A mentira da apropriação cultural

O que é apropriação cultural? Clique aqui e desmistifique um conceito que só tem validade na internet.

Apropriação Cultural
Apropriação cultural: nem tente!

Eu pretendo fazer deste texto uma conclusão sem grandes desenvolvimentos, porque acredito que – neste instante – não é necessário fazer longas introduções teóricas (como se isso fosse possível numa coluna, como essa) pra demonstrar um ponto bem simples: a apropriação cultural, como é dita na internet, não existe.

O que existe é consumo no capitalismo tardio. O que existe é a indústria cultural.

É interessante pensar que o conceito de apropriação cultural é antigo. Por exemplo, considera-se há tempos como apropriação cultural a introdução da cultura grega no império romano, após a conquista; considera-se apropriação cultural o numeral arábico no ocidente (aliás, você sabia que Bhaskara era indiano?), assim como a tradução e posterior desenvolvimento da filosofia aristotélica pelos árabes no início da Idade Média.

No entanto, a dita pós-modernidade é uma época de invenção, não é mesmo? Segundo a atual militância da internet, a apropriação cultural seria o ato de grupos dominantes se apropriarem de símbolos de luta de grupos oprimidos e retirar toda sua substância, os transformando em meras mercadorias. O que eu estou dizendo é que, no capitalismo tardio, eles já são mercadorias.

Ou você acha que come feijoada porque é um símbolo de luta do povo negro? Não, você come feijoada porque alguém (seja você ou não) compra os ingredientes e cozinha. E por que você se interessa pela feijoada? Pode ter certeza que você se interessa pela feijoada muito mais por ser uma comida habitual do que por qualquer significado transcendental. Você não come feijoada, você consome feijoada. E se você não entendeu meu foco na feijoada, entenda:

Postagem de Facebook sobre apropriação cultural
Apropriação cultural na feijoada?

Talvez um outro caso famoso seja o do turbante: a foto abaixo ficou famosa por suscitar longas discussões sobre as origens do turbante e o erro em transformá-lo em objeto de moda.

Mas há um problema, as longas discussões em blogs (pois foi só na superfície dos blogs – no mundo da internet, no discurso próprio da internet – que essa discussão teve vida) sobre as origens do turbante não levam em consideração que este elemento sempre foi utilizado pelos povos do oriente médio, para além da África, o que já prova a multiplicidade de significados que um mesmo objeto material pode conter em diferentes locais ao longo do tempo.

Muito além disso, o que essas discussões esquecem (caso um dia tenham levado em conta) é que o significado de uma prática não se dá nas origens, mas na prática presente. Você não busca a origem de uma palavra para entender seu significado, você observa seu uso ordinário. A indústria cultural já sugou toda essência de qualquer símbolo fora das delimitações europeias. Tudo é mercadoria. E não se engane, você é consumidor. Ninguém é especial.

Apropriação cultural em propaganda da Arezzo.
A famosa campanha da Arezzo, recheada de apropriação cultural.

É claro que se o significado se dá conforme a prática ordinária, não necessariamente as coisas perdem sua transcendência automaticamente. É necessário praticar essa mercadorização dos objetos. Mas tem como alguém, no seio do neoliberalismo, sair por aí dizendo que comer feijoada é apropriação cultural? É possível haver algum ser iluminado que, de repente, não é parte da sociedade consumista atual?

Apropriação cultural como exclusividade de consumo

O real significado do conceito internético de apropriação cultural no capitalismo tardio é de exclusividade de consumo. O Colunas Tortas é cheio de artigos e resenhas para explicar a dita liquidez do mundo, que eu prefiro traduzir como hedonismo cultural – coisa que Lipovetsky faz há tempos.

Num lugar em que não há nenhum referencial fixo, em que as pessoas se transformam em coisas, em que o engajamento chega perto de zero, em que a mercadoria é a forma dominante de todas as intermediações do ser humano com o mundo, há poucas nesgas de segurança existencial: a religião é uma delas, vide as igrejas neopentecostais.

Há uma outra, mais comum e incentivada no capitalismo: a união de consumidores. São os fãs de bandas que vendem milhões em discos, downloads de música, cobram caro em seus shows e etc; é o público de marcas como a Coca-Cola, que vendem um mundo de solidariedade mediado pela sua bebida; os fãs de seriados americanos, que levam milhões de jovens ao delírio; e – esta é minha hipótese – a apropriação cultural está neste caminho.

