Filosofia Juche sob a ótica de Arendt e Marcuse

Por Vinícius Mendes em colaboração ao Colunas Tortas.

A ideia Juche

Retrato de Kim Jong-Il.

Publicado em 1982 pelo ainda deputado da Suprema Assembleia do Povo da Coreia do Norte, Kim Jong-Il, filho mais velho de Kim Il-Sung, que havia assumido o posto de premiê norte-coreano em dezembro de 1948 por decisão da União Soviética e se tornado presidente em 1972, após uma mudança constitucional, Sobre la ideia Zuche[1] é um dos poucos livros difundidos no Ocidente sobre a orientação ideológica do país asiático. Foi escrito em formato de tratado e lido pelo autor durante as comemorações do aniversário de 70 anos de seu pai, na capital Pyongyang, mesma ocasião em que foi organizado um grande seminário para debater a filosofia do regime.

A ideologia Juche – palavra que significa algo como “senhor de si mesmo” – apareceu pela primeira vez em um discurso de Kim Il-Sung em dezembro de 1955 como crítica ao “dogmatismo” e ao “formalismo”, para os quais a postura “juche” seria a solução. Em 1962, com o distanciamento entre os dois principais países comunistas do mundo, a União Soviética e a China, porém, ela se tornou orientação política como defesa da independência norte-coreana, orientação para o desenvolvimento econômico e estratégia de relações com os demais estados do mundo[2].

A primeira obra escrita sobre a filosofia Juche foi publicada em maio de 1953, no período final do conflito bélico na península coreana, chamada Kim Il-Sung Seonjip, que reunia alguns textos filosóficos e discursos do governante desde o período da Segunda Guerra Mundial. Ela foi reeditada durante os anos que antecederam a publicação do segundo livro, batizado de Kim Il-Sung Jeojakseonjip. Segundo Kang[3], os textos sofreram constantes revisões ao longo do tempo, quando alguns trechos foram apagados e outros acrescidos. Para ele, as alterações são parte importante dos estudos sobre as inconstâncias nas percepções de Kim Il-Sung durante o período em que governou o país.

O conteúdo da ideologia Juche produziu diversos debates entre os observadores estrangeiros do regime norte-coreano, a maioria deles promovendo exercícios de interpretação da interpretação do marxismo-leninismo de Kim Il-Sung e buscando respostas sobre o regime do país no modelo soviético – notadamente no período de Stálin – de Estado.

Myers[4] por exemplo, argumenta que a filosofia não tem inspiração soviética, porque orientou a Coreia do Norte para uma espécie própria de nacionalismo, que não pode sequer ser assim considerada no sentido strictu do conceito: o regime se tornou, em verdade, uma espécie de culto a Kim Il-Sung em um contexto violentado por duas guerras das quais o país saiu fracassado. Com isso, se distanciou do programa internacional socialista. Diz ele que

At party congresses throughout the 1950s, at which foreign dignitaries were often present, Kim professed allegiance to marxism-leninism, but under his rule it was reduced to a pro forma shell of an orthodoxy. […] Although Kim had no intention of showing the nation’s true colors to its allies, he grew unwilling to tolerate even the nominal supremacy of a foreign ideology. The late 1960s thus saw a shift from marxism-leninism to a new pro forma orthodoxy called ‘Juche Thought’ (MYERS, 2006, p. 90 e 91, grifos meus)

Assim, para Myers, a ideologia Juche seria resultado do distanciamento do primeiro governante da Coreia do Norte pós-guerra ao marxismo-leninismo do programa internacional, principalmente da União Soviética, da qual era satélite. O regime se voltou completamente para ele, como líder, com a criação do programa Juche. Então, não pode ser considerado um “nacionalismo” e muito menos uma cópia da URSS.

