A universidade pública é o alvo das fantasias pornográficas reacionárias

Se a fantasia pornográfica reacionária mostra um mundo de faz de conta que funciona como ameaça eterna à vida cristã reprimida, talvez seja no interior dessa fantasia que as gretas mostram sua utilidade. Talvez seja justamente a partir dessa fantasia que a fraqueza reacionária se mostra. 

A universidade pública brasileira é retratada frequentemente como uma projeção dos desejos profundos que atentam contra a repressão moral reacionária brasileira. Trata-se do território da liberdade, da selvageria onírica, da torção daquilo que é natureza em prol da criatividade disruptiva.

Este elogio ao ambiente universitário não é meu. É o que sobra da fantasia reacionária. A universidade em que gays, lésbicas, transsexuais ou assexuais andam livremente; em que as drogas leves, como a maconha, são liberadas; em que a fraqueza física dos estudantes representa a ausência de necessidade da violência bruta enquanto mediador das interações sociais; em que a doutrinação representa o uso de uma variedade de livros que compõem um arcabouço intelectual irresistível, desta forma, representa a própria sedução do conhecimento.

O ambiente concreto e burocrático da universidade se transforma, assim, no mundo onírico tão belamente representado pela imagem do arrebatamento e da posterior ocupação do paraíso pelos escolhidos.

Corre-se o risco de considerar que tal imagem é fruto de um recalque: os escolhidos não podem ser os universitários supostamente comunistas. Acredito que a formação deste mundo imaginário é a concretização do sagrado em profano. Os estudantes profanam a liberdade que somente poderia ser experimentada no pós-vida.

A imaginação de uma heterotopia universitária é o pecado da universidade. O que demonstra a própria ameaça da heterotopia. A mistura de tantos elementos díspares é característica de tal espaço, assim como a sua existência no interior de um espaço normatizado. Heterotopia é sinônimo de contra espaço (Foucault, 2013).

Enquanto um contra espaço, ela funciona a partir de regras qualitativamente diferentes daquelas que organizam o espaço em seu exterior. Se o espaço da sociedade brasileira é heteronormativo e se essa heteronormatividade é regida pela natureza dos corpos, então a universidade é o local da suposta derrocada do patriarcado, do sistema de gêneros e da própria referência biológica para entendimento do corpo. Quando o corpo é entendido enquanto elemento construído socialmente, para além de seu nível biológico, a universidade termina a transformação das regras subjacentes ao próprio modo de vida no interior do espaço normativo da sociedade.

Na medida em que uma heterotopia é regida por regras diferentes, então os sujeitos que ali estão não são mais os sujeitos do lado de fora. É justamente na passagem do lado de fora ao lado de dentro que o sujeito se despe das vestes sociais normatizadas e assume um novo tipo de sujeito. Mantendo o exemplo do parágrafo anterior, é na passagem para a universidade que o corpo deixa de ser meramente biológico e passa a ser assumidamente discursivo.

A fantasia reacionária frente à universidade é, portanto, o medo antigo do nascimento de heterotopias com potencial de expansão e de transformação radical do cotidiano normatizado. Independentemente de ser real.

O que revela o potencial transformador das mudanças que acontecem no bojo da ordem social. São mudanças que visam a construção. Como diz Walsh:

Resistir não para destruir, mas para construir, digo eu. Essa é a postura e a práxis pela qual luto – pela qual alguns lutamos –, uma resistência ética, crítica e digna contra o autoritarismo dos regimes externos e internos de controle e poder (Walsh, 2019, p. 95).

As fissuras que existem nos espaços normatizados tendem a compor formas de resistência que possibilitam a criação política:

Talvez sejam as gretas existentes e as que vão tomando forma “no-lugar” (assim recordando a formulação e conceitualização de Arturo Escobar) que dão pauta, espaço, causa, posição, realização e razão às práticas pedagógicas descoloniais (Walsh, 2019, p. 96).

Aqui, já desconsidero a fantasia reacionária. Sabe-se que a universidade não é o contrassonho da figura estereotipada do reacionário reprimido pela moral religiosa. Mas entendo que este imaginário revela a ameaça constante da criação de contra espaços a partir das gretas, das fissuras, que existem no interior dos espaços já normatizados.