Um exemplo deste imperativo de exclusividade de consumo é o caso abaixo, em que, num vídeo pornô, os participantes foram censurados devido seus dreadlocks. Afinal, brancos não podem usar dreadlocks. O mais incrível, como você já deve ter visto, é que isso aconteceu num site pornô! Até nos sites pornôs é necessário estender o imperativo da regra de exclusividade.

porn
Até pra se masturbar é necessário saber se há ou não apropriação cultural.

A apropriação cultural é a exigência do consumo exclusivo. Em um grupo de vendas no Facebook, uma moça diz que brancas não podem vender turbantes. O que é isso? É sintomático.

Pouco depois, algumas moças dizem que pessoas com câncer estão utilizando a doença como desculpa para usar turbante. Isso é real, veja abaixo.

Postagem no Facebook sobre turbantes e apropriação cultural.
Nem mesmo pessoas com câncer se safam da apropriação cultural.

Pior, o piercing que você usa em sua orelha, em seu nariz ou em seu umbigo, ele também foi apropriado, veja,

apropriação
Você se apropriou de um jeito que você nem se lembra. Imagem: Facebook.

Tudo isso é muito sintomático.

A apropriação cultural nem mesmo é algo que a maioria das pessoas da vida real, aquelas que não estão na internet, que estão vivendo a vida de fato, reclamam. Elas nem ligam. Ninguém liga.

Este conceito é um operador que delimita esteticamente o que as pessoas potencialmente podem ser na internet. É um identificador, é um conceito que promove a distinção e, portanto, a identificação de diferentes pessoas em seus grupos sociais na internet. É um anti-homogeneização. É um conceito que – da maneira como é praticado no Brasil – nasceu na internet e tem validade somente lá, assim como o conceito de desconstrução, que eu tratei longamente aqui.

A apropriação cultural mantém os consumidores em fileiras corretas, não os torna homogêneos. É o capitalismo separando o público consumidor para melhor conquistá-lo.

***

Leituras obrigatórias

Acredito que o conceito de local de fala não faz sentido, veja aqui.

Entenda minha opinião sobre a militância dementadora, que nasceu na internet, principalmente nas redes sociais, clique aqui.

“Se desconstruir”, o que é isso? Eu digo: é uma abominação epistemológica e ontológica, veja aqui.

70 Comments

  1. E eu acho que exite mais um ponto importantíssimo nessa discussão: não há possibilidade de haver apropriação cultural porque é impossível exercer propriedade sobre a cultura. Sempre parto daí. Até porque, é justamente por não existir a possibilidade de propriedade sobre cultura, que estamos aqui utilizando uma invenção originada com intuito de aprimorar táticas de guerra, ou melhor dizendo, exercer poder e dizimar povos, mas utilizamos essa invenção buscando fazer dela algo diferente da sua origem.

    1. Até onde sei, a Feijoada consumida no Brasil teria origem nas senzalas. Afinal, os escravizados tinham poucas condições de consumo. Desta forma, misturavam as partes, não nobres dos cortes, e assim teria nascido a nossa Feijoada. O Feijão por si só, nem era algo comum na Europa. Hoje ainda é difícil.

      1. Não. Feijoada tem origem portuguesa e existe em todos os países lusófonos, tendo algumas modificações dependendo do lugar. Creio que o que levou o povo a acreditar nessas histórias é que os cortes das carnes da feijoada não são tão “nobres”. Porém, em Portugal era a mesma coisa (podendo mudar apenas o feijão). Muitas receitas que o povo acha que é daqui, vieram de lá. Enfim, Portugal não se resume a Bacalhau, Azeite e Vinho do Porto. 🙂

        1. A feijoada é de origem afro brasileira. O mundo todo conhece o Brasil como o país da feijoada e da cachaça. Para justificar que a feijoada nasceu nas senzalas, pesquise qual é a comida de Ogum (A feijoada tradicional é comida do Orixá Ogum)

          1. Problema é que as pessoas não estudam. A feijoada não nasceu na senzala, ela veio de Portugal. A Cachaça nasceu nas fazendas de cana porque aqui não chegavam bebidas em quantidade da Europa, e até chegou a ser proibida pela coroa porque começou a atrapalhar a produção de ouro branco (açúcar). O turbante era usado no oriente muito antes do nascimento do Islã (sem registros precisos, mas indica seu nascimento provavelmente na índia, onde realmente tem significado na cultura daquele povo além de tampar a cabeça). Essa bobagem de apropriação cultural não existe, porque se é cultura, pertence a todos.

