Um par de meias

"Começou com um pequeno comichão nas extremidades, aos poucos estas ficaram dormentes. O lábio foi ficando arroxeado. Tudo o que ele podia fazer é tentar dormir e esquecer do frio, mas este continuava a tomar seu corpo".

meias
Foto: Paulinho Jequie Art Blog

Os enormes prédios da larga avenida formavam um corredor de forma que todo o vento passasse por ele. Vento forte, seco, gelado. A avenida estava praticamente deserta devido ao frio. Frio cruel, escroto, desigual; daqueles que não só faz tremer, mas faz os ossos doerem também.

Alguns bares continuavam abertos. Dentro, pessoas bem agasalhadas e relativamente confortáveis, embora o vento muitas vezes intrometia-se a invadir o interior do bar. Fora dos bares, nas largas e bem construídas calçadas, algumas pessoas em situação de rua vagavam tentando achar algum abrigo contra o vento frio.

Um jovem mendigo chamava a atenção – não literalmente, pois a grande maioria dos boêmios burgueses dos bares prestavam atenção apenas em si próprios -, enquanto os outros mendigos tinham pelo menos um cobertor, este vestia uma camiseta de manga curta, bermuda e chinelos sem meias.

Um garoto bêbado saiu do bar e percebeu esse mendigo e ofereceu as meias que vestia. O mendigo aceitou, todavia ambos sabiam que a meia não iria mudar o mórbido destino do homem de bermuda.

O garoto burguês foi embora para sua casa quente e confortável onde dormiria enrolado em seus edredons e cobertores; o mendigo ficou no frio com um mísero par de meias.

Naquela madrugada a hipotermia tomou lentamente o corpo do garoto de bermuda, chinelo e, agora, meias. Começou com um pequeno comichão nas extremidades, aos poucos estas ficaram dormentes. O lábio foi ficando arroxeado. Tudo o que ele podia fazer é tentar dormir e esquecer do frio, mas este continuava a tomar seu corpo.

O queixo começou a bater involuntariamente, por mais que tentasse segurar cerrando os dentes, não conseguia fazer parar. De repente, um cansaço bateu. Devia ser o sono, ele iria conseguir dormir finalmente. Fechou os olhos.  Amanheceu o dia, e o garoto de bermudas não passava de mais um corpo estendido no chão.

As meias devem ter dado uma morte um pouco mais digna, ou não. Afinal, morrer na sarjeta de frio é tão indigno quanto um par de meias doado para aliviar um frio cruel.

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