A crítica mais contundente a essa argumentação é de West[5], que se vale de um vasto arcabouço de autores estrangeiros para afirmar que, ao contrário do defendido por Myers, o regime norte-coreano foi influenciado pela União Soviética não apenas em relação ao modelo de Estado, mas também cultural e ideologicamente durante o período stalinista, nos anos 1950. Essa inspiração seria notada no discurso de Kim Il-Sung em dezembro de 1955, quando o termo “juche” foi utilizado pela primeira vez. Assim,

By the 1940s, the Soviet regime had degenerated into a totalitarian monstrosity, a Bonapartist police state ruled by the all-powerful Stalin, a despot wielding unlimited power and rendered in the official propaganda as the beloved, sagacious, and wise ‘father’ and ‘friend’ of the soviet people, the leader of their great ‘socialist motherland’ and the head of the ‘monolithic party’. The emergence of the Kim Il-Sung personality cult in North Korea would employ the same patricentric discourse and comparable iconography, even if expressed in indigenous symbolic form (WEST, 2007, p. 134)

Um trabalho mais completo permitiria o estudo do conteúdo programático do marxismo-leninismo, bem como a análise de sua aplicação nos Estados soviético e norte-coreano, mas por agora basta a conclusão de que a ideologia Juche, objeto principal deste texto, teve origem, de alguma forma, no modelo da URSS, tendo degenerado em uma “criativa aplicação às condições nacionais” (MYERS, 2006) ou permanecido idêntica à de Stálin, cuja influência seria decisiva na própria fundação da República Popular da Coreia do Norte (WEST, 2007).

Enfim, o próprio Kim Jong-Il confirma esta ideia em Sobre la ideia Zuche (edição em espanhol distribuída pelo governo norte-coreano) onde diz que

“…en la temprana época de sus actividades revolucionarias iniciales el Líder se versó en el marxismo-leninismo. Pero, en favor de la revolución coreana, no se limito a aplicarlo, sino que, adoptando una firme posición zucheana, abrió nuevos campos de la teoria revolucionaria y encontro soluciones originales a los problemas que surgían en la practica revolucionaria” (JONG-IL, 1982, p. 7)

A ideologia como elemento totalitário

Um dos poucos consensos entre os estudiosos que se debruçaram sobre o conceito de totalitarismo é que esse modelo de Estado deve possuir uma “ideologia”. Stoppino[6], em seu verbete publicado no Dicionário de Política, de Norberto Bobbio, afirma que os dois principais autores sobre regimes totalitários – Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, de 1951, e Carl Friedrich e Zbigniew Brzezinski, em Ditadura totalitária e autocracia, de 1956 – colocaram a orientação ideológica como decisiva para o estabelecimento de um governo nesses moldes, como tinham sido a Alemanha nazista e a Itália fascista.

Arendt defendia que o totalitarismo era uma forma nova de domínio porque invadia não apenas a vida pública do indivíduo, como faziam as antigas ditaduras, mas também atingia o espaço privado dele, “tornando-o estranho assim ao mundo e privando-o até do seu próprio eu” (STOPPINO, 1992, p. 1248). Assim, o objetivo de um regime totalitário era modificar a natureza humana, em que os homens deixavam de ser sujeitos ativos para se tornarem apenas objetos de reação. Para isso, o Estado mobilizava dois elementos: a ideologia e o terror.

A ideologia totalitária se propunha a contar o curso total da história por um ponto específico, se destacando da verificação dos fatos e se debruçando sobre a atividade de contar um mundo fictício em que suas ações tivessem sentido. Para Stoppino, era uma lógica de coação, em que os indivíduos não tinham escolha senão aceitá-la e em que todo contato com o mundo real se perdia.

Na organização do regime, o distribuidor da ideologia era o partido único, formado por uma elite intelectual que cultivava uma crença em seu conteúdo e que a propagaria de forma que todos os tipos de grupos e instituições sociais fossem abarcados na mesma direção[7]. A ideologia, enfim, politizava até as áreas mais remotas da política, como os esportes e as atividades livres, além de mover uma sociedade vigiada não apenas pela polícia secreta, mas pelos próprios cidadãos entre si. Apesar disso, a estrutura administrativa era confusa entre o partido e a polícia, o que não evidenciava uma ausência estrutural, mas uma dificuldade em visualizá-la.

