O terrorismo em época de medo líquido

Para o sociólogo Zygmunt Bauman vivemos na era do Medo Líquido, onde reina a ansiedade e o medo de tudo, da violência urbana à perda do emprego ou de pessoas amadas.

free_syrian_army_2011_11_2Para o sociólogo Zygmunt Bauman, vivemos na era do Medo Líquido, onde reina a ansiedade e o medo de tudo, da violência urbana à perda do emprego ou de pessoas amadas. Assim, conviver em espaços abertos ficou cada vez mais perigoso, vivemos trancados em nossas casas fechadas, indo à shoppings, se apegando a religiões que prometem curas rápidas para todas as dores de um mundo onde tudo é incerto e a mídia nos assola com a instabilidade econômica mundial e com as gotas de sangue violência urbana.

Veja também: O que é sociedade líquida? Bauman Explica

No mundo líquido o individualismo impera, a busca para o afeto que nos falta é direcionada para o consumo, ao mesmo tempo em que o capitalismo enfrenta crises cada vez mais profundas. Nesses tempos de medo e insegurança, o terrorismo encontrou um terreno fértil para se proliferar e tomar o mundo. O último ato terrorista que mobilizou o mundo, o ataque à revista Charlie Hebdo é um exemplo da instabilidade que os extremistas conseguiram impor ao mundo.

Leonardo Boff, em seu texto “Para se entender o terrismo contra o Charlie Hebdo de Paris”, analisa como o terrorismo foi se fortalecendo para chegar a esse ponto:

Outra coisa é procurar analiticamente entender porque tais eventos terroristas acontecem. Eles não caem do céu azul. Atrás deles há um céu escuro, feito de histórias trágicas, matanças massivas, humilhações e discriminações, quando não, de verdadeiras guerras preventivas que sacrificaram vidas de milhares e milhares de pessoas.

Nisso os USA e em geral o Ocidente são os primeiros. Na França vivem cerca de cinco milhões de muçulmanos, a maioria nas periferias em condições precárias. São altamente discriminados a ponto de surgir uma verdadeira islamofobia.

Que signfica isso? O mesmo espírito que provocou a tragédia contra os chargistas, está igualmente presente nesses franceses que cometeram atos violentos às instituições islâmicas. Se Hannah Arendt estivesse viva, ela que acompanhou todo o julgamento do criminoso nazista Eichmann, faria semelhante comentário, denunciando este espírito vingativo.

Com sede de vingança, os terrorista almejam causar o caos mundial para ter a dominação e controle de outros povos, assim como fizeram com eles, as táticas utilizadas por eles para isso, segundo Boff são:

Ocupar as mentes das pessoas, mantê-las desestabilizadas emocionalmente, obrigá-las a desconfiar de qualquer gesto ou de pessoas estranhas, eis o que o terrorismo almeja e nisso reside sua essência. Para alcançar seu objetivo de dominação das mentes, segundo Boff, o terrorismo persegue a seguinte estratégia:

(1) os atos têm de ser espetaculares, caso contrário, não causam comoção generalizada;

(2) os atos, apesar de odiados, devem provocar admiração pela sagacidade empregada;

(3) os atos devem sugerir que foram minuciosamente preparados;

(4) os atos devem ser imprevistos para darem a impressão de serem incontroláveis;

(5) os atos devem ficar no anonimato dos autores (usar máscaras) porque quanto mais suspeitos, maior o medo;

(6) os atos devem provocar permanente medo;

(7) os atos devem distorcer a percepção da realidade: qualquer coisa diferente pode configurar o terror. Basta ver alguns rolezinhos entrando nos shoppings e já se projeta a imagem de um assaltante potencial.

Formalizemos um conceito do terrorismo: é toda violência espetacular, praticada com o propósito de ocupar as mentes com medo e pavor.

As técnicas citadas pelo filósofo funcionam perfeitamente no mundo líquido de Bauman. Os extremistas islâmicos fazem com que as pessoas sejam reféns de seu próprio medo, que não saiam na rua com medo de serem atacadas, que não discutam com eles ou coloquem em dúvida sua fé. Assim, a população, desestabilizada, já não confia mais em ninguém, todos podem ser perigosos. Hoje a Europa está em pânico, os cidadãos norte-americanos nunca mais se sentiram protegidos em seu país, amanhã quem pode ser o alvo?

Um dia os Estados Unidos se ofereceu para treinar e armar os muçulmanos pensando em controlar mais um país, no outro dia o imperialismo perdeu o controle sobre as pessoas já armadas e treinadas, agora decretaram todos os muçulmanos como inimigos de todos e criou uma caçada interminável e discriminatória à essas pessoas. E as consequências? Amanhã será mais um dia que a mídia irá entrar em nossas casas com suas gotas de sangue, controlando nossas mentes e impregnando o medo em nossa mente. Vamos escolher resistir ou ficar trancados em casa com medo de viver porque lá fora pode ter um terrorista, um assassino, um assaltante ou um estuprador em potencial?

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