Classe-Média Em Chamas!

O golpe que a classe-média recebeu com o PEC das empregadas não foi o fim da batalha. A primeira vingânça é a redução da maioridade penal. Veja aqui como Bauman pode nos ajudar a perceber estas reivindicações que tomam proporções supostamente nacionais, mas que não passam de interesses de classe.

A Classe-média brasileira recebeu um golpe delicadamente dolorido na ponta do queixo: o PEC das Empregadas Domésticas. O fato de uma profissão desregulamentada passar a ser coberta pelas Leis Trabalhistas e passar a ser formalizada retira automaticamente um punhado de pessoas em condições de trabalho semi-escravo de suas posições.

A Redução Da Maioridade Penal melhorará essa condição da imagem

Até mesmo as que não estavam sendo exploradas desta forma, mesmo elas pertenciam a uma das profissões que – enquanto regulada pelo mercado e pelo elitismo – ainda fazia pulsar o “charme” podre da escravidão, do servilismo, do poder individual sobre o corpo do outro. Todas as relações travestidas por condições de quase-da-família encobriam as formas mais devassas de exploração, mas vale dizer que isso não é pura maldade no coração da classe-média coxinha brasileira.

Os Exemplares Malvados Da Classe-Média

Eu não acredito que exemplares da elite ou das classes que sustentam simbolicamente a elite, como Sophia Alckimin e a doação de Daslu, como os cronistas do PEC das empregadas e, mais atual, os defensores da segurança pública que gritam pela redução da maioridade penal, façam isso com maquiavelismo consciente operando suas ações. Pra mim, eles realmente acham que estão certos e que são sinceramente e honestamente dotados de um esclarecimento superior.

doação de bolsas Prada e roupa Daslu para os mais necessitados.

A ingenuidade dos cronistas do PEC me faz pensar que são só membros daquele grupo de defensores dos oprimidos. Como fazer para defendê-los? Os colocando sobre nossas asas. Como nós os colocamos sobre nossas asas? Atribuindo uma incapacidade em sobreviver que só pode ser resolvida por meio de relações de servilismo camufladas em relações familiares. É a história do cachorro que já é parte da família, mas se cagar na sala leva chute na cara e dorme na chuva.

patroas entram em pânico sem seus privilégios

Pedir por uma desregulamentação em prol dos próprio desregulamentados é atribuir a eles a incapacidade de sobreviver. O fato que se cobre por este argumento é que toda relação familiar dos patrões são relações de dominação do tipo mais podre… Do tipo que não permite nem mesmo o ódio, já que o ódio, neste caso, seria uma falta de agradecimento. É uma repressão sem tamanho onde a única saída e o destino quase certo é que essas estruturas hierárquicas e seu modo de operação sejam inculcados também pela trabalhadora doméstica.

Um segundo ponto, talvez mais delicado, se refere a redução maioridade penal.

A Maioridade Penal

Se no caso da PEC a classe-média não tinha defesa nenhuma, se toda defesa era alvo de inúmeras chacotas, se todas eram explicitamente coxinhas, a maioridade penal é uma vingança imediata.

Redução da maioridade já toma ares de vingança por que somente 0,9% dos detentos da Fundação Casa estão enquadrados em crimes do tipo Latrocínio – afinal, lembrem que o que causou o alvoroço foram os casos onde o menor assassinou a vítima e não precisou responder como adulto – desta forma, sendo que quase metade desta porcentagem tem mais de 18 anos.

O destino social traçado das famílias já estigmatizadas no Brasil

Não há sentido em diminuição da maioridade penal porque a segurança do país não depende de julgamentos mais rigorosos. A segurança de nenhum país depende disso e este tópico é uma das formas políticas de se utilizar o medo. Bauman deixa bem explícito que o medo é um dos instrumentos políticos mais eficazes num mundo onde não há mais a fixidez de um projeto de vida política, ou seja, num mundo onde não importa ser de esquerda ou direita, num mundo onde comunismo e liberalismo estão ultrapassados, num mundo onde o apolítico é legitimado.

As duas formas de fugir do medo primário, do medo da morte, é a sua banalização e sua desconstrução: a morte é reportada em programas de TV, corpos são exibidos logo após um acidente destruidor e etc e etc. Isso não é a “realidade”, isso é a espetacularização da morte, é fazê-lo algo banal, algo que não é necessário temer – a própria vida é estruturada assim, tendo na exclusão um dado empírico cotidiano em um nível mais superficial de morte (todos sofremos o risco de sermos excluídos, rejeitados e etc – rejeitados num relacionamento, excluídos do trabalho e assim por diante. A regra é excluir para não ser excluído). A desconstrução é a explicação detalhada das inúmeras causas da morte e, assim, deixar uma margem imaginável de possibilidade para evitar a morte.

destino certo com a redução da maioridade penal

Não há razão prática nenhuma para a redução da maioridade penal, mas, tomando como princípio a desconstrução da morte, a redução da maioridade penal é uma forma racionalizada de tentar evitar esse destino fatal. É um tiro no escuro.

Chegaremos num ponto onde, caso haja redução para 16 anos, quando alguém com 15 anos e meio cometer assassinato, discutiremos sobre a redução para 15 anos. Estas discussões são sempre incitadas por uma mídia sensacionalista, que tem como função a banalização da morte. A inflamação da classe-média é fundamentada em uma mídia que transforma um acontecimento na causa primária da violência no mundo moderno.

polícia é cão de guarda do Estado

Essa união da banalização com a desconstrução, pra mim, junto com a estrutural vitimização da classe-média e a culpabilização de negros, pobres e juntamente, menores de idade, pode tentar explicar a associação da mídia e de uma parcela do povo bem representada politicamente nesta luta incrivelmente reacionária.