Apesar dessa estrutura, o totalitarismo tinha um líder cuja vontade flutuava sobre o partido e, enfim, sobre a sociedade. Era, aliás, por isso que havia uma confusão hierárquica: o chefe era o centro da ideologia e, portanto, apenas ele podia mudá-la. Tendo isso claro, Arendt acreditava que os regimes totalitários tinham fortes aspectos personalistas de poder, em que sempre um único homem estava no controle da ideologia, do partido e da polícia secreta. O líder, porém, não era a exclusividade do totalitarismo.

Já para Carl Friedrich e Zbigniew Brzezinski[8], a ideologia era um dos seis elementos que caracterizavam um regime totalitário. Seu papel era abranger toda a existência humana, na qual a principal ideia é que havia um estado final da humanidade que deveria ser conquistado. A ideologia, para os autores,

…encerra fortes elementos utópicos, uma vaga noção de um paraíso terrestre. Essa perspectiva utópica e carismática das ideologias totalitárias lhes empresta um cunho pseudoreligioso. De fato, elas provocam em seus seguidores menos críticos uma profundidade de convicção e um fervor devocional geralmente só encontradas entre pessoas movidas por uma fé transcendental. […] Ela substitui a fé pela razão, a exortação mágica pelo conhecimento científico (FRIEDRICH, BRZEZINSKI, 1965, p. 19, grifos meus)

Enfim, até mesmo a concepção marxista de totalitarismo compreendeu a importância de uma ideologia de Estado como elemento de dominação. Marcuse[9], por exemplo, encontrou no “realismo heroico-popular” uma espécie de orientação ideológica dos regimes totalitários, como o nazismo havia feito. Sua conceituação se assemelha à de Arendt, ainda que os dois autores estivessem em dimensões distintas – ela conservadora e ele marxista.

A apresentação heroica do homem, com adeptos nas ciências do espírito, na economia política e na filosofia, encontrou uma nova ideia do ser humano. Para se chegar até ela, houve uma luta contra a racionalização burguesa para tornar o homem um ser reativo apenas ao espírito que, no caso dos Estados totalitários, respondia a uma ideologia superior. O homem heroico de Marcuse “nada teme, […] não discute nem sua ‘convocação’ e ‘ação’ nem seu sacrifício, não para um fim qualquer, mas humildemente obediente em relação às forças obscuras donde emanam sua vida” (MARCUSE, 1997, p. 48). Ou seja, era um homem que também estava preparado em certo aspecto de violência para responder por seu Estado e por seu líder, um governante carismático que fosse a prova real da existência do “espírito”.

A fundamentação filosófica desse homem era aquela em que justamente não havia fundamentação, justificativa nem finalidade para a vida, isto é, um desprendimento da racionalização da existência oriunda de determinados interesses dominantes e a atribuição de uma outra vida, na qual as forças eram “invioláveis”, que Marcuse chama de “naturalismo irracionalista”.

Tendo mais claro o trabalho de conceituação de alguns estudiosos do totalitarismo, o contexto histórico da Coreia do Norte quando da construção da ideologia Juche e o presente debate intelectual internacional sobre as origens e aspectos da ideologia Juche, podemos partir para o objetivo principal deste trabalho: a análise da filosofia norte-coreana como elemento de um Estado totalitário.

A ideologia Juche na ótica dos estudiosos do totalitarismo

No discurso lido em 1982 e presente nos primeiros parágrafos de Sobre la ideia Zuche, Kim Jong-Il afirmava que o Estado norte-coreano estava empenhado em transformar toda a sociedade segundo a ideologia Juche. Como “obra histórica”, só poderia ser realizada se “la totalidad de los miembros del Partido y otros trabajadores compreendam a fondo la verdad de esta idea y piensen y actúen consecuentemente conforme a sus requerimentos” (JONG-IL, 1982, p. 1 e 2). Ainda segundo ele, um indivíduo só poderia alcançar o triunfo da revolução quando estivesse firmemente dotado da ideia Juche.

