Um Playground que Digo dizia ser seu

Esse posto é pequeno demais para meu ego!

Da série Contos de uma São Paulo Privada

– Puta que pariu! É pra você fumar esta praga! – Gritou Digo para Albertino, o lembrando do cigarro de maconha em sua mão, já quase apagando entre os dedos tatuados.

Albertino sofria de Transparência Mental. Era um tipo de demência que havia tido um enorme crescimento nos últimos quarenta anos. Era próxima da doença de Alzheimer, pois apresentava sintomas semelhantes, mas não tinha na sua origem as mesmas causas genéticas e não atingia os mesmos grupos. Atingia uma faixa etária de 17 a 26 anos, devido a falhas em áreas de associação do cérebro, principalmente nos núcleos de integração das memórias de curta duração com as outras preexistentes. As pessoas diagnosticadas com Transparência Mental tinham uma enorme dificuldade em guardar lembranças recentes, causando breves lapsos de memória.

As origens, diziam os especialistas, vinham da quantidade de informação disponível para o indivíduo desde a infância, fazendo com que acabasse por acelerar o tempo com que o cérebro apagava memórias recentes.

Mas Digo pouco sabia a respeito de Transparência Mental. Para ele, Albertino era apenas um “Mongol”.

Sentado em frente ao seu carro conversível verde limão, em um posto de gasolina na rua Regô Freitas, encarava indignado seu amigo ao lado. Albertino agora tragava o cigarro de maconha, fazendo a fumaça entrar na touca de sua blusa azul, que usava por cima de um macacão de lycra preto.

– Mas tu é um sequelado da porra, hein? Traga logo e passa pra rapaziada que na espera! – Ao lado de Albertino, estavam algumas outras pessoas que vieram conforme sentiram o cheiro da erva se queimando.

Digo costumava passar a semana alternando entre a Academia Banner e a Clínica Estética Esturjão. Quando seu treino não compensava, fazia implantações de substâncias para endurecer seus músculos, além de uma ou outra intervenção estética.

Aos dezenove anos, seu rosto negro quase não tinha dobras ou curvas. Qualquer marca que recebia já era corrigida quase sempre no mesmo dia. Mas isso nem chegava perto das crianças que via entrando e saindo dos consultórios, com implantes de botox  autorizados pelos pais. Pareciam seus próprios desenhos infantis e inocentes, nos quais o rosto continha apenas linhas minimalistas, com intuito de formar alguma vida ali.

Essa sua rotina era diferente da de qualquer outro sentado ali, inclusive Albertino. A maioria trabalhava de segunda a sábado na Obra ou em pequenas empresas que faziam os serviços básicos terceirizados pela Repartição, naquela parte privatizada de São Paulo.

Mas o que ninguém ali sabia, e ele fazia de tudo para deixar assim, é que na verdade Digo era filho de Yuri Pennidov, empresário de origem congolesa que se tornou um cidadão russo, e que era um grande investidor naquela região privatizada. Quase todos os postos de gasolinas – os que não eram logo seriam comprados- são propriedade de seu pai.

“A bola é minha!”

– Caramba, já é a segunda vez! Vai logo retardado! – Um rapaz magro e sem camisa, vestindo uma calça cinza cheia de manchas de reboque, jogou uma latinha na cabeça de  Albertino, quando este demorou novamente com o baseado na mão. Estava sentado há duas pessoas de distância na fila – uma moça ruiva com vestido xadrez e um senhor vestindo um abarrotado paletó azul marinho.

Digo, que estava paquerando uma garota totalmente modificada para se parecer com uma diaba ao lado de seu amigo, se virou quando um pouco de líquido gelado atingiu sua camisa regata laranja.

– Vai se fuder, maluco! Qual que é? – Albertino falou quase que como se fosse extremamente obrigado a reagir. A voz foi desanimada e quase não saiu da sua boca. Apenas levantou a cabeça um pouco mais do que já estava, fazendo a touca azul cair e revelar o pequeno tufo de cabelo amarelo vivo no meio da cabeça tatuada.

– Aí! – Digo passou por Albertino e deu um chute que fez os óculos de lente holográfica do rapaz voar longe. O senhor vestindo o paletó azul marinho se encolheu. A garota ruiva pulou na frente de Digo e o rapaz estava caído na grama, atrás da mureta onde todos estavam sentados.