        1. Gente, vocês estão na internet, é só dar um google rapidinho “Feijoada (Portuguese pronunciation: [fejʒuˈadɐ]) is a stew of beans with beef and pork of Portuguese origin.[1] It is also typically cooked in Macau, Angola, Cape Verde, Mozambique, Goa, India and Brazil, where it is also considered a national dish. However, the recipe differs slightly from one country to another.[2]”

      2. A feijoada é um prato típico do norte de portugal, é um prato milenar e confeccionado com enchidos, chouriço,presunto, orelha de porco, e com outro tipo de enchidos que também são originários de Trás-os-montes no Norte de Portugal.
        https://pt.wikipedia.org/wiki/Feijoada_(Brasil)

        “A explicação popular mais difundida sobre a origem da feijoada é a de que os senhores – das fazendas de café, das minas de ouro e dos engenhos de açúcar – forneciam aos escravos os “restos” dos porcos, quando estes eram carneados. O cozimento desses ingredientes, com feijão e água, teria feito nascer a receita. Tal versão, contudo, não se sustenta, seja na tradição culinária, seja na mais leve pesquisa histórica. Segundo Carlos Augusto Ditadi, especialista em assuntos culturais e historiador do Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, em artigo publicado na revista Gula, de maio de 1998, essa alegada origem da feijoada não passa de lenda contemporânea, nascida do folclore moderno, numa visão romanceada das relações sociais e culturais da escravidão no Brasil.”

    2. Fiquei com essa angústia também.. Galera, mito de história da segunda série essa coisa da feijoada como prato brasileiro. O prato não apenas é português como pode ser encontrado variações dele por toda Europa como o Cassoulet na França, que é feito de arroz, feijão, linguiças e as vezes canes menos nobres…

    3. Detalhe que a feijoada era feita por negros que recebiam os restos (orelha, rabo, etc.) dos seus senhores, a não ser que os portugueses viviam em senzalas e ficavam com os restos, daí vc tem razão.

    4. Até onde sei a feijoada é brasileira, mas antes dela existia o cassoulet que é uma espécie de “feijoada” que nasceu na França, mas a forma de preparo é diferente. não vamos dar a César o que não é dele.

      1. Vocês não percebem que é justamente por isso, também, que o conceito de “apropriação cultural” é inválido? Seja na feijoada, seja no turbante, quem está mais certo sobre a sua origem? Vão existir teorias e teorias, fatos e fatos.
        E como bem o texto disse: “o significado de uma prática não se dá nas origens, mas na prática presente”.

  2. Se tem uma coisa que me arrepia, esta coisa se chama ”indústria cultural”. Desde a antiguidade se busca o meio ideal de manipulação de massas, e parece que o capitalismo o achou. Imaginem manipular bilhões de pessoas sem se utilizar da força, sem revoluções sangrentas, sem o medo propriamente dito, é isso que ocorre hoje, bilhões são sujeitos a um controle que eles mesmos desconhecem, quando digo eles, digo eu por que não? Sou um viciado em cafeína e tabaco, posso dizer que não sou um produto de manipulação? Claro que não.
    Me assusta ver uma criança do nada detestar brócolis só porque assistiu a um desenho, como também me assusto em vê-la amar brócolis por sugestão de outro desenho. A mesma coisa são os jovens e os adultos.
    Li recentemente um livro intitulado Rápido e devagar, e me desiludi quando o assunto era controle de massas e sugestionabilidade, assunto que antes era cético.
    Achei o texto interessante principalmente no tocante à ”militância defensora da cultura e contraria à apropriação/imposição da cultura” rs. Abraços.

  3. Outra parte importante do texto: “A apropriação cultural nem mesmo é algo que a maioria das pessoas da vida real, aquelas que não estão na internet, que estão vivendo a vida de fato, reclamam. Elas nem ligam.”

    E é por essa razão que desliguei facebook e logo menos vendo meu celular. O velho índice telefônico já retornou para o meu cotidiano, afinal, não tenho como sair da indústria cultural.

