Um conceito em gestação: ideologia – Karl Marx

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Karl Marx (1818-1883)

Antes de trazer a contribuição teórica de Karl Marx para o estudo do conhecimento humano, é preciso fazer um rápido apanhado histórico[1] sobre como tais ideias vieram à baila ao longo dos primeiros anos de 1840. A intenção aqui é trazer alguns elementos que foram importantes na determinação de rumo que a vida de Marx tomou e mostrar como isso foi fundamental para o surgimento de um conceito: o de ideologia no livro de 1846, A ideologia alemã.

Karl Marx não foi o primeiro teórico a estabelecer uma conexão entre conhecimento e contexto social, mas sua análise foi uma das que mais influência teve no campo da Sociologia do Conhecimento. É difícil estabelecer quando o autor inaugura este modo de ver a relação entre pensamento e realidade. Uma pista nos é dada pelo famoso prefácio do livro Para a crítica da economia política, de 1859.

Nos anos de 1842/43, como redator da Gazeta Renana (Rheinische Zeitung) vi-me pela primeira vez em apuros por ter que tomar parte na discussão sobre os chamados interesses materiais. As deliberações do Parlamento renano sobre o roubo de madeira e parcelamento da propriedade fundiária, a polêmica oficial que o Sr. Von Schaper, então governador da província renana, abriu com a Gazeta Renana sobre a situação dos camponeses do vale do Mosela, e finalmente os debates sobre o livre-comércio e proteção aduaneira, deram-me os primeiros motivos para ocupar-me de questões econômicas[2].

O jornalismo foi o caminho encontrado por Marx depois de encerrar sua formação acadêmica com o doutorado em filosofia[3]. Na realidade, o autor procurava outros postos, como o de professor universitário. No entanto, uma campanha contra Bruno Bauer, seu então amigo e companheiro de estudos teóricos, professor em Bonn, feita pelo ministro prussiano da educação, acabou incriminando por associação Marx. Com essa medida, seus anseios no meio acadêmico foram radicalmente diminuídos.

O contexto histórico que emergiu em 1840 na Prússia não foi favorável ao jovem estudante de filosofia. Frederico Guilherme IV subiu ao trono e nele a burguesia ascendente depositou esperanças de que um caminho com reformas democráticas seria traçado em seu reinado. Entretanto, seus acenos foram meramente simbólicos. Logo o Estado retomou o vigor centralizador e autoritário que tentaria silenciar toda uma geração de intelectuais, profissionais liberais, comerciantes e industriais que se influenciaram com os ideais da Revolução Francesa.

A região em que Marx viveu a juventude é conhecida de modo geral como Renânia. Banhada pelo rio Reno e pelo Mosela, fica a oeste da Alemanha e foi muito influenciada pela França. Como resultado do apogeu napoleônico, partes da região foram território francês, inclusive a cidade em que o filósofo nasceu, Trier[4]. Marx tinha pleno domínio sobre o idioma de Balzac, o que o fará traduzir e revisar pessoalmente seus próprios trabalhos ao longo da vida. Outro dado interessante sobre a terra em que Marx nasceu: na primeira metade do século 19, a Renânia também era a região mais industrializada da Prússia.

Em Colônia situava-se a Gazeta Renana, um periódico financiado por comerciantes e industriais que se posicionava em favor dos ideais liberais e burgueses da livre associação, dos direitos individuais e da liberdade de imprensa. Marx é levado a trabalhar lá por um amigo dos tempos de universidade, Georg Jung. Muitos dos temas abordados pelo jornal eram proibidos pela forte censura prussiana, tendo os autores que se utilizar de subterfúgios para verem publicadas suas ideias.

Por pressão de investidores que temiam que o veículo se tornasse um meio de propagação de ideias radicais e de discussões filosóficas que já eram comuns em clubes de Berlim, os correspondentes e colaboradores são forçados a produzir conteúdo voltado para as questões práticas. É nesse momento que Marx passa a editar e dirigir o jornal. Por meio dele, a Gazeta Renana torna-se a voz liberal da Prússia. Nada é publicado sem sua aprovação.

Então, voltando ao relato destacado por Marx no prefácio de 1859 e aos “interesses materiais” que o atraíram para a discussão sobre as questões econômicas, destacamos dois dos temas ditos pelo autor: o problema da coleta de madeira e o drama dos pequenos produtores de vinho da região do Mosela.

No primeiro, Marx toma contato com a mudança na forma como o governo via a coleta de madeira derrubada em florestas. Tradicionalmente, esse tipo de prática era permitido, especialmente para os camponeses pobres que se utilizavam da matéria para se aquecerem. Com o incremento das indústrias, essa madeira passou a ser vista como um recurso para movimentar o maquinário. Como os nobres eram os grandes proprietários de terra, o governo logo tomou partido em seu favor e declarou crime a retirada de lenha sem autorização. Marx em seu artigo faz toda uma análise que incluiu dados sobre a explosão demográfica e o aumento da pobreza para demonstrar como essa lei trazia uma epidemia de processos para o governo e ele a faz usando a mesma linguagem jurídica que a legitimava.

Em defesa da população pobre, proibida de recolher a lenha seca caída das árvores, Marx argumenta contra o rebaixamento da universalidade do Estado e do direito à particularidade da propriedade privada. Em vez de degradar-se ao nível dos interesses privados, o Estado deve submeter esses interesses ao interesse comum, ou seja, ao próprio Estado. Marx afirma, então, o direito consuetudinário da classe pobre, cujos costumes enraízam-se na universalidade da natureza humana, contra o pretenso direito consuetudinário dos ricos, calcado na propriedade privada. Com a lei punitiva do roubo de lenha, o Estado submete a universalidade do direito ao “mero costume” da sociedade burguesa, quando deveria, ao contrário, reconhecer no “costume da classe pobre” o “instintivo sentido de direito” que, na forma do direito consuetudinário, elevaria esta classe à efetiva participação no Estado. A pobreza aparece como um problema de ordem política – a exclusão de uma classe em relação à articulação consciente do Estado –, a exigir uma solução igualmente política – o reconhecimento jurídico, pelo Estado, da positividade e da legitimidade dos costumes dos pobres[5].

