O Big Brother é um programa de televisão. Um jogo de entretenimento. É legítima sua existência na nossa realidade e acompanhá-lo não torna um sujeito menos inteligente ou menos crítico.
Como qualquer programa de entretenimento, ele abre um espaço para abaixarmos a guarda. Não há nada de errado nisso e não há nada de exceção em relação a isso. O entretenimento sempre existiu e a necessidade de um momento de fuga daquilo que é sério e entrada naquilo que é tudo menos sério sempre foi presente em todas as sociedades.
Entretanto, do Big Brother 20 para cá, percebo uma emergência de pautas políticas e sociais sérias incorporadas nas diferentes narrativas reproduzidas sobre os diferentes personagens que participam do programa. A pauta racial, a questão de classe ou de gênero e orientação sexual são instrumentalizadas para fazer emergir uma posição de vítima que daria certa vantagem competitiva a um participante ou outro.
É evidente que o programa é integrado à sociedade que o produz e, com isso, será possível observar problemas que acontecem no cotidiano dentro do convívio entre os brothers. Entretanto, me parece patente a existência de uma mistura do discurso do militante de internet em união ao discurso típico do brasileirinho buarquiano da luta eterna entre o humilde e o soberbo.
A disputa ética entre o humilde e o soberbo carrega a seguinte dinâmica: as posições de vítima e agressor são identificadas com os personagens que performam a humildade e a soberba respectivamente. Na dinâmica, a humildade é característica ética positiva. O jogo vira, com poderio carismático, o humilde se transforma naquele que exerce o poder, subjugando o soberbo. Desta maneira, diferentemente das vítimas reais, a vítima humilde ocupa uma posição que, acima de tudo, funciona na dinâmica dos conflitos sociais cotidianos. Sua humildade é sua arma. Justamente por não ter nada, tem tudo.
O teatro deste conflito torna obrigatório um elemento relevante para que a dinâmica descrita no parágrafo acima permanece em pé: o apoio público. Na batalha entre humilde e soberbo, o humilde ganha por ter ao seu lado a aprovação pública.
As manifestações de 2013
É neste momento que entra em jogo a consequência de 2013 que ecoa no presente: a despolitização das manifestações de classe média de camisa branca no impeachment de Dilma abriram espaço (claro que não foram a origem, mas podem ser entendidas como um marco histórico no presente) para o ativismo político não-político. Um tipo de ativismo em que a pauta política é esvaziada de política e surge como ética. A ética destituída da política é a afirmação da ideologia dominante.
No nível dos conflitos de cotidiano, a ideologia dominante é a identidade católica do pobre, que sofre e pelo sofrimento merece redenção. Essa redenção é limitada ao nível dos conflitos imediatos e, geralmente, em conflitos entre membros das camadas baixas, na medida em que os conflitos com membros de camadas altas esta dinâmica não tem nenhum valor. No conflitos entre classes, a forma jurídica toma controle da intermediação e faz valer o direito burguês.
Desta maneira, a ideologia católica da pobreza que gera a oposição entre humildes e soberbos e que tem eficiência somente entre as camadas baixas é uma forma de violência simbólica que afasta do pobre a mera possibilidade de entrar em contato com o poder.
A suposta ética como reprodução da ideologia
O nível puramente ético – ou ideologicamente ético – dos conflitos que seriam políticos é uma prisão em que as camadas oprimidas da sociedade estão segregadas em conflitos que só funcionam como forma de retirar sua própria energia e destruir sua própria convivência. Neste nível, a identidade católica da pobreza se reproduz indefinidamente, afastando qualquer sonho, qualquer vontade de potência.
Numa redoma antipolítica, os problemas reais do programa de entretenimento (saber quem vai ganhar, torcer para um competidor) se transformam em problemas éticos que satisfazem uma lógica de vitória em que a vítima precisa ser elevada ao primeiro lugar. O último que heroicamente será o primeiro. O humilhado que heroicamente será o exaltado.
Desta forma, a evocação estereotipada de questões raciais, de gênero, de classe e etc. dentro do programa pelos próprios participantes como maneira de se posicionar como vítima e tornar o adversário em soberbo, mas também a mesma lógica reproduzida pelo público nas redes sociais, surge como a oportunidade de fazer política sem política. De fazer, portanto, ética e de, na ética, vencer. É a vitória do ressentido.
É neste momento que as lutas sociais perdem seu valor e assumem um lugar estereotipado no imaginário social. O coletivo antirracista se torna “chato”, o militante comunista se torna “aquele que pesa do clima”, o ativista do movimento LGBTQIA+ se torna “exagerado”. Recai sobre esses militantes de lutas organizadas a responsabilidade de explicar que não são exatamente aquilo que se vê na televisão ou que se lê na internet. Nesta responsabilidade pedagógica não requisitada, o militante real acaba tendo uma “dupla jornada”: não basta realizar o trabalho de propaganda e agitação, ainda é necessário desmistificar a própria imagem já construída e disseminada pela ideologia dominante a partir de atores sociais que não são nem de perto ligados a qualquer forma de organização política.
Nesta eterna briga do soberbo contra o humilde, o militante é soberbo logo de saída. Soberbo em seu suposto ímpeto em saber quem realmente é a verdadeira vítima. É aquele que, ao ser chato ao criticar a igreja evangélica do bairro, mostra sua arrogância logo de saída, mesmo que a crítica seja a favor da própria população local.
Desta forma, o fenômeno das votações do Big Brother Brasil, sempre guiadas pela preferência à pessoa que performa mais humildade e, de 2020 até o presente, sendo guiada também pela vítima de exclusão dentro do programa, é o alívio de participação política que o voto não garante.
O Big Brother é um fenômeno de massas em que a esfera do consumo concentra as tensões éticas e a participação política numa sociedade desacostumada a ir às ruas para fazer política. Em uma sociedade que, em um dado momento de 2013, foi às ruas justamente para fazer antipolítica e tornar a ética um lugar comum de batalha do bem contra o mal.
Já sou velho, mas olho para o mundo a partir de seu ineditismo, nunca sob o ranço interminável dos anciãos.

