Bauman e o lixo humano: o refugo da globalização

Bauman tem bons pitacos sobre o lixo humano, tratando sobre os refugiados enquanto o refugo da globalização. Quem diria?! A globalização também tem seus excedentes que precisam ser retirados de vista, seus sujeitos sem direitos, seus refugos estruturais.

Não há dois lixos iguais. Você pode pensar que essa afirmação trata da aparência do lixo, no entanto, ela lida com a relação do lixo com o sujeito que o produz.

Cada lixo é produzido de forma diferente: não é refugo da vida, refugo do consumo, é produção. O lixo é produzido na medida em que nasce da relação do objeto com o sujeito.

Lixo é o excesso do objeto de desejo, é quando o desejo não precisa mais daquilo que sobra. O lixo é aquilo que ficou obsoleto, que foi ultrapassado, que se tornou inútil, feio e enjoativo. A sociedade de consumo tem em seu bojo uma cultura do lixo, cultura essa que não atinge somente os objetos consumidos, mas também o processo de produção, cada vez mais ligado com a descartabilidade e com a novidade. Assim, o sonho do objeto que não se quebra, que não se torna obsoleto, perde-se na realidade capitalista. Nada pode ser útil para sempre.

Além dos objetos de consumo como alimentos ou tecnologia, os humanos também se tornaram lixo. Por um lado, porque são mercadoria e, sendo assim, passiveis de serem consumidos: o músico, o amante, são todos prestadores de serviço que podem ser “demitidos” a qualquer momento. Por outro lado, há o lixo humano, o refugo, as sobras da globalização, os marginais do processo de construção da ordem e os excedentes populacionais não-empregáveis.

Inevitavelmente, as pessoas se transformam em refugo por não se adequam às novas regras da ordem: são trabalhadores impossíveis de serem empregados e, como consequência, sujeitos impossíveis de consumir. Ou seja, as vítimas do progresso econômico, os excedentes populacionais sem destino traçado, como os pobres e seus filhos, são os inimpregáveis, os não consumidores: eles não se adequam à construção da ordem, são o peso morto de um capitalismo automatizado e flexível, estão em demasia e fazem do lugar onde vivem, um lugar superpopuloso.

Os refugos do processo de globalização são aqueles que terminam em campos de refugiados, são os imigrantes ilegais, são aqueles que se tornam vítimas dos conflitos internacionais/globalizados e que, ao mesmo tempo que precisam sair de seu território de origem (que já foi ou será destruído), não têm permissão para entrar em território dos países de primeiro mundo. Ficam presos nos campos de refugiados sob um estatuto de não-direitos. Não são ninguém.

Como não estão sob tutela de Estado nenhum, não têm nenhum direito.

O refugo da globalização é o aviso da tragédia: o refugiado demonstra que, além da maravilha consumista que vivemos, há a possibilidade de ter o lar destruído a qualquer momento. Ele demonstra que uma guerra não precisa de proximidade nem de muito tempo, que em dois dias a destruição pode acabar com toda uma vida. Retirá-los de perto é retirar um futuro possível, é afastar um fantasma.

Pode-se dizer que, enquanto o refugiado é o refugo da globalização, os escravos bolivianos do Bom Retiro são produtos do progresso econômico e os mendigos da Sé são os refugos da construção da ordem. É claro que existe um fator de globalização no emprego de bolivianos e um fator econômico nos mendigos da Sé, assim como existe uma fator de construção e manutenção da ordem na recusa de refugiados, mas os vetores principais, como dito acima, fazem desses três, exemplos dos excluídos de cada tipo.

0 Comments

  1. texto ácido e potente! continue assim, hehe… e pensar sobre os Refugiados é muito importante, pertinente cara. ” Como não estão sob tutela de Estado nenhum, não têm nenhum direito. “

  2. Estou lendo AMOR LÍQUIDO do Bauman e nesse livro ele discorre sobre o “LIXO HUMANO”. E como tinha ficado um pouco confuso meu entendimento esse texto foi deveras elucidativo e feliz na argumentação. PARABÉNS

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