A ideologia criada por Kim Il-Sung, segundo Kim Jong-Il, era a terceira etapa do pensamento iniciado pelos alemães Karl Marx e Friedrich Engels e traduzido para as novas condições históricas por Vladimir Lênin, cuja aplicação havia permitido a revolução comunista na Rússia. Se os primeiros autores tinham mostrado o caminho da emancipação da classe trabalhadora no século XIX e o líder russo a conduziu durante a etapa imperialista do capitalismo, no início do século XX, a ideologia Juche só era possível em um momento em que as “massas populares” já eram “donas do próprio destino”. Assim, era pertinente uma filosofia que colocasse no indivíduo o motor da história, isto é, em que cada um, em sua individualidade, fosse parte determinante das leis históricas e do consequente triunfo da revolução. Segundo Jong-Il:

La idea Zuche se asienta sobre el principio filosófico de que el hombre es dueño de todo y lo decide todo. […] Que el hombre es dueño de todo significa que es dueño del mundo y de su próprio destino, y que él lo decide todo quiere decir que desempeña el papel decisivo en la transformación del mundo y en la fragua de su próprio destino (JONG-IL, 1982, p. 9)

El punto de vista y la posición del Zuche com respecto al mundo son genuinamente revolucionarios porque permitem al hombre transformar el mundo y forjar su próprio destino de manera independiente, creadora y consciente, con elevada consciencia de ser dueño del uno y el otro (JONG-IL, 1982, p. 14)

O homem, na filosofia Juche, possui um “espírito criador” e uma “consciência”, sendo uma “criação especial da evolução do mundo material” e um “ente singular” em relação à natureza. Enfim, o homem é, para Kim Il-Sung, um ser social com zazusong, ou seja, com “independência”. Sendo esta sua condição, o sujeito só pode manter sua existência por meio das relações sociais, onde encontra a possibilidade de alcançar seus objetivos.

A ênfase no aspecto individual, na ideologia Juche, também permite um amplo debate sobre os seus objetivos, já que, como veremos, apesar de incentivar a agência humana de cada sujeito, procura construir um “todo”. Assim, sua missão enquanto filosofia é fazer com que cada homem, em sua individualidade, decida pelo “todo”, transformando-se em parte integrante do instrumento necessário para a revolução. Diz Ford[10] que

“The North Korean emphasis on the collective effort of the masses results in a de-emphasis of the individual.  Despite the statement that ‘Jucheism regards man as an individual being…”, the overall emphasis is on the masses and the people working together as a collective unit (FORD, 2001, p. 359)

Essa incoerência também é encontrada quando Ford mostra que

…the Juche notions of the ‘suryong’ [líder], party, and mass line all result in a collective and mass mentality that does not allow for individual thinking or  action. Despite the Juche concepts of self-reliance and self-determination, they are not applied at the individual level but only at the state level which is viewed as an organism (FORD, 2001, p. 359)

Sendo um espírito criador, o ser humano pode transformar o mundo a partir de objetivos definidos. Para a filosofia Juche, essa condição permite que o homem faça coisas úteis para a natureza e para a sociedade em que está inserido e onde ele existe em plenitude. Logo, ela também dá ao indivíduo uma “postura revolucionária”, ou seja, uma atitude de transformação do mundo em contraponto a uma falta de iniciativa “fatalista”. Assim, “la ideia Zuche se trata del punto de vista y la actitud de considerar el universo tomando al hombre, su dueño, como centro” (JONG-IL, 1982, p. 13).

Como é dotado de consciência, sua propriedade suprema, o homem necessita refletir sobre as exigências e os interesses sociais de forma independente. Isso só é possível quando ele entende que é dono de si mesmo e que possui a força de transformar o mundo – bem como o meio ao seu redor – momento em que adquire “consciência ideológica”.

A filosofia Juche, portanto, desempenha-se na ideia de que o homem, dotado de independência e de consciência de sua ação na história, está pronto para modificar a sua existência. Nesse sentido, as ideias jucheanas permitem um primeiro confronto com a argumentação de Arendt. Para ela, a aplicação das leis da história no totalitarismo desconhece a conduta humana, isto é, a agência. A política totalitária transforma a espécie humana em portadora de uma lei que só pode ser aceita por meio da submissão.