  4. Ótimo texto! Eu fico até aliviado quando vejo alguém escrevendo bem e se defendendo com argumentos – só com argumentos.

    Há tanto texto de militância e tanto texto absolutamente igual em conteúdo e arbitrário na forma de defesa que me sinto um pouco mais livre ao ver alguém discutindo qualquer um dos temas tidos como sagrados por esses grupos que militam.

    Eu poderia nem concordar contigo, mas só por abordar bem o assunto já ficaria contente, felizmente, porém, eu concordo, creio que os argumentos são bons.

    Só posso dizer obrigado pela experiência que o texto proporcionou.

  5. Olá. Respeitando o seu ponto de vista, não vejo coerência em tratar a cultura de uma forma tão estética como feito aqui. É certo que a questão de apropriação que vem sendo mais discutida é sobre vestimentas, mas a apropriação é muito além disso.
    A apropriação cultural é algo sintomático, utilizado pela humanidade como meio de exercer e aumentar seu controle sobre o espaço e suas populações tradicionais. Sincretismo é uma coisa, como feito por diversas religiões tanto para aumentar seu alcance (a ex. do Catolicismo na Europa, onde permitiram os cultos de deuses pagãos dando-os nomes Católicos) como para garantir sua sobrevivência (como no Brasil onde o culto aos Orixás eram feitos em dias de santos católicos pois só assim se conseguia cultuà-los), e apropriação é outra.
    É apropriação quando somente um grupo sofre com racismo por utilizar trajes culturais.
    É apropriação enquanto esse grupo continuar sendo exterminado. No Brasil, onde a política nacional faz uso da cultura indígena como promoção do Estado liberal brasileiro, ao mesmo tempo que realiza os I Jogos Mundiais Indígenas continua massacrando os povos autóctones por todo o país, impedindo-os de exercer sua cultura, impondo a esta sociedade um modo de Ser e Viver.
    Enquanto isso continuar acontecendo pelos Estados e pelo capital, continuará sendo apropriação cultural sim! A questão estética é apenas o que é exteriorizado e visível de algo que fora sofrido internamente e, ao você dedicar a conclusão de seu texto ao consumo da estética, não achei que representa toda a questão dessa apropriação. De que vale a homogenização da humanidade se ela é feita de cima para baixo, dos dominantes sobre os “dominados”.

    Um abraço e ótimo 2016!

    1. Mas ai isso é apropriação ou marginalização de certos tipos de usos simbólicos dos mesmos elementos devido aos grupos sociais (minorias sociais) que os utilizam?
      O que eu estou querendo dizer é que o problema (do ponto de vista civil) não estaria no fato de pessoas brancas usarem turbante (que no caso ocorre por motivações estéticas, inculcadas pela indústria da beleza através das narrativas da moda na indústria cultural), e sim o fato de pessoas negras com turbantes (usados pela motivação das tradições africanas) serem marginalizadas por isso.
      A violência civil, neste exemplo que eu dei, é devido ser uma pessoa negra se apresentando à sociedade nas tradições da sua etnia e não o uso ou não uso por quem quer que seja disso ou aquilo.

    2. Você não entendeu nada. É exatamente contra essa visão burra de cultura meramente estética que eu escrevi o texto.

      Grande abraço e bom 2016.