O potencial criador da exploração das fissuras não é limitado a um programa político. Fazendo referência a Paulo Freire, Walsh salienta que

A sobrevivência física e cultural dos oprimidos e oprimidas, dizia Paulo, não está enraizada na resignação ou adaptação à lesão destrutiva do ser ou na negação da vida; está fundamentada na rebelião contra a injustiça – a rebelião como autoafirmação – e na resistência física à qual se soma a resistência cultural (Walsh, 2019, p. 100).

Autoafirmação, assim, que pode ser entendida como imposição de si no mundo, instinto de crescimento. Tomo a liberdade de estabelecer esta ponte com Friedrich Nietzsche: “A vida mesma é, para mim, instinto de crescimento, de duração, de acumulação de forças, de poder: onde falta a vontade de poder, há declínio (NIETZSCHE, 2012, p. 13)”.

Minha aposta – pessoal e coletiva – é desaprender a pensar a partir do universo da totalidade e aprender a pensar e atuar em seu exterior, suas fissuras e gretas, onde moram, brotam e crescem os modos-outros, as esperanças pequenas (Walsh, 2019, p. 106).

Essas esperanças pequenas aparecem num momento de dificuldade de luta pela totalidade, frente ao todo, frente às grandes instituições. A dificuldade de combater, de peito aberto, um Estado já forte e uma política já precavida contra movimentos de resistência e revolução, frente a um Estado já sedutor aos movimentos de transformação social.

As gretas, esses pequenos espaços de possibilidade, são uma germinação da esperança com objetivo local. Por princípio, não pode se reduzir a um, deve ser múltiplo, espalhado, deve conceber a multidão como sua base:

As gretas dão luz a esperanças pequenas […] As gretas em que penso revelam a irrupção, o começo, a emergência, a possibilidade e também a resistência do muito outro que faz vida apesar de – e fendendo, fissurando – as próprias condições de sua negação (Walsh, 2019, p. 106).

As gretas, possibilidades de criações heterotópicas, são essas formas silenciosas de resistência. Não são silenciosas por não fazerem barulho, mas por se formarem sob os olhos do vigia, por se construírem sem chamar atenção.

São fendas que desafiam a criatividade de pensar novas formas de ação e novas formas de organização:

estas gretas passam de forma inadvertida, desapercebidas e invisíveis, fora das esferas de percepção, atenção e visão. Isto se deve, em grande medida, à naturalização míope da vida e do viver contemporâneo, mas também à inabilidade – inclusive entre muitxs da chamada esquerda – de imaginar e compreender os modos-outros que existem e poderiam existir nas bordas e rupturas (Walsh, 2019, p. 106).

Talvez, justamente na criação destes espaços, o cotidiano passa a ter um importância maior que os rituais de organização política institucionais partidários. A política, assim, deixa de ser concebida como evento e passa a ser vivida enquanto ética. A ética de vida, desta forma, se descola do moralismo e se aproxima da transformação social.

As gretas, claro, são a consequência das resistências e insurgências exercidas e em marcha. Abrem-se e tomam forma na própria luta, em levantamentos, rebeliões e movimentos, mas também em práticas coletivas e cotidianas (Walsh, 2019, p. 107).

Se a fantasia pornográfica reacionária mostra um mundo de faz de conta que funciona como ameaça eterna à vida cristã reprimida, talvez seja no interior dessa fantasia que as gretas mostram sua utilidade. Talvez seja justamente a partir dessa fantasia que a fraqueza reacionária se mostra.

Referências

FOUCAULT, Michel. O corpo utópico / As heterotopias. Tradução de Salma Tannus Muchail. 1ª edição, São Paulo: N-1 edições, 2013.

NIETZSCHE, Friedrich. O Anticristo e ditirambos de Dionísio. 1ª ed. São Paulo:
Companhia das Letras, 2007. Versão Online.

WALSH, Catherine. Gritos, gretas e semeaduras de vida: entreteceres do pedagógico e do colonial. In: SOUZA, S. R. M.; SANTOS, L.C. (org.) Entre-linhas: educação, fenomenologia e insurgência popular. Salvador: EDUFBA, 2019, p. 93-120.

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