Sob o ponto de vista de Arendt, a ideologia Juche promove uma discussão importante: ao mesmo tempo em que coloca um “espírito criador” no homem, a agência, também estabelece “objetivos definidos” para suas ações. A própria existência da ideologia enquanto pensamento que precisa abarcar a totalidade da sociedade é uma coerção ao livre-pensamento que poderia, no limite, criar filosofias alternativas a ela. A “consciência ideológica” do sujeito, no programa norte-coreano, seria a expressão de sua liberdade de refletir sobre o mundo e agir a partir dele – a agência que Arendt nega. No ponto de vista da autora, a ideologia única já seria a expressão da submissão dos indivíduos a uma lei criada por uma instância externa e compreendida como total.

Ainda assim, a argumentação de Arendt vai de encontro ao prescrito em Sobre la ideia Zuche quando ela diz que o totalitarismo não pode incentivar um princípio de ação nos homens, porque seu objetivo é justamente imobilizá-lo[11]. Como já ficou provado, apesar de um programa coercitivo enquanto único e disfarçado sobre uma retórica de liberdade, a ideologia Juche incentiva a agência humana como motor da história. A questão da liberdade de ação em Arendt encontra um paradoxo no texto de Kim Jong-Il.

Ford[12] colabora com este problema ao mostrar que, ainda que a ideologia Juche rodeie a individualidade do homem, a sua aplicação prática só pode ocorrer ao nível social, pois sendo o ser humano “pleno” apenas no meio social, é só enquanto sociedade que ele encontra as capacidades máximas de transformação dela. Assim, “the Juche idea, while stressing initiative and self-determination, finds no application at the individual level for North Korean citizens” (FORD, 2001, p. 360). Isso acontece porque, segundo o autor, apesar de existir uma ideia abstrata de liberdade individual, a noção orgânica de suryong guia os indivíduos para uma percepção normativa da “massa” como única instância transformadora.

Outra resolução do embate entre a análise de Arendt e as ideias jucheanas oferece, curiosamente, o marxista Marcuse e seu conceito de homem heroico[13]. Para ele, o Estado “total-autoritário” apresentou uma visão “heroica” do homem que, no limite, desembocou na ideia de um ser humano inédito. O homem heroico é construído apenas para reagir, sem discutir suas “convocações” e suas “ações”, mas para ser obediente às forças “obscuras” que movimentam sua vida.

Marcuse ainda afirma que o objetivo da apresentação heroica do homem é conceber o “todo” em contraposição ao “todos”, ou seja, o “todo” se torna uma unidade – a massa popular –  que o “todos” – os grupos como partes distintas da sociedade – não pode criar. No Estado total-autoritário, a prioridade do “todo” se justifica pelo caráter universal das forças de produção, que se apresentam como dadas para que exista a felicidade individual.

Marcuse também afirma, em consonância com o descrito em Sobre la ideia Zuche, que o realismo heroico-popular apresentado pelo Estado total-autoritário acentua as características naturais do “todo” representado pelo povo: ele é condicionado pelo sangue, pela raça e pela “pureza”. É possível visualizar esse aspecto na ideologia jucheana em sua previsão de que o alcance da “consciência ideológica” só seria possível por meio do conhecimento da cultura, da história e das tradições coreanas.

Para direcionar corretamente o movimento revolucionário das classes trabalhadoras, a ideologia Juche estabelece a necessidade de um “partido” e de um “líder” das massas populares. Segundo Kim Jong-Il, “solo contando con uma dirección correcta del partido y del líder, la clase obrera y las demás masas populares pueden impulsar dinamicamente la lucha revolucionária, uma obra seria y compleja dirigida a transformar la naturaleza y la sociedade, para alcanzar la emancipación nacional y clasista” (JONG-IL, 1982, p. 18). Há, portanto, três grupos distintos no programa jucheano: o partido e seu líder, a classe trabalhadora e as massas populares, cuja hierarquia estabelecida é de orientação uma da outra, a partir de cima.