Calma ae, pô! Vamo ficar todo mundo na paz! – Ela segurava Digo, que tentava avançar freneticamente. Por um momento, ele se assustou com a atitude da moça, pois era muito difícil alguém se envolver em confusões, com os autos níveis de Depressão Ansiolítica da população.

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 – Paz é o caralho! – Tentava tirar o braço da moça, que pressionava com mais força.

Logo todas as pessoas que estavam no posto de gasolina começaram a se aglomerar em volta. O rapaz começou a se levantar, balançando a cabeça – Ae mano… tô de boa…

De repente, as pessoas em volta começaram a ser empurradas por alguém tentando abrir caminho – Que porra tá acontecendo aqui? – Um homem moreno, bem baixo, a poucos centímetros de ser considerado um anão, surgiu entre as pernas de uma transexual boliviana. Usava um macacão jeans, com uma pochete de plástico amarela presa na cintura – Qual é a fita?

– Não é nada do seu assunto – disse Digo.

–Aí mano o cara aqui é meu parça, só presta atenção do jeito que você fala com ele – Juninho! – O homem baixo foi na direção do rapaz que tomou o chute e ajudou-o a se levantar – E ai?! – O rapaz olhou o homem, confuso – Quem é t…

 –Aí! – passando pela moça ruiva, o homem baixo cutucou Digo – Que porra é essa de tu colar aqui e agredir meu camarada?! Tu cola aqui já não é de agora, bagunçando na minha área, seu bico!

Digo já havia percebido aquele tipo o encarando, sussurrando coisas para outras pessoas, enquanto ele passava. Não sabia quem era, mas Digo sempre teve a impressão de que ele só esperava um motivo para arrumar confusão.

– E então? Agora, empurrou Digo, que se surpreendeu com a força daquela pessoa tão baixa, caindo no capô de seu carro verde limão – Acha que pode vir aqui com seu carro de Playba e tirar a rapaziada?!

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– Fica na tua, seu restinho de gente! Tu nem conhece o cara! Só tá querendo desarrumar comigo! – Albertino, que até então pouco havia se mexido, pulou na frente de Digo, que avançou em direção ao homem baixo – Fica suave, fica suave! – Abraçou seu amigo – Ele tá com um monte de camarada aqui, e ainda maquinado – sussurrou em seu ouvido.

O homem baixinho virou seu boné laranja florescente para trás e começou a andar de uma lado para o outro, encarando Digo.

– Aí, Meióca, ele suave agora – disse Albertino. As pessoas em volta começaram a  se dispersar e, logo, alguns amigos de Meióca vieram levá-lo para longe dali, mas o homem empurrava os braços dos amigos e continuava encarando Digo.

 Alguém vai trazer a cinta do Papai

Meia hora depois da confusão, Digo e Albertino estavam dentro do carro, ainda estacionado no posto.

Meióca, o homem baixo que havia se intrometido na confusão anterior, estava do outro lado do posto de gasolina, perto da entrada do lava rápido. Não parava de encarar os dois, com os braços cruzados, enquanto vários de seus amigos, quatro vezes maiores que ele, estavam distraídos, achando que aquilo foi apenas algo passageiro.

– Mano, vamo colar em outro pico, descendo a Consolação tem um posto novo, tá bombando!  A gente arrasta aquela mina das modificação pro role!– Albertino colocou o braço em volta de Digo, que sentiu o bafo da ganja. Estava todo aquele tempo encarando o volante, que como tudo dentro e fora do carro, fazia a vista doer pela cor azul limão.

– Nem fudendo, quem esse maluco pensa que é?? – Digo resmungou como um cão raivoso.

– Maaano, ele é dessa quebrada faz tempo. E ainda o cara tá armado!, só tá esperando uma oportunidade pra usar a peça dele. Vamo vazar daqui, vai ficar arrumando com esses maloca pra que?

Digo pegou seu celular, e foi nos contatos que havia copiado do chip de seu pai.

– Nem fudendo eu saio daqui – Não tinha arma, pois seu pai havia lhe dito que o deserdaria se soubesse que estava portando uma. Quase havia feito isso, quando Digo decidiu largar a faculdade de Economia.

Estava com um pouco de desespero, dividido entra um medo mórbido de ser assassinado a sangue frio, por causa de uma situação tão aleatória, mas também havia o orgulho lhe moendo a cabeça, fincando seus pés naquele posto de gasolina.