      1. Olá Valter, falar que alguém “não entendeu nada” é dizer que você mesmo é o detentor da verdade e, como a verdade não tem dono, você de certa forma estaria se apropriando desta dita verdade (isso é uma brincadeira tá, só p mostrar como é tênue a questão da apropriação, peço cuidado como responde seus leitores sem ser desrespeitoso, o que considerei ao ler sua resposta, nem ser incongruente com sua tentativa de esclarecimento), eu possuo minha própria compreensão do que você escreve, nunca há o entendimento total e completo do que você pensa ao que você escreve ao que lemos.
        Para continuar o debate, venho falar sobre cultura. Como disse o camarada Bruno, “impossível exercer propriedade sobre a cultura”, isso quando a cultura é tradicional. Na antropologia cultural, mesmo tendo mtas críticas a ela, tratamos também a “cultura” (cultura com aspas) além da cultura (sem aspas), que é uma manifestação que não segue seus preceitos tradicionais, ou seja, é simbólico representativo apenas, como algumas músicas que anteriormente era utilizado com o intuito espiritual e hoje é apenas música. Em sua essência ela não perde sua capacidade de nos levar ao êxtase, só que agora não é mais reverencial, apenas referencial. Saca a diferença? Uma letra que muda todo o significado! Então… esta “cultura” (com aspas) pode sim ser tratado como propriedade, de modo que muitas pessoas a vendem (ex. em cursos ou objetos). É uma questão relativa ao capitalismo? É sim, porém como vivemos neste regime então não podemos fingir que não existe este tipo de apropriação, tirando o significado inicial e retirando de seus espaços originários. Exite a cultura imaterial claro, mas também existe a materialização da cultura. E quando os ganhos não são revertidos às sociedades tradicionais (que ainda existem e muito!) se torna apropriação, ou apoderamento.
        Cultura, sob outro ponto de vista, neste caso na visão de algumas sociedades indígenas (sem homogenizar suas diversas sociedades), não é algo externo, que é medida como uma manifestação cultural apenas, que considera somente a forma de expressão humana. É algo que levamos internamente. Deste modo, quando não podemos cultuar nossa cultura internamente por meio de repressão, torturas,terrorismo e genocídio (como acontece nas periferias de nosso país, tanto urbana quanto rural), nos impossibilitando de viver em nossas terras indígenas ou quilombolas de acordo com nossa cultura, isso é tomar posse e arrancar nosso direito à cultura, uma forma de apropriação.
        Podemos falar também sobre o patrimônio histórico-cultural, que é a valorização e o conhecimento dos bens culturais que contam a história ou a vida de uma sociedade. Enquanto não for tratado a história indígena e afrobrasileira em nossas escolas com nossos interlocutores, apenas mostrando a visão da Europa e EUA, haverá apropriação deste patrimônio histórico-cultural também. Não somos minorias, somos sim constantemente minorizados mas nunca seremos minorias, por mais que tentem nos matar e subjulgar!
        Por fim, eu conheço minha verdade e estou sempre em busca de outras visões da verdade para aprofundar a minha. Não sou detentor de verdade alguma, nem da minha, eu que pertenço à ela. Peço que ouça os comentários de quem se sentiu ofendido, receba-os internamente, os reflita e amplie a sua verdade também.
        Asè!

      2. Yan, eu gostaria de te agradecer por todos os pontos que você abordou. O conceito de Apropriação Cultural, tal como você coloca faz todo sentido dentro dos próprios Estudos Culturais. Muito obrigado mesmo. 😀

    3. Feliz de ler seu comentário Yan , acredito que a visão da postagem acima se preocupa com o fato de os brancos não poderem fazer uso de outra cultura, mas esquece-se que o mesmo negro que produziu e significou aquela cultura não pode fazer uso dela , porque uma pessoa, geralmente da elite faz uso do objeto , mas raramente eu que moro na periferia de osasco, vejo alguém utilizar um turbante, e ao ocorrer o uso imediatamente esse é identificado como parte de algum “culto demôniaco” , para o pobre é estigma do preconceito étnico ( racismo) enquanto pra elite é moda. Ou seja o significado advindo de raízes africanas é ruim , mas se a elite se apropria ele passa a ser bom, mas retira-se a carga cultural negra . E embora aja uso de outras etnias, aqui nesse país a influência se dá de forma africana . Ninguém vai retirar o significado da feijoada já esta consolidado, mas o turbante ele revela um preconceito de classe e um racismo em relação principalmente a mulher negra . Relaciona-se diretamente aos traços de cada etnia, relaciona-se ao cabelo crespo e ao cabelo liso . Não é a questão proibir o uso as pessoas brancas e segregar ao uso unicamente negro , mas a questão é fazer com que esse objeto então esteja nas lojas de rede á acesso das demais classe e principalmente em publicidade por negras e negros. Mas isso esta longe de ocorrer , pense qtas manequins negras já viram por ai nas lojas populares . Fazer textos bem escritos é uma arte o acima esta excelente , mas ver a realidade é uma arte a parte , e essa nele eu não enxerguei .