Ford[14] mostra que o lugar do líder na filosofia Juche é, em uma lógica organicista, tal como expressa Marcuse como característica totalitária, é de ser o cérebro do corpo. Para isso, foi criado o conceito de suryong, que significa algo próximo a “líder”, “cabeça” ou “chefe”. Diz ele:

“The leader occupies the same place as the brain in the human body. Just    as the brain controls and regulates all functions of the human organism, so does the suryong control and regulate all functions of the state organism. The leader is seen as the embodiment of the interests of the masses and every thought and intention that the leader has  represents the will of the popular masses. It is very important to note that the masses can  only  realize  their  intentions and demands  when they act in accordance with the orientation  and  directions of the  leader” (FORD, 2001, p. 358)

A existência de um líder carismático, apesar de diminuída por Arendt, é elemento inevitável de um regime totalitário na análise de Friedrich e Brzezinski[15]. Seguindo a argumentação deles, o regime norte-coreano poderia ser conceituado como “autocrático”. O traço da autocracia é que seu chefe é responsável apenas perante si pelos seus atos, enquanto os Estados “constitucionais”, seu contraponto, são aqueles que possuem diretrizes em formas de lei das quais todos devem obediência.

Friedrich e Brzezinski, porém, concordam com Arendt em relação ao papel do partido: ele era aparelhado com um sem número de defensores da ideologia e se colocava dentro da burocracia do Estado até controlá-la. Para a autora, o totalitarismo tinha início quando havia a substituição do sistema partidário da democracia liberal pelo unipartidarismo.

O programa jucheano possui exatamente a previsão desses elementos não apenas no lugar que destina ao partido, como direção da classe trabalhadora, responsável por conduzir as massas populares, como no próprio reconhecimento de Kim Il-Sung como líder carismático a partir de sua construção da ideologia nacional, que se propunha “total”.

Com relação às forças da história, Kim Il-Sung havia previsto que o seu sujeito era a classe trabalhadora, que tinha o poder de transformar a natureza e a sociedade por meio de suas próprias leis, materiais, distintas das leis naturais. Então, o desenvolvimento da sociedade socialista passaria inevitavelmente pela “claseobrerización” de todo o tecido social, quando, como sujeito da história, a classe trabalhadora coordenaria as massas populares, criadoras da história, rumo ao triunfo da história social.

O zazusong, enquanto elemento natural de todo homem, é a sua principal força contra a dominação social e as restrições da natureza. Quando o ser humano transforma a sociedade e a natureza por meio do seu espírito criador, dá lugar à sua independência, à sua liberdade, ao seu zazusong. A revolução, então, é do que a vitória final da independência humana sobre as forças externas a ele o aprisionam. Para a ideologia Juche,

“Toda la historia de la sociedad humana desde su división en clases hostiles es, ante todo, la historia de la revolución social por realizar el zazusong de las masas populares en el plano social y político” (JONG-IL, 1982, 21).

Na história, por várias vezes o homem exerceu seu zazusong, como nas insurreições de escravos e nas lutas dos camponeses europeus na Idade Média. O capitalismo é, para a filosofia jucheana, o último regime de aprisionamento da independência humana, cuja solução é a implantação do regime socialista – uma transformação histórica e o caminho em direção ao zazusong da sociedade.

Nesse sentido, a revolução coreana, aplicando a argumentação de Arendt, era compreendida pelos escritores de seu programa como uma movimentação das leis da história, em que as coerções externas seriam vencidas pela “independência” do homem dotado de consciência para decidir sobre seu destino. Apesar da ideologia Juche acreditar que as leis materiais eram responsáveis pela modificação da natureza, que impunha restrições ao trabalho humano, atingir o zazusong, a independência do homem, significava mudar o percurso histórico por meio de leis históricas.