Sobre os produtores de vinho do Mosela, Marx analisou como a pobreza dos pequenos advinha do resultado das taxas e do livre comércio entre os estados alemães. O autor notou que os ganhos que faziam expandir os mercados eram “à custa do pequeno proprietário e do produtor local, que não tinha meios de competir num mercado maior dominado por produtores de grande escala”[6]. As posições expressas na Gazeta foram se tornando cada vez mais radicais, irritando os governos da Renânia e de Berlim, que moveram todos os esforços para fechá-la. Nesse ínterim, a tiragem também aumentou de modo considerável, o que criou ainda mais problemas. Marx pede demissão, na intenção de salvar o jornal, mas não teve jeito. Dias depois, a Gazeta Renana deixou de circular.

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Georg W. F. Hegel (1770-1831)

Marx se viu em apuros nesses artigos, como ele mesmo relatou, porque percebeu que a teoria idealista hegeliana e a sua concepção positiva da política não davam conta dos problemas reais da sociedade. Esse referencial teórico não serviu para aquela determinada situação. Marx notou, então, que o aperfeiçoamento do Estado em direção a um Estado racional não equacionava e de nada explicava essas contradições no âmbito da sociedade civil e da emancipação humana.

Sobre a forma como Marx discutiu a questão da retirada de madeira, Rubens Enderle explicita o que ainda limitava a argumentação do autor e o fazia ficar preso ao arcabouço teórico hegeliano, mesmo que tentando por momentos se afastar dele:

a argumentação marxiana, mesmo que engenhosa, mostrava-se mais como uma “acomodação” do que como uma resolução efetiva para a contradição entre Estado e sociedade civil. Ao mesmo tempo em que se distanciava do pensamento hegeliano pela afirmação do direito da classe pobre contra o privilégio da propriedade privada feudal, Marx acabava por reproduzir, com todas as suas consequências, o pressuposto da supremacia ontológica do Estado em relação à sociedade civil, pressuposto este que acompanhou todo o pensamento político ocidental até alcançar, na filosofia hegeliana, sua forma acabada[7].

Após o casamento com Jenny, em 1843, Marx inicia, então, uma dura revisão crítica sobre todos os seus referenciais, sobre suas bases filosóficas e sobre sua visão de mundo política e material. Nesse momento, o autor dá início a um projeto que ele mesmo concebeu como “uma crítica impiedosa a tudo o que existe”. Hegel é o primeiro autor que Marx retoma. Esse é o ponto de partida de um acerto de contas com a filosofia que fará com que Marx, e Friedrich Engels junto dele, edifique, ao longo de décadas, sua teoria e sua crítica ao sistema capitalista.

Voltando ao prefácio de 1859, Marx continua seu relato:

O primeiro trabalho que empreendi para resolver a dúvida que me assediava foi uma revisão crítica da filosofia do direito de Hegel, trabalho este cuja introdução apareceu nos Anais Franco-Alemães (Deutsch-Französische Jahrbücher), editados em Paris em 1844. Minha investigação desembocou no seguinte resultado: relações jurídicas, tais como formas de Estado, não podem ser compreendidas nem a partir de si mesmas, nem a partir do assim chamado desenvolvimento geral do espírito humano, mas, pelo contrário, elas se enraízam nas relações materiais de vida, cuja totalidade foi resumida por Hegel sobe o nome de “sociedade civil” (bürgerliche Gesellschaft), seguindo os ingleses e franceses do século XVIII; mas que a anatomia da sociedade burguesa (bürgerliche Gesellschaft) deve ser procurada na Economia Política[8].

Com a Crítica à filosofia do direito de Hegel (introdução) de 1844, citada no relato acima, estava dado o primeiro passo que faria Marx se aproximar da crítica ao sistema capitalista. O conceito de ideologia ainda não está aqui enunciado, mas sua noção de “inversão” do verdadeiro caráter das coisas já se faz sentir na crítica à concepção hegeliana de Estado. Esse processo, explicado de modo geral, pode ser entendido da seguinte maneira: não era o Estado a base da “sociedade civil”, mas a sociedade civil que era a base do Estado.

Referências

[1] Alguns dados históricos e contextuais da vida de Marx são apresentados com base da obra: Amor e Capital da escritora Mary Gabriel.

[2] MARX, Karl. Para a crítica a economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1982, p. 24. (Os economistas)

[3] Pelo temor que o autor tinha com relação ao reacionarismo que crescia na Universidade e Berlim, onde estudava, submeteu a tese à Universidade de Jena e doutorou-se em 1841.

[4] Até três anos antes de Marx nascer Trier era território francês.

[5] ENDERLE, Rubens. Apresentação.  In: MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel – 1843. São Paulo: Boitempo, 2010. p.15.

[6] GABRIEL, Mary. Amor e Capital. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. p.68.

[7] ENDERLE, Rubens. Apresentação. In: MARX, Karl. Crítica a filosofia do direito de Hegel – 1843. São Paulo: Boitempo, 2010. p.16.

[8] MARX, Karl. Para a crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1982, p. 24-25. (Os economistas)

One Comment

  1. Essas contidas nesse prefácio ajustam-se a crítica da ideologia hoje,de onde conclui Marx que o Estado se constitui da sociedade civil,que é uma categoria burguesa.

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