Bauman Sobre A Exclusão Cotidiana E Os Programas De Reality Show

A TV é ligada e vemos um retrato fiel do nosso mundo, um retrato das relações sociais, um show da realidade. Talvez. Creio que o termo Teatro da Vida Real é melhor colocado, afinal, ao saber que há câmeras vigiando qualquer ato durante todo o dia e que cada ato construirá uma imagem, uma figura, de um potencial vencedor, então cada indivíduo dentro de um reality show representa a si mesmo. Representa-se como não-representação. Tudo se passa como se fosse a coisa mais natural.

É claro que se o programa existe, é porque há algo nele que possibilita sua existência. Não falo do público que assiste, mas da possibilidade da criação de um programa como este. O que pode fazer de um programa como um reality show algo que possa existir? Aqui, Bauman articula a noção da exclusão como categoria fundamental para existência do sujeito na modernidade líquida.

A exclusão é estruturante. Num sentido de que, se não há a certeza de uma relação, se não há a confiança que a certeza passaria, se não há regras minimamente rígidas para dar suporte a uma confiança nas relações recíprocas, então uma vida – que é pautada num medo de tudo e todos, já que, num estado de constante perigo, tudo e todos podem ser perigosos – líquida e baseada nas próprias satisfações, se transforma numa vida de evitação das relações mais rígidas, das relações que fazem do indivíduo um sujeito frágil, um sujeito à mercê da incerteza. A única segurança está na exclusão.

O reality show, assim, é um modelo da sociedade. Nele, as pessoas se relacionam e lutam para se excluírem. Nada é verdadeiro, a não ser a certeza de que, no fim, todos serão excluídos menos o vencedor. O que isso significa? Não dá pra sair ileso, é necessário tomar uma posição e excluir para não ser excluído. No reality show a exclusão chega a ser obrigatória – o sujeito precisa votar em alguém, não pode deixar de votar. Alguém precisa ser excluído.

É importante, também, saber que programas de TV, mais do que serem o reflexo de algum ponto da sociedade, também são aparelho de reprodução deste ponto refletido. Ou seja, esse caráter de exclusão é reproduzido incessantemente, num fluxo infinito de estímulos que estruturam o espectador. É nessa reprodução infinita onde um conjunto de maneiras de ser e de agir são propagadas e inculcadas, assim como, são nestes programas que os estereótipos são firmados.

Não se trata só de estabelecer como a vida deve ser vivida, mas de estabelecer quem pode viver a vida legitimamente. Os participantes de reality show não são escolhidos ao acaso. São escolhidos por categorias de consumo. Qual propulsionará identificação? Não há liberdade nisso, nem todos podem participar de um reality show.

A seleção é um processo de exclusão prévio dos não adequados e de inclusão de alguns grupos minoritários para manter a aparência de democrático no programa. Não adianta, o programa não deixara de ser um desdobramento de uma cultura elitista, machista e racista só porque tem algumas pessoas com “cara de pobre”, “cara de gordo”, participação de homossexuais ou transexuais. Isso não faz a menor diferença, já que a participação de grupos minoritários ainda é pensada mecanicamente.

O reality show funciona, ainda, como parte do dispositivo – que é a sociedade – para fazer a vida com medo ser tolerável. Ali se banaliza a exclusão (tida como uma experiência de morte de terceiro grau), é ali que a exclusão é explicitamente colocado como parte integrante da vida cotidiana. Exclusão é a vida corrente.

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