Cátedra Michel Foucault: “depois da negativa, houve aumento de interesse sobre o autor”, diz pesquisador

Entenda o que está ocorrendo neste momento com a recusa do Conselho da Fundação São Paulo em criar a cátedra Michel Foucault na PUCSP. Clique e leia a entrevista com Pedro Dotto.

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Pensamento de Foucault tem muito acrescer com a cátedra.

A cátedra Michel Foucault e a Filosofia do Presente estava prestes a ser criada na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), mas foi barrada no último momento pelo Conselho Superior da Fundação São Paulo, mantenedora da universidade; os professores ficaram sabendo desta decisão no fim de abril e, desde então, uma grande polêmica surgiu em torno desta negativa.

Sob a suspeita de que o Conselho decidiu rejeitar um autor que lhe parecia opositor da igreja, a cátedra tem sido apoiada por diversos professores, alunos e pela comunidade acadêmica internacional, através da petição Sim à Cátedra Michel Foucualt e a Filosofia do Presente.

A situação de intensa mobilização continua na PUCSP e Pedro Dotto, mestrando em filosofia pela universidade, professor no Inanna Educação e membro do Grupo de Pesquisas Michel Foucault, concedeu a entrevista abaixo ao Colunas Tortas, renovando as percepções de quem está, pelo menos neste momento, observando o caso Foucault e tateando possibilidades de contribuir para a resistência ao veto arbitrário à sua cátedra.

Colunas Tortas – Você pode nos explicar o que está acontecendo na PUC com a cátedra do Foucault?

Pedro – Em 2011 aconteceu na PUC-SP o VII colóquio Internacional Michel Foucault em comemoração dos 50 anos da História da Loucura. Lá ficou decidido que a PUC-SP receberia os áudios inéditos dos cursos de Foucault no Collège de France e estabeleceria uma cátedra (Michel Foucault e a filosofia do presente) ao pensador, a única fora da França. A criação da cátedra foi aprovada em todas as instancias da universidade e em última instância, em um órgão até então nada participativo, que se trata do Conselho Superior da Fundação São Paulo, composto pela reitoria Ana Cintra e 8 bispos, entre eles o Dom Odilo Scherer, negaram a criação da cátedra.

Após esta negativa, nós enviamos um pedido de reconsideração para o Conselho; no entanto, não há um tempo de resposta determinado. Após receberem, disseram que iriam responder “oportunamente”. Em paralelo, várias mobilizações ocorrem na PUC. Na semana passada, o artista plástico Cabral fez uma pintura em frente à reitoria do Foucault, tomando como modelo o Denis, um rapaz muito parecido com Foucault que deu uma entrevista póstuma, com frases do Foucault, falando sobre a negativa da cátedra. (Veja a entrevista no fim da matéria).

A Marta Suplicy e outras figuras importantes do meio acadêmicos também participaram, como o Lamar Garcia dos Santos, Favareto e diversos outros professores ligados à PUC. Na quarta-feira (27) houve uma marcha fúnebre da cátedra; na quinta-feira (28) uma aula-debate sobre autonomia universitária; também foram publicados artigos da Jeanne Marie Gagnebin na Carta Capital, o artigo do Giacoia, que saiu na Cult. Mas nesta terça-feira (2), o sociólogo Francisco Borba Ribeiro Neto publicou em sua coluna na Folha um artigo intitulado Obscurantismo ou Identidade? falando que a igreja não aceitaria uma cátedra de um pensador como Foucault, que agrediria os princípios da religião e dizendo que a cátedra é unicamente algo simbólico (o que é mentira).

Eu não considero o artigo do Borba Neto como uma resposta definitiva da Fundação São Paulo, mas é problemático. Por outro lado, há uma petição internacional com assinaturas de mais de 4000 pessoas de mais de 50 países: Judith Butler, Balibar e Antonio Negri são alguns nomes que participaram.

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Após negativa do Conselho, a placa em apoio à cátedra foi posta na universidade.

Colunas Tortas – Esta é a primeira vez que o Conselho intervém na PUC?

Pedro – Na direção dos estudos acadêmicos sim. O conselho costuma intervir em questões administrativas e econômicas, não sobre aquilo que se pesquisa. Nunca houve influência da igreja sobre o que se pesquisa e sobre o que se fala dentro da PUC, lá há uma tradição democrática de autonomia universitária que sempre foi respeitada. A cátedra traria, com sua aprovação, a criação de colóquios, o intercâmbio de conhecimento entre o Brasil e a França, mas pela primeira vez o Conselho tomou uma decisão deste tipo.

