Coisas perdidas no fogo

Existem pessoas que saem de um incêndio e apenas tiram as cinzas da roupa, já outras... Clique e leia!

Da série Contos de uma São Paulo Privada.

Lago do Jardim da Luz

Aposentado aos 36 anos por problemas psicológicos, Zeraldo era como um boneco de retalhos muito bem reparado. A comparação não se aplicava ao monstro de Frankenstein, primeiro porque ele ainda tinha consciência, e apesar das várias partes diferentes, nenhuma havia pertencido a outras pessoas e segundo era pelo fato de ninguém naquela época saber quem era o personagem literário, desaparecido pela falta de relançamentos da obra, mesmo em domínio publico e seu sumiço da internet.

Apesar de extremamente difícil, até para uma pessoa de 75 anos, que estava no direito de se aposentar, seu histórico de danos assustava qualquer representante do seguro social, física e mentalmente. Algumas semanas depois que acordou do coma, teve crises de estresses tão graves que o fizeram ter um esgotamento nervoso, deixando sequelas severas em sua vida.

Quando deu entrada na aposentadoria, não precisou realizar nenhuma encenação ou algo do tipo, era tudo verdade, além do que era possível visualizar.

Já teve seus tendões da perna direita reconstruídos com base em células retiradas de seu esfíncter, após bater o carro durante uma pericia em seu penúltimo emprego, de motorista de caminhonete.

Dali também se originou os organismos de suas futuras próteses biológicas, as fibras que faziam as conexões com as musculaturas originais.

O fato lhe fez entrar em um coma profundo foi quando tentou apagar um incêndio na obra que trabalhava, e além das queimaduras severas, um escombro caiu e lhe arrancou o pedaço da face. Foram então quatro dedos da mão direita (menos o dedão), todo o braço esquerdo, a perna direita e um pedaço da bacia que precisou ser refeito.

A empresa de seguro não cobriu a perda do lado esquerdo do crânio, pois, Zeraldo sozinho já estava causando um prejuízo absurdo, mas seus colegas de trabalho fizeram um rateio e lhe compraram uma prótese de platina. Esperaram as previsões do médico do seguro, e depois que ele deu certeza da sobrevivência de Zeraldo, confirmaram o pagamento. Mas não sobrou dinheiro nem para um olho de mentira.

Seu corpo ainda em coma induzido, e com os novos membros frescos, foi transferido para uma pequena clinica no largo da batata, que fazia esse tipo de serviço.

Como havia tantas novas técnicas de reposição para membros perdidos, alguns outros tipo de operação antes muito caros, se tornaram mais acessíveis as pessoas, o que também contribuiu um pouco para a sua qualidade.

digitalizar0042A platina foi revestida com uma camada grossa de pele artificial. Depois de alguns meses, devido a falta de hidratação, ela começou a descascar, fazendo mini cratera encardidas, das quais Zeraldo começou a ter uma mania horrível de arrancar pequenos pedaços secos e colocar na boca, sentindo um gosto salgado.

Os remédios para a assimilação dos novos membros não foi um problema para ele, ainda mais porque conseguia caminhar sem dificuldade. Não sentiu vontade de se isolar, o que acontecia com a maioria que tomava esse tipo de medicamento, gostava de ir toda a tarde ao parque da luz, com o seu cachorro vira lata malhado, chamado de Prestigio.

Mas se sentia com a cabeça chacoalhada, não ao ponto de agonia, mas tinha algo desregulado, que não fazia ter vontade de fazer nada, mesmo com alguns meses de aposentadoria acumulado.

Clima recheado de ar quente

Zeraldo ficava toda a manhã e um pedaço da tarde, caminhando no parque.

Sua namorada, Ferna, que morava junto com ele, não entendia esse comportamento, assim como quando o pegava comendo os pedaçinhos de pele artificial escondido. Perguntando pela primeira vez sobre os passeios, ele apenas respondera “porque estou com tédio”. Como trabalhava durante toda a tarde, a percepção de tamanha estranheza desse comportamento demorou um pouco mais para acontecer, a questão de comer a pele era pior e mais nojenta, só que essa ele havia prometido parar.

Zerado deixava o celular desligado em cima da geladeira, e ele, antes desse ultimo acidente, vivia usando, até burlava as lei anti aparelhos em determinados locais, o que pode ter feito que conseguisse alguns dos ferimentos.

Sempre tentava lhe tirar alguma coisa, mas as respostas tinham significados similares. Um dia, Zeraldo lhe disse algo intrigante “Desde que perdi a perda, sinto vontade de ficar na rua. E como não sinto muito bem essa nova perda, acho que tenho de exercita-la”, “Perda?” ela questionou “Você quer dizer a perna?”, “E que diferença faz? Eu a perdi mesmo!” lhe retrucou.

Quando estava no parque, passeando com Prestigio, observava as formas que faziam os galhos caídos pela trilha. Tirando as incursões semanais para a retirada dos moradores de ruas, o local não recebia muitos cuidados, mas nem por isso perdia a sua beleza. Só que as pessoas na maioria apenas passavam ali sem olharem para os lados, assustadas ou arrependidas de estarem transitando no parque.

Quando avistavam Zeraldo no seu caminho, migravam o mais longe possível de sua figura. Não era por causa de Prestigio, que sempre andava cabisbaixo por causa dos trancos de sua coleira sem fio, que causava choques se saísse perto do dono.

Era uma espécie de clima tenso que rodeava aquele homem, como se fosse por dentro, soltando sinais que os outros captavam.

Esse roteador de mal estar criava algo parecido como se Zeraldo estivesse com um péssimo cheiro, um perímetro que faziam todos desviarem, fazendo o oposto de Prestigio, andando por onde o cachorro não podia.

Começava a sentir uma câimbra em sua prótese, parecida com a “perda” de verdade, e ai se sentava no primeiro banco, em frente da estação de trem. Ali se instalava por um tempo, rosnando sozinho, pensava no que perdeu em ocasião ao seu esforço. Todo o dia chegava a mesma conclusão, que durante os passeios se esquecia, remetendo ao fio da conclusão quando via a entrada da estação da Luz, lotada de desajustados, esquecidos, fugidos e pensadores do acaso como Zeraldo.

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Admitia a si mesmo que era um oceano de problemas psicológicos. Cada uma de suas novas partes não conheceram a vida sã e mente tranquila que tinha antes , que apesar do batente pesado, nunca havia perdido o ponteiro do certo.

Mas tinha a convicção de que estava apenas a poucos centímetros do desequilíbrio, e que era possível voltar ao Zeraldo de antes. Só que, há quanto tempo iria esperar? Era possível que o tédio e a falta de atenção nunca mais fossem embora, e toda a pessoa que era, as viagens, planos, compras ficariam tão distantes que se transformariam em apenas uma vista longínqua.

Nesse ponto, a falta de uma solução o fazia voltar a caminhar, caindo no mesmo esquema de todos os dias. Coçava a pele artificial até sair um pedaço bem servido, que iria dissolver salgado na boca.

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