      1. Exatamente Letícia! Você sintetizou bem o que está no âmago da insatisfação do segmento negro politizado e engajado com as lutas antirracistas quando questionam o “uso” de certos elementos da cultura negra por brancxs. Somente a partir do momento em que brancxs utilizam as produções culturais do povo negro, estas passam a ser “legitimadas” na sociedade. Sobretudo quando dá lucro. Este é um angulo difícil de alcançar quando não se é alvo cotidianamente das práticas racistas que o imaginário estereotipado da nossa sociedade fomenta. Aconselhável ouvir atentamente os segmentos oprimidos antes de desqualificar suas vozes e lutas, pois chamar de burros seus argumentos não é nada mais, nada menos, do que a expressão de quem se acha superior e mais entendido das lutas dos excluídos do que os próprios.

      2. Use a porra do turbante quem está te impedindo!!!??? Agora querer dizer que pertence a vocês e não deixar ninguém usar porque está se apropriando de cultura alheia é palhaçada. Esse povo é muito fresco e o mundo tá ficando muito chato por causa dessas pessoas, querem rotular tudo e punir todo mundo como se fosse palmatória do mundo.

  6. To só vendo quem condena branco de apropriacao cultural por fazer e comer feijoada, depois de ter ido na padaria do Manoel comprar pão francês. Ta sertu pantera 😉

  7. Muito interessante o texto, tendo a concordar na maior parte, embora não muito com as conclusões.

    Por outro lado, existe um ponto que se repete em diversas postagens e que, talvez, pudesse ser repensado: é uma falácia afirmar que existem dois mundos, o real e o virtual.

    A ideia de que existe um mundo onde as pessoas “vivem de verdade” e um onde “vivem de mentirinha” não se sustenta.

    O mundo virtual É o mundo real, o compõe, o constrói e se constrói a partir dele, e não veio de outro planeta e se instaurou no mundo real, “roubando o protagonismo”.

    Veja, se usarmos o próprio materialismo histórico como referência, chegamos a conclusão que a internet é fruto das relações materiais da sociedade, e não algo à parte. Aliás, compõe-se não apenas como superestrutura, mas também como parte do processo de produção (encomendas online, venda de notícias, contratação de trabalhadores etc.)

    Na verdade, tal ideia é um senso comum muito reproduzido. Já ouvi de crianças até professores universitários. Creio ser positivo problematizá-la.

    Dito isso, destaco dois trechos do seu texto:

    “A apropriação cultural nem mesmo é algo que a maioria das pessoas da vida real, aquelas que não estão na internet, que estão vivendo a vida de fato, reclamam.”

    “É um conceito que – da maneira como é praticado no Brasil – nasceu na internet e tem validade somente lá,”

    Ora, o fato de as “pessoas no mundo real” não “reclamarem” de modo algum imputa que é porque o conceito se limita na internet. O fato de um trabalhador alienado pela ideologia não reclamar de sua situação não significa que não haja exploração.

    Para a partir de um exemplo da sua amada “vivência”.

    Uma amiga dizia não se importar com as famigeradas “cantadas de rua”, embora, nas palavras dela “comprei um fone para não ouvir, um óculos escuro, e dava a volta no quarteirão”. Após tomar contato, via internet, a debates, pesquisas, movimentos etc, percebeu que aquilo era realmente um problema, e não algo normal. Eu, homem, parei de me manifestar de tal modo, olha, no “mundo real”, porque li na web coisas que nunca me tinham chegado via outros veículos de comunicação.

    A conclusão reforça minha proposta inicial: a internet faz parte, SIM, da realidade.

    Não é um mundo de fantasia criado por marcianos.

    Portanto, acho muito problemática sua tese em colocar a militância online, ou ‘ciberativismo’, como sendo descolada da realidade. É pautada em um senso comum e acaba por silenciar e deslegitimar movimentos que podem interferir diretamente para uma mudança positiva da realidade.

    Um abraço e parabéns pelo blog!

    1. “Por outro lado, existe um ponto que se repete em diversas postagens e que, talvez, pudesse ser repensado: é uma falácia afirmar que existem dois mundos, o real e o virtual.”

      Não é uma falácia pois os mundos possuem dinâmicas completamente diferentes. O fato deles interagirem entre si não faz deles universos diferentes.

      É o mesmo que falar que a militância e a sociedade civil são mundos distintos. É um fato praticamente inquestionável. As influências são claras, nas duas mãos dessa avenida, mas são sistemas sociais distintos, com assuntos distintos, estruturas de poder, símbolos sociais, etc.

      O que o autor disse está corretíssimo: muitos dos temas da militância são meros símbolos identificadores, são estéticas de escrita e pensamento que indicam a adesão a uma facção. Ignorar esse elemento estético na comunicação moderna é um grande erro.