Chegou na letra B da lista de contatos, foi até B.P. Digo sempre quis ligar para aquele número, era um desejo que, às vezes, o fazia ter vontade de arrumar uma confusão nos lugares. Era algo um pouco mitológico, mas se lembrava de algo que aconteceu no inicio da sua adolescência.

Seu pai havia sido vitima de um sequestro relâmpago, e lembra-se de sua falecida mãe recebendo ordens para ligar naquele número, para “resolver o assunto”. Horas depois que ela havia ligado, seu pai foi libertado. Quando lhe perguntou a respeito, seu pai lhe disse que sua mãe tinha apenas ligado para a polícia.

O celular chamou algumas vezes, até que entrou em um menu. Uma voz masculina, com certeza artificial, começou a falar.

“Telefone de… Digo Pennidov”

“Transferindo para setor de familiares e terceiros.”

Esperou poucos segundos para ser atendido.

– Alô? – Uma voz feminina, um pouco rouca, atendeu a chamada. Digo ouviu uma barulheira de vozes abafadas.

– Oi… È que aconteceu um problema aqui… Eu sou filho do Yuri Penni…

– Senhor, eu sei disso, é por isso que você caiu comigo. Agora me diga qual é o problema.

– Eu estava na minha aqui, quando um cara veio se intrometer em uma coisa que aconteceu aqui – Albertino olhava sem entender nada, do pouco que ele conseguia – E agora ele querendo desarrumar comigo! E tenho quase certeza que ele está armado!
A linha ficou muda por uns segundos. Digo achou que a ligação havia caído.

– Entendi – A voz da mulher voltou repentinamente – O aconselhado é que o senhor saia do local e não retorne mais.

– Nem fudendo! – Gritou quase que automaticamente – Eu não fiz porra nenhuma de errado. Olha, eu sei que vocês resolvem problemas, então eu quero esse serviço feito, ou meu pai vai acabar com essa merda! – Estava blefando, pois não sabia qual serviço na verdade era feito.

– Ok… Dentro de dez minutos um representante chegara ao local, algo mais que eu posso ajudá-lo?

– Não, só isso, obriga…

O telefone desligou, antes de Digo conseguir terminar a palavra.

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Em nove minutos, contados por Albertino sem saber por que Digo havia pedido, um carro ficou estacionado na rua; era uma Van preta, do modelo mais recente. Uma mulher ,saiu dela, e começou a se aproximar do carro.Vestia uma camisa xadrez vermelha, calças e colete sociais cinza. Tinha os cabelos grandes e encaracolados e uma tatuagem do lado direito do rosto negro, que parecia que havia queimado em uma grelha de churrasco, pois eram riscos finos verticais e horizontais.

Ficou encarando os dois seriamente por um tempo.

– Então? – A mulher falou calmamente.

Digo olhou para Albertino, esquecendo-se de que ele não sabia de nada a respeito, e mesmo se tivesse contado algo, ele já poderia ter se esquecido devido a Transparência Mental, ou na visão de Digo, sua “Mongolisse”.

– Você veio aqui pra fazer o serviço? – Digo escaneou a mulher.

– Claro – Respondeu com o mesmo tom de voz.

Saiu do carro rapidamente, enquanto Albertino ainda olhava sem saber o que estava acontecendo. Digo ficou próximo à mulher, que se afastou um pouco, parando-o com as mãos finas – A essa distância eu consigo te escutar. Quem são as pessoas? E por favor, sem roteiro dramático.

– São aqueles ali, encostados. O baixinho é o cabeça, e o que deve estar armado.

A mulher esticou o pescoço, seus olhos castanhos eram tão calmos quanto sua voz.

– Não me acompanhe – seguiu em direção a Meióca e seus amigos.

Meióca, vendo a mulher se aproximando, começou a rir, chamando a atenção dos outros. O senhor de terno azul marinho, ainda sentando no mesmo local, viu a mulher e saiu correndo assustado. “é bicho papão, bicho papão!” Gritou algumas vezes até sumir virando à direita da Van preta, ainda estacionada na rua.

– Olha lá, ele chamou a namorada dele pra vir apaziguar a situação!

Foi indo em direção à mulher, esticando as mãos, como se esperasse para lhe apalpar.