Para Arendt[16], assim como para Friedrich e Brzezinski[17], o totalitarismo não segue as leis positivas porque prefere seguir a autoridade que lhe dá autoridade, isto é, a lei da natureza ou a lei da história, bases das leis positivas.

Assim, ao desafiá-las, os governos totalitários afirmam que estão seguindo uma forma superior de legitimidade, dispensando “legalidades menores”. A legalidade totalitária pretende haver encontrado um meio de estabelecer a lei da justiça na Terra — algo que a legalidade da lei positiva certamente nunca conseguiu. Assim, tais governos se amparam na ideia de que as leis da natureza e as leis da história são leis gerais.

“A política totalitária não substitui um conjunto de leis por outro, não estabelece o seu próprio [consenso], não cria, através de uma evolução, uma nova forma de legalidade. O seu desafio a todas as leis positivas, inclusive às que ela mesma formula, implica a crença de que pode dispensar qualquer [consenso] e ainda assim não resvalar para o estado tirânico da ilegalidade, da arbitrariedade e do medo. […] Afirma tornar a humanidade a encarnação da lei” (ARENDT, 2012, p. 514 e 515, grifos meus).

Arendt se equivoca aqui, novamente, em argumentar que a movimentação das leis da história limitaria a agência humana em todos os níveis. Como já analisado neste trabalho, ainda que seja possível afirmar que há uma realidade coercitiva presente na conclusão de que o programa Juche corresponde a uma única filosofia que se pretende total, o discurso filosófico dele é, justamente o oposto: o de que é a agência humana é que move a história, e não a submissão a ela.

É novamente Marcuse quem oferece uma compreensão mais clara dessa questão[18]. Ao invés de limitar a agência humana, os regimes total-autoritários constroem um modelo humano que não age, mas apenas reage. Isso seria possível por meio do desprendimento da racionalização e a atribuição de uma outra vida, na qual as forças são “invioláveis” – um irracionalismo. É por isso que a filosofia jucheana pode incentivar a agência humana: aos indivíduos, só cabe reagir às suas prescrições. Assim, nesse tipo de Estado

“…a natureza seria apreendida como uma dimensão originária mítica, […] caracterizada completamente como uma dimensão pré-histórica, a partir de cuja superação transformadora iniciaria verdadeira a história da humanidade. […] Na nova visão de mundo a natureza mítica pré-histórica desempenha a função de servir como adversário da práxis racional e responsável por si própria. Essa natureza se contrapõe como aquilo que se justifica pela sua própria existência frente a tudo aquilo que ainda demanda justificativa racional” (MARCUSE, 1997, p. 49)

Essa argumentação sobre as leis históricas também se assemelha, no debate sobre as influências da União Soviética sobre o regime norte-coreano e nas análises de Arendt e Friedrich e Brzezisnski, à crítica de West[19], para quem o modelo soviético, que fundou a República Popular da Coreia do Norte, nos anos 1950, é a base da ideologia Juche. Segundo os autores clássicos do conceito de totalitarismo, o período stalinista da URSS se caracterizou como totalitário por sua compreensão do povo como transformador das leis históricas.

Enfim, segundo Kim Jong-Il, apenas se compreende a filosofia Juche quando ela é estabelecida como “ideologia” e, assim, se insere em todas as esferas da vida: na política, na economia, na segurança nacional, etc. Portanto, precisava ser “total”. Diz o autor:

“Estabelecer el Zuche en la ideologia significa hacer que cada uno posea la consciencia de estar encargado de la revolución y la construcción, adopte el critério y la actitud de pensar y realizar todas las cosas a partir de la revolución de su país y de resolver cualquier problema com su própria sabiduría y su próprio esfuerzo” (JONG-IL, 1982, p. 39)

Na previsão programática jucheana, quando a ideologia Juche predominasse de maneira absoluta sobre o partido e sobre a sociedade, seria possível dizer que ela estava “implantada”. Então, cada sujeito amaria ao seu país e abrigaria um fervor revolucionário, além de conhecer cada detalhe da história coreana, o que exigia que o partido difundisse uma cultura nacional e elevasse o nível técnico-cultural das massas.

