A fortuna e seus caprichos

A morte prematura de Eduardo Campos é mais um fato em que a fortuna influencia os rumos da história.

A deusa romana Fortuna
A deusa romana Fortuna

O acidente aéreo que vitimou o presidenciável Eduardo Campos, na manhã da última quarta-feira, dia 13, foi a notícia que abalou a política brasileira na semana passada. Embora a candidatura do ex-governador de Pernambuco ainda não tivesse emplacado – não chegou aos 10% das intenções de voto nas pesquisas –, havia a expectativa de que esse quadro pudesse se reverter com o início da veiculação da propaganda eleitoral em rádio e televisão. Afinal, Eduardo ainda era figura pouco conhecida de boa parte do eleitorado, o que lhe dava bom potencial de crescimento e rejeição baixa ao seu nome.

Mas a fortuna, o acaso, o “Imponderável de Almeida”, enfim, a contingência entrou em jogo e embaralhou as cartas. Com a morte de Campos, é praticamente certo que Marina Silva será a nova candidata do PSB e sua coligação. E, a julgar pelo resultado surpreendente obtido nas eleições de 2010, em que conquistou quase 20% do eleitorado no 1º turno, a entrada de Marina no páreo pode provocar mudanças significativas no panorama da disputa, enfraquecendo a polarização entre PT e PSDB. Podendo angariar simpatizantes de um lado e de outro, a candidatura da ex-senadora promete agitar ainda mais a política brasileira nos próximos meses.

Longe de ser novidade, a atuação desse elemento aleatório na política é algo tão antigo quanto ela própria – para desespero dos cientistas políticos. De fato, Maquiavel, tido como “pai da Ciência Política”, já alertava os príncipes sobre a necessidade de desenvolver sua virtù – a virtude, no sentido político –, a fim de tirar proveito da sorte ou mitigar os efeitos negativos dos infortúnios.

Maquiavel chega mesmo a dedicar um capítulo de O Príncipe para tratar da questão. No capítulo XXV – De quanto pode a fortuna nas coisas humanas e de que maneira se deve resistir-lhe, ele compara a sorte a um rio de águas impetuosas, que pode arrasar regiões inteiras com suas inundações. Ora, por mais assustadora que seja essa força natural, seria possível resistir-lhe por meio da ação humana previdente e racional, como a de construir diques e barragens para conter os efeitos nocivos dos eventos inesperados.

Assim, se não é possível eliminar o elemento imponderável, é preciso precaver-se contra ele. Mais que isso, segundo o pensador florentino, o príncipe virtuoso deveria mesmo ser capaz de dominar a fortuna. Esta, ainda conforme Maquiavel, tal como mulher, poderia ser dominada pelos príncipes que tivessem ímpeto e audácia.

Os fatos, contudo, parecem refutar essa tese maquiaveliana com uma persistência impressionante. O próprio César Bórgia, o duque valentino, tido como um exemplo de príncipe virtuoso por Maquiavel, “tendo feito tudo quanto podia fazer um homem prudente e valoroso para criar raízes nos Estados que as armas e a fortuna alheia lhe proporcionaram” (O Príncipe, cap. VII), não resistiu à fortuna e sucumbiu à doença.

A morte prematura de Eduardo Campos é mais um fato em que o dedo do acaso muda o rumo da história. Talvez Campos não tivesse chances nestas eleições, mas poderia fortalecer seu nome para o pleito de 2018. Talvez fosse esse seu cálculo político para chegar à presidência daqui a quatro anos.

Mas a fortuna não quis assim. Se, tal como propunha Maquiavel em sua metáfora, a fortuna é mulher, ela é uma mulher caprichosa. E que não se pode dominar. Por mais que tenha apontado com acerto muitos fenômenos da política, Maquiavel errou no que diz respeito à fortuna – e às mulheres.

Eduardo, Marina e a roda da fortuna
Eduardo, Marina e a roda da fortuna

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