Como Nietzsche pode ajudar o vegetarianismo?

Da série Friedrich Nietzsche.

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Nietzsche e o vegetarianismo.

Tentar associar a abolição animal com uma afirmação pela liberdade é mais difícil do que parece.

Primeiramente, devemos entender que, se queremos a libertação animal, não podemos nos sujeitar ao modo de pensar carnista. O que isso significa? Que não podemos basear nossas escolhas por preceitos nutricionais.

Esses preceitos, pretensamente “universais e objetivos” têm sua autoridade na ciência, mas os alimentos com base na exploração animal não são os únicos que podem alimentar um corpo humano, nem mesmo são os melhores para isso. Não me alongarei neste parágrafo, pois é de conhecimento geral o poder nutricional de uma dieta veg(etari)ana.

Depois, quando percebermos que não devemos aceitar de cabeça baixa as pressões que se dizem científicas, também não podemos cair para a moral do ressentido. Explico: a moral do ressentido é aquela moral que, ao invés de afirmar um desejo, se preocupa em barrar o desejo alheio; ao invés de afirmar um valor, se preocupa em inverter o valor dominante; ao invés de depender só de si mesma (e esse é o ponto mais importante, para mim), depende sempre da vontade do outro.

A moral do ressentido é a moral típica dos sofredores que amam seu sofrimento. Esses, por sua vez, levam o sofrimento como a essência de sua potência, de seu impulso pela vida. Quando o sofrimento acaba, perdem a sua razão de viver. Ao contrário desta, devemos nos concentrar na moral dos “nobres”: a moral da afirmação de si.

Aplicando de maneira simples na questão animal: mais vale afirmarmos o valor da liberdade e lutarmos por ela, do que afirmarmos o valor da compaixão. A compaixão é uma armadilha fácil de cair, ela é o acalanto dos perdedores, ela é o último suspiro daqueles que não têm mais que este último suspiro para dar – a compaixão é a luta perdida por antecipação. Se deus está morto, precisamos nos afirmar e ir para além da compaixão.

Quando falamos de abolicionismo animal, falamos sobre luta, e quando falamos sobre luta, falamos sobre poder. Servir-nos da moral dos nobres é termos em mãos uma arma de guerra, é termos a possibilidade de afirmar os valores que compõem o núcleo de nossas reivindicações, é a afirmação de que a proposta abolicionista não precisa se desculpar ou se adequar ao discurso moral vigente para conseguir se expressar.

Necessariamente deveremos pensar em uma moral completamente nova caso a abolição animal seja conquistada. Não é possível fazer modificações meramente pontuais. Pensar uma moral nova é deixar de lado os valores consagrados pela nossa (ou se apropriar deles dando um novo sentido), portanto, é desenvolver um novo jeito de pensar as relações entre os animais humanos e não humanos como um todo.

O medo da força, que pode ser visto na falta de vontade em lutar, na dedicação da vida ao pacifismo dentro do movimento social (seja ele qual for), expressa a impossibilidade de ganhar a luta. Não luta quem vai perder – que sejamos os vencedores, então.

Associar a libertação com um valor de força e desligar a compaixão de seu papel principal na visão popular do que seria uma relação saudável entre animais humanos e não humanos é um início: que lutemos pela vitória e pela abolição animal afirmando veementemente o valor da libertação! Ou seja, queremos o fim da exploração animal, simplesmente porque este é o único jeito de se viver!

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5 Comments

  1. Para mim este sentimentalismo em favor dos animais é infantil. Para mim, proteger determinada classe de animais é especismo, qual a diferença entre uma barata e um rato? Ambos são animais, ambos tem sistema nervoso, como fazer para dizer que uma vaca é mais merecedora de viver que uma barata? Vamos nos utilizar da emoção? Quanta besteira… Eu não sou contra o consumo animal, eu não tenho pena ou compaixão de animais que foram criados apenas para o consumo, em nada estes animais domesticados irão desequilibrar o meio ambiente por sua morte.

  2. Seu texto é bem escrito e acredito que você possa sustentá-lo em algum filósofo, mas no Nietzsche, no meu entender, é extremamente contraditório. Em “A gaia ciência”, o aforismo 145 já se explicita pelo título: ‘O perigo do vegetarianismo’. Na terceira dissertação da “Genealogia da moral”, no § 17, diz Nietzsche: “o absurdo do vegetarianismo”. E No capítulo ‘Porque sou tão inteligente’ de “Ecce homo”, no § 1, diz Nietzsche: “eu, adversário por experiência do vegetarianismo”.

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