Colunas Tortas – Os alunos estão se organizando?

Pedro – Sim, vai rolar uma antissemana de ciências sociais na semana que vem, com três diálogos dedicados ao Foucault. Enfim, tem muita gente apoiando a criação da cátedra. Nós estávamos, na verdade, pensando que, por conta da mobilização dentro e fora do Brasil, a decisão do Conselho seria modificada e a cátedra poderia ser criada, mas com o artigo publicado na Folha pelo Borba Neto, nós começamos a ficar pessimistas.

Colunas Tortas – Os debates sobre autonomia universitária já aconteciam antes dessa decisão do Conselho?

Pedro – Sim, mas não da maneira como está acontecendo agora. Desde 2006 a PUC vive num processo de crise com demissão de professores, hiperexploração dos contratos dos professores, medidas com caráter econômico que influem indiretamente sobre a pesquisa porque limitam o número de horas dos professores para dedicação a pesquisa.

Colunas Tortas – Qual pedaço da obra do Foucault que atinge a igreja católica?

Pedro – Foucault tem uma teorização forte sobre um modo específico de exercício do poder que ele vê emergir com o Cristianismo, que ele chama de poder pastoral: uma estrutura de poder ao mesmo tempo coletivizante, individualizante, que cuida das ovelhas individualmente mas também do rebanho como um todo e, segundo Foucault, este é parecido com o modelo do Estado. Nos últimos cursos do Foucault, no Collège de France, ele se dedicou muito ao cristianismo primitivo, à gnose cristã, às técnicas de confissão etc. Isso não é um ataque à igreja, mas é um estudo de como esta configuração de poder se instituiu e se manteve em várias instituições sociais.

Colunas Tortas – Da mesma forma, quando ele fala sobre o panoptismo, ele não está fazendo uma crítica à Bentham, mas sim descrevendo uma configuração de poder que constitui as instituições da época e é constituído por ela. Desta forma, partindo do pressuposto que o Borba Neto tem conhecimento da obra de Foucault, não há neste impedimento da criação da cátedra uma razão política?

Pedro – Se a gente olhar no nível do texto, nós poderíamos entender como um preconceito intelectual ou uma interpretação equivocada. Foucault está envolto em uma série de questões polêmicas como a morte do homem, no fim de A Palavra e as Coisas, o que gera problemas. Mas extravasando o nível do texto e indo de encontro com a pessoa Foucault, a coisa muda: ele era homossexual assumido, morreu de AIDS, foi militante ligado às lutas da esquerda, fez um grupo de informações sobre a prisão na França para tentar ver o que era a caixa preta do sistema prisional francês, defendeu os refugiados políticos de esquerda ― Foucault teve uma vida dedicada à luta. Ele era tido como um anormal pelos padrões da igreja mais ortodoxa.

O Marcelo Hailer, do Inanna, fez um texto, Viada e Subversiva: Michel Foucault ainda incomoda muita gente, falando que não se trata de uma questão de interpretação, mas sim que a própria pessoa Foucault confrontaria a Igreja Católica, a sua figura pública e subversiva.

Colunas Tortas – Você disse que desde 2006 existe uma precarização da condição dos professores na PUC e nós sabemos que o Foucault tem um capital simbólico considerável na academia. Você acha que existe uma tentativa de boicotar um possível núcleo de produção acadêmica, de produção de conhecimento que vai totalmente contra a própria política econômica que a universidade vem levando?

Pedro – Eu não sei se esse foi o objetivo do Conselho, mas se foi, deu errado. O que nós vimos depois da negativa da cátedra foi um aumento do interesse por Foucault de pessoas que nunca antes leram nada dele. As pessoas passaram a se perguntar quem é este autor que causou uma recusa pelo Conselho da Fundação São Paulo, perguntam-nos o que Foucault pode oferecer, o que ele pensa. Enfim, estão muito mais interessadas pelos livros e artigos foucaultianos.

Colunas Tortas – A PUC tem se mercantilizado?