  8. Eu sou branca. Então me pergunto: _ O que é de fato do branco? O que ele pode usar e consumir sem que seja uma apropriação cultural?
    Se eu recebo uma visita de um árabe e ele me mostra algo de sua culinária, e resolvo reproduzi-la em outra ocasião como isso se chamaria? apropriação, homenagem??
    Vivemos em um mundo globalizado, e já a alguns anos, o comercio de especiarias lhe remete algo?
    Seria apropriação cultural querer consumir Sal, Especiarias?
    Só pensando!

  9. Sou considerada branca pela sociedade pela cor da minha pele. Essa semana, estava com um lenço amarrado na cabeça no supermercado quando uma moça negra disse em alto e bom som: “turbante é para quem pode carregar, não pra coxinha branca mal frita se apropriar.” Cara, eu aprendo a cada dia como lutar contra o racismo, como as piadas com a cor não são legais, como carnaval explora a imagem dos negros, como não silenciá-los em sua militância, como tentar no mínimo reparar essa dívida histórica enorme que temos. Entendo a apropriação cultural relacionada ao turbante, aos dreads e tranças, muito mais como obra do capitalismo do que como ofensa a cultura negraafricana.

  10. Viajou no abacaxi!
    Muito Bourdie pra pouca cultura.
    è serio que o autor está tentando defender a indústria cultural, usando de um contra argumento ao pós modernismo e cyber ativismo?
    Eu não consigo entender esse ponto de vista.
    Acho que precisam ler mais sobre o que é cultura, ‘cultura’, globalização e mercado financeiro.
    Seis tão confundindo tudo, misturando uma penca de corrente de análise pra tentar defender um argumento?
    Acho que várias apropriações de ‘culturas’ tem sim reações, como o movimento negro, o movimento punk, etc. enfim, não vou me alongar aqui, por que sinceramente, nem consegui entender esse argumento. Enfim, tenta de novo, com mais clareza, por que tá parecendo coisa de burguês! Comprar e vender cultura, achar que o carnaval branco é legítimo, que punk coca, ou punkboy que são de acordo com autoridade e nem sequer leram sobre filosofia são legítimos é muito pra questão de propriedade intelectual. Insano.

  11. Tempos atrás vi uma imagem ser propagada na internet, como símbolo de luta e algo a ser buscado. Na imagem, um jovem pardo (afinal a miscigenação é inegável em nossa nação) segurava um cartaz onde lia-se algo como “Tirem suas mãos brancas de nossos turbantes, dreadlocks, maracatu e terreiros”. Via muitos de meus contatos na internet propagando, orgulhosos, a coragem deste rapaz em sua luta contra a apropriação cultural, contra esse racismo e essa prepotência branca em querer usar o que é historicamente seu. Nessa hora eu, já de saco cheio, acabei por fazer o que mais gosto, contrariar pontos de vista, justamente no meu contato mais extremista. Com o meu semblante de traços nitidamente médio-orientais, coloquei uma imagem de alguns muçulmanos, rindo, e escrevi “Fala isso pra eles”, fazendo clara menção ao uso de turbantes, como citado aqui no texto. Dias atrás, contudo, eu fui mais além, após uma amiga minha (esta, amiga mesmo, não apenas contato de internet), de pele branca e cabelos crespos, replicou esta imagem relatando um caso de hostilidade por parte de uma mulher negra, ao vê-la utilizando um turbante. Ela, cujo pai é negro, reavivou minha reflexão sobre o assunto, lembrando dos outros itens constantes no cartaz do rapaz. Foi quando eu eu pensei a respeito dos terreiros. A militância extremista é tão irracional, que quer combater inclusive algo que lutam para ter: a liberdade de crença, garantida na Constituição. Querem proibir uma pessoa de crer no que ela quiser crer, só porque ela é branca. Seria como impedir negros, indígenas, orientais e mesmo europeus de serem cristãos, só porque não são de origem judaica.

  12. Achei magnifico o texto, os comentários e o blog!
    Deixei de lado alguns pontos que achei desnecessário, tanto no texto quanto em alguns comentários, mas tentei pegar um pouco de cada e levar para minha “vida real”. O que na verdade eu mais gostei foi a forma como o escritor abordou o assunto com diversas fontes e me fez refletir, em contra partida, ao ler os comentários do Yan, consegui ter um pensamento, e como dito, minha verdade sobre o assunto. Seu blog vai além de suas postagens, os comentários e respostas acrescentam e nos faz refletir bastante!!!
    Parabéns.