Quando os dois se encontraram, do lado de duas bombas de gasolina, Meióca recebeu um soco na boca do estômago que o fez se encolher no chão, levando seu boné laranja a flutuar no ar brevemente. Seus amigos, que eram cinco, vieram acelerados na direção da moça.

O primeiro foi acertado na cara por um rodinho que estava em um balde em cima da bomba de gasolina. A mulher fez a ação tão rápida, que Digo só pode ver a linha de água azul seguir o objeto, até se explodir na cara do indivíduo, que caiu na hora.

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Os outros quatro se assustaram, e por um instante hesitaram. Vendo essa reação, a mulher pegou o balde em que estava o rodinho e jogou na direção deles, reativando a sua  investida.

Ela não saiu das duas bombas de gasolina, e quando os quatro vieram para cima, ela começou um espetáculo do qual Digo só havia visto em antigos filmes em AVI que achava perdidos em torrent.

Esquivava-se dos socos quase que arremessados daqueles brutamontes, e nisso percorria as bombas de gasolina. Acertou um soco na fuça que derrubou um deles, e enfiou a cabeça de outro no marcador de gasolina de uma das bombas.

Albertino filmava de dentro do carro com o seu celular, enquanto todas as outras pessoas olhavam estáticas, incluindo Digo. Percebeu que um homem passou do seu lado, enquanto a pancadaria rolava. Vestia-se do mesmo jeito que a mulher, mas era asiático, e tinha o cabelo branco e raspado de um lado da cabeça.

Enquanto a mulher enfiava um cabo de vassoura quebrado no estômago do homem que se levantou após o soco na boca, seu parceiro apenas bateu o olho e entrou na loja de conveniências do posto. Talvez Digo tenha sido o único que o percebeu.

Os homens insistiam em lutar, enquanto eram repetidamente derrubados pela mulher. Cabeçadas, pisões na perna, dedo no olho, todas as investidas eram respondidas com ações que foram diminuindo o número de atacantes contra a mulher. Pelo que Digo percebeu, ela havia só recebido um soco, que decidiu tomar, para desviar de uma cotovelada, a qual reagiu com uma cabeçada na cara do homem, depois de pegar impulso subindo nos ombros do rapaz.

Quando todos estavam no chão, ela levantou Meióca, que também ainda estava caído pelo soco no estômago e, encostando na bomba de gasolina, toda explodida de sangue, abriu sua pochete de plástico amarela. Tirou um revolver calibre 38 todo enferrujado.

– Não frequentem mais aqui, vamos estar de olho em vocês – A mulher disse, calma, mesmo que sua respiração fosse ofegante. Veio na direção de Digo, que ainda continuava parado. Antes de ela chegar, o homem asiático saiu da loja de conveniências. Pegou o celular de Albertino em um bote. E começou a ir conversar com todas as pessoas que estavam observando.

A mulher parou na sua frente. Tinha uma mancha escura do soco que tomou na bochecha, e estava um pouco descabelada. Tirou um papel do bolso e lhe entregou.

– Esse é o número de protocolo. Caso tenha alguma reclamação, ligue para este  numero e peça para falar com a supervisão. Boa noite!

Digo se virou, quando ela passou por ele, sendo logo acompanhada pelo seu parceiro asiático, que devolveu o celular para Albertino, com o vídeo que estava gravando apagado do aparelho.

Logo um camburão da Recon, a empresa de segurança privada que cuidava daquela região, chegou e começou a dispersar todo mundo.

Digo nunca mais viu Meióca e nenhum de seus amigos, e todos que estavam ali nunca mais falaram a respeito daquilo que aconteceu. Depois ouviu falar que havia sido assassinado, devido a dívidas com drogas.

Demorou alguns anos para Digo descobrir quem eram aquelas pessoas. Os Bicho Papões a serviços dos sócios mais altos da Repartição. Seu pai o reprimiu seriamente por usar os seus serviços, dizendo-lhe que eram apenas em “Casos de extrema emergência”. Digo nunca mais ligou para aquele numero, inclusive o apagou do celular.

Ficou muito tempo pensando, atormentado, se estivesse no lugar de Meióca, não pelos acontecimentos e atitudes, mas sim pela sua posição social. E se fosse Albertino ou qualquer outro amigo com menos condições. Poderiam ser apagados com o simples ligar do botão, que fora muito mais mortal que o revólver escondido de Meióca.

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