É possível afirmar, assim, que o objetivo jucheana, em resumo, é construir um protótipo de homem heroico de Marcuse, que não “age”, mas apenas “reage” a uma única ideologia existente que não apenas se pretende total, como assim se apresenta enquanto filosofia.

Ao indivíduo, portanto, apesar da ideia de independência própria, que permite a Ford (2001) comparar a ideologia Juche com valores democráticos de liberdades individuais, ela é posta como alternativa única, como “obra histórica” que só pode ser realizada pela totalidade das pessoas e sob a direção do partido. Ambos devem compreender o seu conteúdo e se amparar na ideia da classe trabalhadora como mobilizadora das massas populares, ou seja, do “todo”. A filosofia Juche que cada homem, em sua individualidade, tem um “espírito criador” capaz de transformar o mundo, e, então, submeter esse espírito à obra revolucionária é a sua principal tarefa. Nesse sentido, a estrutura do Estado, aparelhada pelo partido único, é o instrumento mais perspicaz.E-book Modernidade Líquida: Uma Introdução

Referências bibliográficas

[1] JONG-IL, Kim. Sobre la idea Zuche. Pyongyang, DPKR, 1982

[2] KANG, Kwang-Shick. Juche Idea and the alteration process in Kim Il-Sung’s works: a study on how to read Kim Il-Sung’s works, The Academy of Korean Studies, v. 5, n. 8, October/2001, p. 363

[3] Idem.

[4] MYERS, Brian. The Watershed that wasn’t: re-evaluating Kim Il-Sung’s ‘Juche Speech’ of 1955, Acta Koreana, v. 9, n. 1, January/2006, p. 90-91

[5] WEST, Alzo David. Marxism, stalinism and the Juche Speech of 1955: On the theoretical De-Stalinization of North Korea. The Review of Korean Studies, v. 10, n. 3, September/2007, p. 134

[6] STOPPINO, Mario. Totalitarismo. In: BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Niccola & PASQUINO, Gianfranco (orgs.). Dicionário de política. Trad. Carmen C. Varrialle et al. Brasília: UnB, 1992, vol. 2, pp. 1247-1259

[7] ARENDT, Hannah. Ideologia e terror: Uma nova forma de governo. In: ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo: Cia. das Letras, 2012

[8] FRIEDRICH, Carl, BRZEZINSKI, Zbigniew. Ditadura totalitária e autocracia. Trad. Donaldson Garschagen. Rio de Janeiro, GRD, 1965, p. 19

[9] MARCUSE, Herbert. O combate ao liberalismo na concepção totalitária do Estado. Trad. Wolfgang Leo Maar. In: MARCUSE, Herbert. Cultura e sociedade, vol. 1. Trad. Vários. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p. 47

[10] FORD, Danton. Democratic capitalism and juche: common values and challenges. Seoul, Kyungnam University, 2001, p. 359

[11] ARENDT, Hannah. Ideologia e terror: Uma nova forma de governo, p. 470

[12] FORD, Danton. Democratic capitalism and juche: common values and challenges. Seoul, Kyungnam University, 2001, p. 360

[13] MARCUSE, Herbert. O combate ao liberalismo na concepção totalitária do Estado, p. 48

[14] FORD, Danton. Democratic capitalism and juche: common values and challenges, 2001, p. 358

[15] FRIEDRICH, Carl, BRZEZINSKI, Zbigniew. Ditadura totalitária e autocracia. Trad. Donaldson Garschagen. Rio de Janeiro, GRD, 1965, p. 14

[16] ARENDT, Hannah. Ideologia e terror: Uma nova forma de governo, p. 514

[17] FRIEDRICH, Carl, BRZEZINSKI, Zbigniew. Ditadura totalitária e autocracia, p. 18

[18] MARCUSE, Herbert. O combate ao liberalismo na concepção totalitária do Estado, p. 49

[19] WEST, Alzo David. Marxism, stalinism and the Juche Speech of 1955: On the theoretical De-Stalinization of North Korea., p. 139

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