Muito além da desigualdade ― o significado de classe social

Cada vez mais atenção tem sido dada recentemente à desigualdade social no mundo, e não é sem motivo: apenas 85 bilionários possuem riqueza igual à da metade mais pobre de todo o mundo, ou seja, 3,6 bilhões de pessoas.

Artigo de Josh Lees, publicado originalmente no Red Flag.

A desigualdade não é tão simples quanto aparenta.
A desigualdade não é tão simples quanto aparenta.

Cada vez mais atenção tem sido dada recentemente à desigualdade social no mundo, e não é sem motivo: apenas 85 bilionários possuem riqueza igual à da metade mais pobre de todo o mundo, ou seja, 3,6 bilhões de pessoas.

De um lado, dar tamanho foco na desigualdade é positivo pois mostra claramente a existência de uma linha que divide a sociedade entre os que tem e os que não tem. Porém, a maneira como os “que têm” e os “que não têm” são categorizados é importante se nós quisermos encarar as disparidades que existem.

Uma maneira de se ver o problema é fazer um contraste entre a extrema pobreza de partes do “mundo desenvolvido” e o padrão de vida generoso do ocidente. Essa visão é extremamente limitada, diga-se de passagem, pois ignora a desigualdade que existe em ambos os países emergentes e os desenvolvidos. Um trabalhador branco assalariado nos EUA, Alabama, por exemplo, sonha em ter a qualidade de vida de um oficial governamental negro da Nigéria.

Outros mostram a desigualdade como sendo simplesmente um problema de pessoas terem um rendimento maior que outras. O Australian Bureau of Statistics, por exemplo, produz vários de seus trabalhos sobre desigualdade comparando diferentes grupos. Eles mostram que os 20% mais ricos na Austrália ganham em torno de 4,1 vezes mais que os 20% mais pobres. Isso é importante saber mas, novamente, isso esconde várias nuances dessa desigualdade.

Na Austrália, o 1% mais rico tem dobrado sua porcentagem no rendimento nacional desde os anos 1980. Os nove indivíduos mais ricos possuem mais que os 20% mais pobres.

Esse foco na elite no topo de cada país é um passo adiante porque começa a focar na fonte, em vez de focar nas consequências, da desigualdade. Para entender isso, nós precisamos ir além, e não olhar apenas para conceitos vagos como “riqueza”.

As divisões na sociedade que realmente importam não são aquelas entre os trabalhadores bem pagos, os mal pagos e os desempregados, ou entre trabalhadores no ocidente e pobres no mundo em desenvolvimento; elas são entre o pequeno número que é proprietário do que Marx chamou de “meios de produção” ― maquinário, tecnologia, construções, recursos minerais etc. ― e aqueles que não o são.

Como as Gina Rineharts do mundo conseguem juntar uma fortuna tão obscena enquanto o resto de nós rala para poder chegar ao fim do mês? Se você fosse acreditar nas justificativas dadas a nós pelo sistema, você iria achar que é por causa de todo o trabalho duro (ou o trabalho de seus pais).

O Australian Financial Review uma vez declarou: “Muitos australianos estão com medo, ou até envergonhados, das recompensas financeiras que advêm do trabalho duro.” Mas será que os 9 australianos mais ricos realmente trabalharam, em média, mais de 500 mil vezes mais duro que o resto de nós?

Claro que não. A realidade é que toda essa riqueza é criada pelo trabalho. Trabalhadores, a maioria da humanidade que não possui ou controla os meios de produção, têm de vender sua capacidade de trabalho para aqueles que os possuem: os capitalistas. Trabalhadores são pagos um salário.

Mas o capitalista recebe mais-valor em cima do esforço do trabalhador do que ele/ela no salário ― é daí que os lucros vêm, e é isso que Marx quis dizer quando falou em exploração. Em outras palavras, não há apenas alguns que são ricos e outros que não são; os ricos ficam ricos roubando uma parte do valor criado pelos trabalhadores.

Parte dos lucros feitos em cima das costas dos trabalhadores, os super-ricos gastam em luxos ― um dos poucos mercados que estão bombando, embora haja demandas de austeridade para o resto de nós.

Porém mais valor é investido de volta na produção enquanto os impérios corporativos tentam expandir e ganhar a competição com seus rivais. Os meios de produção, cuja propriedade dá aos capitalistas poder nesse sistema, são apenas o trabalho acumulado de trabalhadores passados. Afinal, quem construiu as minas, as máquinas e os shopping centers para começo de conversa?

Entender esse ciclo constante de produção, exploração e reinvestimento é chave para entender a desigualdade e porquê ela está tão emaranhada no sistema ― desigualdade de renda é baseada na desigualdade da distribuição dos meios de produção.

Reformas tributárias para aumentar a taxação de corporações e do 1%, o que socialistas certamente apoiam, seriam bem-vindas. Mas isso ainda não desafiaria a causa principal, a raiz do problema.

Há, obviamente, desigualdades dentro da própria classe trabalhadora, dependendo da oferta e demanda por trabalho, da força de sindicatos, da existência de um Estado de Bem-Estar Social, e por aí vai.

Chefes usam toda sorte de divisões e desigualdades ― racismo, sexismo, salários menores para jovens, ataques em programas sociais ― para tentar nivelar por baixo todas as condições de trabalho. Porém, os trabalhadores têm um interesse em rejeitar tudo isso e se unirem para lutar contra a real causa da desigualdade ― o controle dos meios de produção por poucas pessoas, em vez do controle pelos próprios trabalhadores.

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