Pedro – Muito, as mensalidades estão aumentando, as áreas que não geram lucro estão cada vez mais sendo fechadas, e expansão dos cursos de maior potencial mercadológico (direito, economia e administração) em detrimentos das humanidades que sempre se posicionaram com posição mais ativa e enfática em defesa do livre pensar e da produção intelectual crítica.

No ano passado, três professores de filosofia foram demitidos, e existe também uma certa “perseguição” sobre o curso de filosofia.

A PUC, no tempo em que o Dom Paulo Evaristo era o Grão Chanceler e a professora Nadir Kfouri como reitora, ela acolhia todos os professores expulsos da USP, era o que a Marilena Chauí chamava de grande guarda-chuva democrático. Ela sempre foi uma universidade de resistência e vê-la se voltando para a mercantilização, produtivismo acadêmico, indo de acordo com a corrente e não barrando esse processo neoliberalizante é realmente triste.

Colunas Tortas – Existem muitos núcleos ou grupos de estudo sobre Foucault na PUCSP?

Pedro – Nós temos nosso grupo de pesquisa em Michel Foucault, coordenado pela professora Salma Tannus Muchail (que também se manifestou sobre o caso aqui) e o professor Márcio Alves da Fonseca que já tem uma produção enorme. Organizou o colóquio de 2011, organiza seminários anuais e organiza artigos. O grupo de pesquisa não se limitava somente à PUC, pois pesquisadores de outras faculdades também faziam parte, como da USP e da São Judas. A cátedra iria ser importante não só para a PUC, mas para o meio acadêmico como um todo, com a possibilidade de conseguir resultados de importância internacional. Agora, com a essa recusa, até mesmo os áudios inéditos poderão ser perdidos.

Colunas Tortas – Na sua opinião, qual é o próximo passo que a comunidade acadêmica da PUC deve tomar em relação à negativa da cátedra?

Pedro – Manter o estado de mobilização permanente e intransigente. Na próxima semana faremos debates sobre Foucault, estamos organizando jornadas com os professores de estudo sobre o pensamento de Foucault, muitas intervenções artísticas estão acontecendo. Enfim, devemos manter nossa posição e não vamos parar até que a decisão sobre a cátedra seja revertida.

Colunas Tortas – E o que Foucault poderia dizer sobre a situação atual?

Pedro – Talvez poderíamos tentar entender o caso como uma disputa de poder, uma correlação de forças que acontece dentro da Igreja Católica. O Papa Francisco está tentando renovar a Igreja Católica, tentando dar uma importância aos presos, prostitutas, transexuais, enfim, dando importância aos setores marginalizados, assim como Foucault, que não entram nos anais da história, mas que ficam como infames, que só temos notícias em seus embates contra o poder.

Por outro lado, o Dom Odilo Scherer estava cotado para ser o novo Papa, mas foi preterido pelo Papa Francisco e tem uma posição muito diferente da dele. Scherer está em uma ala mais conservadora da Igreja. Em relação a isso, talvez a rejeição à cátedra Foucault seja uma tentativa do núcleo conservador da Igreja Católica que está em São Paulo de reafirmar seu descontentamento em relação ao Papa atual, utilizando a negativa da constituição da cátedra como bucha de canhão, como forma de protesto contra um novo papado que dá voz aos setores excluídos da sociedade.

Colunas Tortas – Pra terminar, por que Foucault?

Pedro – Porque Michel Foucault foi um pensador extremamente rico, multifacetado, cujo pensamento é extremamente importante para a gente entender o contemporâneo e penetrá-lo a partir de outras perspectivas, a partir de outros olhares.

Mesmo trinta anos após a sua morte, eu entendo que as problematizações que ele lançou, a maneira como ele questionava o estatuto universal do uno, continuam alimentando e inquietando novas gerações de pessoas que ainda veem em seu pensamento e nas suas reflexões históricas, filosóficas, literárias e epistemológicas, muita coisa para se pensar de outra forma a atualidade e, desta forma, agir de outra forma sobre a realidade. Neste sentido, sua máquina conceitual, sua “caixa de ferramentas”, ainda tem muita serventia para reflexão e ação contemporânea.

Entrevista póstuma com Foucault

Foi a mestra em filosofia Ana Westphal que bolou uma entrevista fictícia, com falas adaptadas dos Ditos e Escritos de Foucault, que pode ser conferida aqui.

A Carta Capital também se debruçou sobre o caso com este vídeo:

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