Pequena entrevista com Miró: O Terceiro Olho que lhe permite ver a vida com profundidade

Uma pequena entrevista em que Miró relata sua vida faminta na França, seu processo criativo, a convivência com alguns surrealistas e seu gosto artístico mais flexível na época da gravação.

Como fazer uma arte surrealista? Nesta interessante entrevista (que pode ser vista no fim do texto), Miró explica um pouco sobre sua relação com os surrealistas e sobre seu processo de criação. Segundo o autor, a fome lhe rendeu ideias para pintar. O autor quase morreu de fome em seus primeiros anos em Paris: sem a ajuda dos pais, que não queriam o ver numa carreira artística e sem conseguir vender seus quadros, Miró se viu em uma situação em que passar dias sem conseguir comprar um croissant era normal.

A fome lhe deu ideias, segundo ele próprio. Essas ideias podem ser vistas no quadro The Farmer’s Wife, um dos primeiros quadros a mostrar grandes variações de escala em diferentes partes de uma mesma figura. Nesta obra, os grandes pés da esposa simbolizam a força com que está presa ao chão catalão.

The Farmer's Wife, 1922
The Farmer’s Wife, 1922

“Miró não enxergava a vida de maneira distorcida, mas a via como ela realmente é, utilizando o que pode ser chamado de O Terceiro Olho, o olho que vê além da superfície”. Ao falar sobre sua entrada no círculo surrealista – ele fora introduzido por André Masson, pintor associado ao surrealismo e ao expressionismo -, Miró relata que mesmo sendo apresentado educadamente a todos, ninguém se importava com suas obras. Talvez por ainda não conseguirem entendê-las.

Segundo o artista, “pintar com todas essas regras me estressava um pouco. Eu queria ir além disso, entende? O cubismo abriu muitas portas, mas depois dele a pintura se tornou algo muito estático, estava somente preocupada com o plasticismo e eu queria dar um solto sobre isso, que me parecia muito limitado. Então, com os surrealistas eu encontrei o que estava procurando. Eu pude deixar o plasticismo estrito para trás e ir além”.

Miró queria dar liberdade para seu inconsciente e seus sonhos obscuros deram vida para o Cão Latindo Para a Lua, de 1926. Aqui, se vê uma escada, que aparece no sonho e o retira do travesseiro de pedra, o enviando para um outro mundo, o permitindo ter uma visão mais ampla do todo.

Cão latindo para a lua, 1926
Cão latindo para a lua, 1926

A mudança de seu gosto também é assunto para a entrevista. Miró relata que tratava Cézanne como um qualquer que pintava maçãs e jarras de água (concordando com Breton e outros surrealistas), entretanto, hoje o considera um gênio. É necessário ter mais ponderação na apreciação da arte, “hoje eu sou mais maduro, isso me possibilita ser mais flexível em meus julgamentos. Eu não posso simplesmente ser rígido. Eu preciso ter uma certa maleabilidade de espírito”.

Abaixo a entrevista completa com Joan Miró.

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