Foucault e o neoliberalismo

Foucault tinha tendências neoliberais? Stuart Elden, do Progressive Geographies acredita que não. Leia aqui!

Artigo de Stuart Elden publicado originalmente no Progressive Geographies.

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Eu estive distante, mas várias pessoas têm me enviado links de uma série de artigos recentes sobre a suposta simpatia de Foucault para com o liberalismo. O começo do debate ― em Inglês, pelo menos ― foi a tradução de uma entrevista com Daniel Zamora na Jacobin. A entrevista refere-se ao livro que tem como título “Critiquer Foucault: Les années 1980 et la tentation néolibérale” o qual acaba de ser publicado. Clare O’Farrel é que concebe as obras chaves no Foucault News.

O livro é um trabalho coletivo, editado por Zamora. Eu ainda não tive a oportunidade de ler, e suspeito que pouquíssimos daqueles que têm comentado sobre o assunto, também o tenham. Qualquer coisa que seja dita agora é necessariamente efêmera.

A primeira coisa que despertou minha atenção foi a pergunta: Será isto novo? A palestra de 1979 de Foucault sobre neoliberalismo ― injustamente chamada de “O nascimento da Biopolítica” ― tem sido amplamente divulgada por uma década. Esta foi publicada na França em 2004, e traduzido para o inglês em 2008. Algumas pessoas ― Thomas Lemke sendo o exemplo destaque ― discutiram fundamentalmente antes das gravações serem arquivadas.

Outros também fizeram a sugestão de que Foucault tinha alguma simpatia ao neoliberalismo – Paul Patton, por exemplo. Muitos outros têm discutido a conexão de Foucault em relação ao neoliberalismo e o que ele se tornou – Jamie Peck e Nick Gane imediatamente vêm à mente. Clive Barnett oferece alguns pensamentos, construídos com base nas obras de 2011 e 2013. Então, de novo, isto não é na realidade atual. Para avaliar a validez das reivindicações, as pessoas deveriam ler ou reler as palestras de Foucault – até onde eu posso dizer, “as revelações” não são baseadas em nenhum material novo. Zamora menciona outros materiais, porém diz que tudo esta disponível.

A revelação real seria ler um texto de Foucault elaborado por volta de 1980-81, intitulado como sendo “libéralisme comme art de gouverner” e mencionado por Michel Sennellart em suas notas em “O nascimento da Biopolítica” e “Do governo dos vivos”. Este texto não foi publicado. É notável que após 1979 todas as leituras do curso de Foucault estão para antiguidade ou na nova igreja, embora ele tenha dirigido seu seminário em 1980 sobre liberalismo no século XIX, e tenha patrocinado seminários administrados por François Ewald sobre sociologia e a filosofia da lei em 1981 e 1982. Estes seminários – alguns dos quais tinham sido aparentemente gravados – proporcionariam certo material suplementar interessante. A propósito, estou perplexo em como Foucault pode ter sido de certo modo prejudicado por aquilo que Ewald passou a fazer. Ewald foi descrito como sendo um “foucaultiano de direta”― mas seu trabalho e sua política dificilmente são uma revelação (Isto, talvez seja visto como novidade para um anglófono sendo um produto secundário de algo que observei antes ― que poucas pessoas leram o trabalho dos colegas e colaboradores de Foucault, grande parte do qual não está disponível em inglês).

Outra reação imediata à obra inicial era de que haveria um risco de que tomaríamos as palestras de Foucault como são agora apresentadas a nós, como livros. Mas estas palestras não têm, obviamente, o mesmo status que os livros de sua própria autoria, dos quais ele passou anos da sua vida em suas pesquisas, eles tampouco têm a mesma representatividade como inúmeros de outros trabalhos mais curtos que ele publicou em sua vida ― alguns baseados nas palestras, certamente, mas também em artigos, entrevistas, petições, etc, nas quais ele coloca seu nome. É consideravelmente chocante que nós tenhamos uma falta na tradução da obra “Dits et écrits” em inglês (em que coleta quase todos estes) ― vinte anos atrás teria aparecido em francês. O anglófono ‘Works essential’ é erroneamente usada ― na melhor das hipóteses, é um substituto pobre para a riqueza da língua francesa.

Uma das implicações disto é que as proclamações verbais de Foucault devem ser tomadas assim – provisórias, do momento, somente parcialmente redigidas (compare “Lectures on the will to know” para conseguir uma indicação de como parecem as notas de Foucault, sem que tenha o suplemento das fitas gravadas). Valioso, fascinante e revelador com certeza, mas para ser usado com cuidado. Existe um comentário em uma das palestras (10 de março de 1982, segunda hora) onde Foucault pergunta a sua plateia se eles tinham gravações anteriores de suas palestras dos últimos anos na qual eles poderiam compartilhar com ele.

Eu entendo que há pessoas gravando as palestras. Tudo bem, vocês obviamente estão dentro de seus direitos. As palestras são públicas. Porém vocês talvez tenham a impressão de que todas as minhas palestras são escritas. Mas elas não são tantas como parecem, e eu não tenho nenhuma das transcrições ou até mesmo gravações. Agora acontece que eu preciso delas. Então, se por acaso tenha alguma pessoa que possua (ou que conheça alguém que possua) estas gravações ― Eu acredito que tenha alguém chamado Monsieur [Jacques] Legrange – ou, obviamente, transcrições, poderia me informar por gentileza, pode me ajudar. E especialmente pelos últimos quatro ou cinco anos[1].

Os quatro ou cinco anos referem-se a quase todas palestras de Foucault pós-sabáticas, mas certamente incluindo “The birth of Biopolitics”. Nestas palestras de Foucault, em 1979, sem dúvida achou o neoliberalismo interessante e merecedor de sua atenção substancial. Mas à parte por motivos históricos e contextuais pelos quais este talvez seja o caso (o que não posso endereçar aqui) isto foi um ‘neoliberalismo’ emergente ― as palestras foram entregues antes de Reagan e Tatcher se elegerem. E este curso sendo o único dos cursos de Paris que foram diretamente direcionados ao século XX. O modo no qual Foucault lê os textos, muitas vezes faz com que pareça que ele está concordando com os argumentos, quando na verdade ele está tentando reconstruí-los, para entender a sua lógica, e assim por diante. Sugerir que ele tenha alguma simpatia com o neoliberalismo é uma coisa, agora dizer que ele seja neoliberal/libertário é outra. Compare o tom destas palestras para aquelas do cristianismo nascente e antiguidade tardia nos dois cursos seguintes – isso significa que Foucault também era um cristão estoico?

Além disso, o título desta entrevista é ridículo – é claro que nós podemos criticar Foucault. Há críticas em todos os lugares – demasiadas para listar e colocar em links. Até mesmo pessoas que achem seu trabalho inestimável, criticam-no. No livro que estou atualmente escrevendo sobre Foucault em grande parte, foi tomando um tom sintético e exegético, mas veja o que tenho falado sobre Foucault e território para abordagem diferente.

Eu espero que Zamora edite o livro ele mesmo (apesar do título), irá ser um bom negócio, mais sutil e variado do que a publicidade até agora. Isto, sem dúvida, tem capitado a atenção da mídia convencional em certa forma como alguns dos livros de Foucault. Talvez eu possa dizer mais quando eu lê-lo. Eu admito, hesitei em dar mais de minha atenção ao escrever esses poucos pensamentos, mas acredito que pessoas suficientes contactaram–me por e-mail, Twitter e Facebook que eu pensei que valeria a pena dizer alguma coisa.

Referências

[1] FOUCAULT, Michel. The Hermeneutic of the Subject pp. 378/395-6.

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