O homem visto de fora

Façamos antes uma sondagem: nós, contemporâneos do séc. XXI ainda estamos, em certo sentido, atados aos preceitos do racionalismo clássico. Merleau-Ponty coloca-nos as limitações do pensamento “reflexivo” e propõe-nos um novo modo, não mais ingênuo, de utilizarmos da percepção para compreendermos o mundo e os outros.

Maurice Merleau-Ponty

Façamos antes uma sondagem: nós, contemporâneos do séc. XXI ainda estamos, em certo sentido, atados aos preceitos do racionalismo clássico. Merleau-Ponty coloca-nos as limitações do pensamento “reflexivo” e propõe-nos um novo modo, não mais ingênuo, de utilizarmos da percepção para compreendermos o mundo e os outros.

Ele nos traz, primeiramente, o exemplo de Descartes, o qual “submetia a um exame crítico as idéias que se apresentavam a ele”, isto é, por meio de um exercício reflexivo e, necessariamente, interior. Ele as purificava com o intuito de tornar seu raciocínio claro para então poder chegar a uma verdade, como a de espírito e corpo. Descartes chegou assim a uma noção pura de espírito, afirmando que este último não é nada como uma “coisa” que possui extensão, mas algo concentrado e indiviso.

“Este espírito completamente puro, no entanto, só o toco em mim mesmo. Os outros nunca são puro espírito para mim: só os conheço através de seus olhares, de seus gestos, de suas palavras, em suma, através de seu corpo.”
(MERLEAU-PONTY, Maurice in “Conversas” – p.43 – Ed. Martins Fontes)

Mas, é claro, ao mesmo tempo que não apreendemos o outro em seu “espírito puro”, este tampouco nos aparece como apenas corpo, e sim, em certo sentido, como corpo “espiritual”, pois quando observamos alguém não somente observamos seu corpo, mas suas ações, intenções e afirmações. É por meio do corpo animado do outro que podemos fazer o esboço de sua figura moral e entendê-lo como indivíduo.

Quando fazemos o que propõe o autor, isto é, observamos o homem de fora, somos levados a reexaminar certas distinções; conclusões alcançadas por meio do exercício reflexivo, como a distinção entre o copo e o espírito.

Merleau-Ponty dá-nos o exemplo da raiva, supondo uma situação em que há alguém com raiva dele. Este interlocutor exprime sua raiva por meio dos gestos, das palavras e dos gritos. “Porém”, o autor coloca a questão,”onde se encontra esta raiva?”. Por um momentos, podemos dizer que “no espírito deste interlocutor”, porém, para aquele que “recebe” a raiva (no caso, o autor), isto não é assim tão claro

“Porque, afinal, essa maldade, essa crueldade que leio nos olhos de meu adversário, não consigo imaginá-las separadas de seus gestos, de suas palavras, de seu corpo. (…) a raiva explode nesta sala e neste lugar da sala, é neste espaço entre mim e ele que ela ocorre.” (p.44)

René Descartes

Com isso, Merleau-Ponty pretende dizer que, no indivíduo, corpo e espírito existem de uma só vez, intrínsecos um ao outro. Descartes, embora ainda um dualista que acreditava que existíamos, antes de tudo, como “essência pensante”, já havia dito que o espírito e o corpo existem tão “conjuntamente” que o primeiro sofre com as injúrias do segundo, como quando temos uma dor de dente.

Prosseguindo com o exemplo da raiva, que se aplica também a outros sentimentos (estados de  espírito), é a partir daí que podemos concluir que esta não surge antes como ideia no espírito do interlocutor. Ela já surge, necessariamente, como manifestação no corpo. Se não fosse assim, poderíamos ser “indiferentes” à raiva, o que soa, no mínimo, como uma contradição.
Além disso, quando o autor diz que a raiva existe neste espaço comum que há entre ele e seu companheiro vociferante, é porque tampouco podemos ter acesso à raiva “em si mesma”, sem estar sendo dirigida a algo ou alguém. Assim como a consciência, para Husserl, é sempre “consciência DE”, a raiva também é necessariamente “raiva DE”.

O autor também pretende enfatizar a importância do outro para que cada indivíduo possa se constituir como tal:

“Só sentimos que existimos depois de já ter entrado em contato com os outros, e nossa reflexão é sempre um retorno a nós mesmos que, aliás, deve muito à nossa frequentação do outro.” (p. 48)

Concluímos que a humanidade não é apenas uma soma de indivíduos pensantes em sua solidão, mas também não é apenas uma coletividade. Nós somos indivíduos coletivos, e a humanidade, uma coletividade individual. E, justamente por possuirmos “uma história pessoal e uma história coletiva”, estamos fadados a uma luta eterna para nos fazermos entender, superarmos nossas divergências e, por fim, percebermos o outro.

O autor encerra contrastando dois exemplos. No primeiro deles, nos é dito sobre um gigante, personagem de um livro de Voltaire, que, de cima, observa o mundo humano com desdém. No segundo, Merleau-Ponty nos diz sobre os protagonistas das obras kafkianas, um inseto e um cachorro que observam o mundo humano, não mais “de cima”, mas, em certo sentido, de baixo. Ele priorizará este segundo: À Razão, portanto, não cabe aquele antigo pedestal, sem que isto signifique recusá-la. Utilizemo-la no mundo, e não como instância “alheia” a este.

“Ao nosso tempo foi reservado julgar-se não de cima o que e amargo e maldoso, mas de alguma maneira de baixo. (…) Kafka imagina as pesquisas de um cachorro que se depara com o mundo humano. Descreve sociedades encerradas na concha dos costumes que adotaram. (…) Observar o homem de fora é a crítica e a saúde do espírito. Porém não para sugerir, como Voltaire, que tudo é absurdo. Mas para sugerir, como Kafka, que a vida humana está sempre ameaçada e para preparar, pelo humor, os momentos raros e preciosos em que acontece aos homens se reconhecerem e se encontrarem.” (p. 53)

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