassando o próprio alcance dos efeitos políticos da ideologia de classes:
Porque a verdade é que as ideologias racistas ingressaram no palco da política ativa no momento em que os povos europeus já haviam preparado, e até certo ponto haviam realizado, o novo corpo político da nação. O racismo deliberadamente irrompeu através de todas as fronteiras nacionais, definidas por padrões geográficos, linguísticos, tradicionais ou quaisquer outros, e negou a existência político-nacional como tal. A ideologia racial, e não a de classes, acompanhou o desenvolvimento da comunidade das nações europeias, até se transformar em arma que destruiria essas nações (Arendt, 2013, p. 150).
Desta forma, a separação entre a ciência que busca uma explicação dos conflitos no interior da sociedade capitalista por meio da centralidade da luta de classes não é separada da propaganda comunista, que busca distribuir seu conteúdo com maior amplitude com objetivo de posterior agitação.
Tanto a ciência como a propaganda são partes da ideologia da luta de classes. Sendo assim, se o povo menos culto foi seduzido pela ideologia racista, então o poder de sedução da ideia da luta de classes se mostrou fraco.
Referência
ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.