Darwin e a vespa que derruiu Deus

É possível que uma vespa tenha sido o gatilho para um pensamento que mudou a maneira da humanidade perceber seu lugar no mundo.

É notório, fascinante e irreversível o legado científico do naturalista britânico Charles Darwin (1809 – 1882). O darwinismo impactou a maneira do homem compreender sua existência e possibilitou caminhos seguros para Nietzsche aflorar o enunciado da morte do Criador, em suma, pelas suas quatro grandes consequências filosóficas [1], a saber:

  • Que as espécies não são eternas,
  • Que o homem, em todas as suas dimensões, existe na continuidade com todo o resto da Natureza
  • Que a finalidade na Natureza só depende de causas eficientes (não há causas finais)
  • Que da finalidade na Natureza não se segue a existência de Deus.

Todavia, este artigo não tem a pretensão de enveredar por tais correlações de construção de pensamento. Quer-se através deste apenas apresentar uma imagem ao leitor, um fato curioso e possivelmente determinante para a formulação das teorias históricas supracitadas: o estabelecido fato que culminou o rompimento de Darwin com a teoria criacionista.

darwin

Decepcionado pela falta de interesse de Darwin na continuação do ofício da família – a medicina – aos 18 anos é matriculado pelo pai em um curso de bacharelado em artes na Universidade de Cambridge, para que Darwin se tornasse um clérigo, podendo assim ter uma renda confortável e apreciar “as maravilhas da criação divina” – este viés naturalista que tanto agradava o jovem observador de besouros. Darwin ingressou no curso de história natural, se interessou pelas ideias de William Paley, em particular a noção do projeto divino da natureza, onde a complexidade e adaptações dos seres vivos eram a prova irrefutável da intervenção divina na criação do mundo. Bom aluno, foi recomendado para uma expedição de dois anos para mapear a costa da América do Sul a bordo do barco HMS Beagle.

Nesta viagem Darwin teve a oportunidade de observar características de organismos que conflitavam com a hipótese da criação por um artífice benevolente, onisciente e onipresente. Especialmente, a vespa parasita:

 

Larvas vespa parasita

 

As vespas parasitas depositam seus ovos em larvas, estas carregam os vermes sem percebê-los, pois eles são meticulosos e não comem nenhum órgão vital da larva. Quando os ovos eclodem, elas comem seu hospedeiro vivo, deixando o cérebro por último. Viva, mas controlada pelo seu hospedeiro, ela ainda é forçada a defender o ninho dos parasitas ininterruptamente, deixando assim de se alimentar, e, finalmente, morrendo.

Darwin conclui que se um artífice inteligente construiu tanto sofrimento no mundo dos seres vivos, esse artífice não merece nossa referência[2]. Talvez seu próprio pensamento havia sido invadido pela larva desta vespa, que, ao eclodir, lançou voo a uma ideia natural, repleta de força na dor da existência. O mundo não era mais um lugar perfeito, prova da criação divina proposta por Paley. A base do sentimento moral e religioso que havia dentro de si no convívio familiar, até mesmo acadêmico, já não poderia ser muito mais que a carcaça abandonada do hospedeiro que precisou morrer para permitir que outro pensamento se projetasse à vida.

Darwin se concebe agnóstico. Percebe novas forças que geram a criação e adaptação da vida. O mundo de Darwin agora é um lugar saturado de dor e morte, que somente poderia ser aceito através de explicações evolucionistas sem critérios morais, forças que geram a criação e adaptação à vida, justificadas sumamente na sobrevivência e reprodução. A vespa derrui a ideia de Deus, Darwin recria a origem do homem.

Referências

[1] CONSTÂNCIO, João. Darwin, Nietzsche e as consequências do darwinismo. Cadernos Nietzsche, n. 26, 2010.

[2] SOBER, Elliot. Filosofia da biologia IN: Compêndio de Filosofia. 2ª edição, São Paulo: Edições Loyola, 2007, p.353-355.

2 Comments

  1. Sinceramente, quando ouvi isso pela primeira vez, pensei que fosse uma piada de mal gosto. Mesmo quando criança eu sabia que animais sofriam na natureza e que muitos usavam artifícios “imorais” para sobreviver. A “Natureza é terrível” dizia.
    Agora como um homem que já havia estudado por anos “zoologia “observando insetos poderia não saber disso? Ele poderia não ter visto nada parecido com essa prática, mas certamente viu inúmeras outras formas dolorosas e terríveis que animais, principalmente insetos, usam para sobreviver.
    Realmente estou surpreendido por Darwin ser tão superficial e sentimental.

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