  13. texto superficial e bastante burro diga-se de passagem, o autor se baseia em noções rasas e preconceituosas do conceito, tenta desmistificar um conceito que sequer conhece de fato, prova dessa ignorância é a comparação completamente esdrúxula da propaganda extremamente racista de turbante com a feijoada, serio isso? ainda tem a cara de pau de pegar meia dúzia de posts de pessoas que tbm não entenderam o conceito direito pra “exemplificar” sua noção distorcida da realidade, eu já sabia que a página tinha uns autores coxinhas, mas esse texto foi de uma burrice impressionante

  14. Genial suas observaç]oes deste fenômeno de ´´apropriação cultura´´, no cerne serve muito bem, como vc disse ao próprio capitalismo seletivo, apenas para melhor direcionar suas armas doces! De resto acho uma verdadeira manifestação do desejo da desigualdade, e não me venham dizer que a democracia luta pela igualdade.

  15. Acho que a Apropriação Cultural não deve ser confundida com o intercâmbio cultural, que acontece quando pessoas de culturas diferentes compartilham aspectos de sua cultura, porque aqui o elemento de dominação não existe. Ela também não deve ser confundida com a assimilação cultural, que ocorre quando um grupo marginalizado se vê obrigado a incorporar aspectos da cultura dominante para poder sobreviver. Daí, por um lado temos quem leve a definição de Apropriação Cultural a ferro e fogo. Há pessoas que alegam, por exemplo, que algumas obras de Beethoven não deveriam ser tocadas no piano porque elas foram compostas para violino ou, ainda, que os brasileiros deveriam parar de usar o Facebook e até jeans simplesmente porque eles foram desenvolvidos nos EUA. Pera lá, também não é bem assim! Mas um exemplo clássico de Apropriação Cultural foi o que aconteceu nos EUA nos anos 50, quando os músicos brancos “tomaram emprestado” estilos musicais dos negros. O problema é que, como a comunidade afrodescendente sofria forte opressão por parte da branca, as gravadoras preferiram ter artistas brancos interpretando as canções originalmente compostas por negros. Ou quando após 150 anos, ‘Jack Daniel’s’ assumiu que a receita do uísque era, na verdade, de um escravo.Assim, formas musicais como o rock’n’roll, por exemplo, acabaram sendo associadas a músicos brancos, embora elas tenham sido desenvolvidas a partir de estilos musicais criados pelos negros. E isso teve graves consequências financeiras também, já que muitos dos artistas negros que ajudaram a pavimentar o sucesso do rock jamais receberam um único centavo por sua contribuição. Assim como aconteceu com Nearis Green (escravo do pastor que ensinou as técnicas de purificação fundamentais para a elaboração da bebida) e sua família.

  16. Esses grupos digitais anti-racismo são extremamente racistas e nem percebem. É o famoso efeito sombra. Deviam fazer como os grandes líderes costumavam fazer antigamente: estudar, ler, tornar-se cultos, e não fazer barulhos e idiotices sem razão. Machado de Assis dá dez cambalhotas no caixão toda vez que alguém desse movimento diz que isso ou aquilo é “apropriação cultural”, é racismo.

  17. Apropriação cultural => segregação de culturas => cultura melhor que outra => cor de pele melhor que outra => dominância de uma cor de pele => extermínio dos que não se enquadram…

    O último cara que promoveu isso de forma incisiva empreendeu uma das maiores guerras que o mundo já viu, por considerar que sua cultura e as pessoas com a mesma cor de pele que ele eram superiores… Movimentos negros agindo como nazistas. Isso é apropriação cultural também…

    P.S.: Essa merda de apropriação cultural não existe! Eu não sou nem preto, nem branco, sou bege e uso o que me der na telha.

  18. Os brasileiros fizeram uma apropriação cultural da feijoada e agora usam psicologia reversa pra tentar provar o contrário.

    Alguém la em cima disse que feijoada é brasileira pq Ogum come feijoada. Foi o melhor comentário! O que Ogum comia na Africa? Poxa… Ogum tb toma cerveja. E ai??? #comofas

    Brincadeiras a parte, ótimo texto!

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