Bauman, o exército reserva e os desempregados crônicos

O desemprego é tido como um fator estrutural do capitalismo. Nem todos terão emprego, conforme-se com isso. O desemprego é uma situação, também, que em nenhum momento desde a invenção do emprego propriamente dito, foi erradicada. Então, vem a pergunta, qual função do desemprego?

A resposta imediata marxista é a formação de um exército reserva de mão-de-obra. Este exército reserva é a garantia de que, mesmo sob todas as flutuações do mercado e sob todas as lutas trabalhistas organizadas, nos momentos necessários haverá um punhado de trabalhadores aptos a preencher as vagas recentemente abertas.

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Mas há algo de novo na globalização: o exército reserva é um exército que pode desempenhar a função de que são reservas. São trabalhadores que, efetivamente, têm a capacidade de executar a função que o mercado lhes priva no momento do desemprego. O desemprego é, desta forma, uma situação temporária. Há uma certa garantia de que o emprego logo virá. E quando não vem?

A Redundância

O fenômeno que vemos atualmente, perfeitamente cabível na análise de Bauman, é o da redundância. O que é redundante? É o inútil. Por que este é um fenômeno visto atualmente? Porque atualmente temos mais e mais trabalhadores que, ao não se adequarem à automação flexível do trabalho, se tornam obsoletos.

Estes são os trabalhadores inúteis. Desempregados não-empregáveis. De certa forma, são ex-trabalhadores. Isso ocorre a partir do momento em que estes trabalhadores não possuem mais a capacidade, habilidade e eficiência para o mercado de trabalho. Não há mais ocupações para eles.

Quanto mais a tecnologia da informação ganha espaço, quanto menos o trabalho puramente braçal é exigido e com o aumento da exigência de mercado por padrões de qualificação (como a exigência de um idioma estrangeiro ou de um título de graduação), certos trabalhadores, como os metalúrgicos de Detroit ou operadores de máquinas na indústria automobilística, que, após a automação e a inserção da tecnologia de ponta, auto-alimentada, que guarda todas informações necessárias em seu banco de dados e que pode ser monitorada e mantida por poucos técnicos, se tornam pouco úteis para o mercado.

Seu futuro está no trabalho informal, ilegal ou na mobilidade para lugares que os ofereçam trabalho. Lembrando que o trabalho informal é o famoso bico, é aquilo que com certeza não trás estabilidade nem possibilidade de um vida materialmente ou mentalmente confortável, exatamente por ser uma ocupação considerada de segunda categoria, sendo o trabalho ilegal condenado pela lei e o trabalho em outras localidades dificultado pelas possibilidades remotas de movimentação.

A Prisão, Lar Dos Excluídos

Qual é o lugar óbvio deste lixo humano, deste refugo? Qual é o poço de lixo na sociedade pós-moderna? A prisão. Ela é o caminho lógico para o ilegal, mesmo se for informal, há a possibilidade – real e presente – de não conseguir o necessário para o básico, o que leva à situação de crime – do trabalho ilegal.

A prisão é o lugar perfeito para manter esse tipo de ex-trabalhador distante da sociedade. É na prisão que, diferente da análise de Foucault do aparelho prisional na modernidade (do panóptico), ao invés de disciplinar para inserir o corpo rebelde na ordem, o mantém encarcerado para não sujar o quadro perfeito da sociedade do consumo. Afinal, se eles são inúteis na categoria do consumo, por que precisam existir?

Fica então, o dilema da sociedade atual: o que fazer com o refugo? Alimentar um grupo que, apesar de não conseguir contribuir de maneira nenhuma para nada (dentro dos referenciais atuais da sociedade), tem todo o direito de ser alimentado, ou mandá-los para longe? Com certeza nenhuma resposta é eficaz, já que o problema se encontra nos rumos do sistema atual e da globalização, não nos trabalhadores desqualificados.