As contradições – Arqueologia do Saber

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Da série “A Arqueologia do Saber“.

Michel Foucault
Michel Foucault. Imagem: Colunas Tortas.

A história das ideias, diferente da arqueologia, tem na contradição uma certeza da coerência.

As contradições são encontradas, isoladas, separadas para que, no fim, seja possível encontrar o núcleo de coerência. O papel da contradição, portanto, é o do caos. A contradição esconde, atua num limiar entre o dito e o pensado e precisa ser superada para que a planície da coerência seja encontrada.

A contradição não está, portanto, já no próprio desejo do homem, das influências que sofrem, nas condições que vivem. É necessário sempre admitir que a própria comunicação tem como objetivo desfazer uma contradição aparente.

É possível encontrar coerências a partir da análise diacrônica da vida de um indivíduo (sua biografia) ou da prática de uma ciência (sua coerência de conceitos, de objetivos), mas sempre se percebe que o objetivo da concatenação regular de ideias sobre um determinado tema serve para mostrar que a contradição não é mais que o reflexo da superfície, diz Foucault[1].

No fim do trabalho de investigação de um historiador das ideias, é possível encontrar a contradição fundamental do discurso analisado,

Tal contradição, longe de ser aparência ou acidente do discurso, longe de ser aquilo de que é preciso libertá-lo para que ele libere, enfim, sua verdade aberta, constitui a própria lei de sua existência: é a partir dela que ele emerge; é ao mesmo tempo para traduzi-la e superá-la que ele se põe a falar; é para fugir dela, enquanto ela renasce sem cessar através dele, que ele continua e recomeça indefinidamente, é por ela estar sempre aquém dele e por ele jamais poder contorná-la inteiramente que ele muda, se metamorfoseia, escapa de si mesmo em sua própria continuidade. A contradição funciona, então, ao longo do discurso, como o princípio de sua historicidade[2].

São, portanto, dois tipos de contradições aí possíveis:

  1. O primeiro tipo mostra uma coesão profunda que denuncia a superficialidade das contradições. O discurso é, portanto, uma figura ideal que deve ser separada dos objetos acidentais que lhe comprometem;
  2. O segundo tipo mostra dois pontos de contradição, o superficial, que precisa ser quebrado para que se encontra aquilo que fundamenta o discurso – e o que o fundamenta é a contradição que aprece no fim da análise, que serve ao discurso como princípio.

A arqueologia, por sua vez, não brinca com contradições. Não são nem aparências nem princípios fundamentais. “São objetos a ser descritos por si mesmos, sem que se procure saber de que ponto de vista se podem dissipar ou em que nível se radicalizam e se transformam de efeitos em causas”[3].

Sendo assim, não importa para a arqueologia resolver as contradições ou reduzi-las ao seu mínimo: ela as descreve conforme suas funções e variações. Em vez de buscar coerências e temáticas comuns, a arqueologia descreve espaços de dissensão.

Esses espaços são descritos após a identificação das diferentes contradições, que se separam em:

  1. Contradições que se localizam no plano das proposições. Como “no século XVIII, a tese do caráter animal dos fósseis opõe-se à tese mais tradicional de sua natureza mineral”[4]. Essas contradições nascem da mesma formação discursiva, segundo as mesmas funções enunciativas: são arqueologicamente derivadas.
  2. O segundo tipo Foucault chama de contradições extrínsecas. São aquelas pertencentes às formações discursivas diferentes, como o fixismo de Lineu e o evolucionismo de Darwin, que se encontram nos limites da história natural do primeiro com a biologia propriamente dita do segundo.
  3. O terceiro tipo é denominado de contradições intrínsecas. Estão no meio termo das duas descritas acima. Se desenrolam na mesma formação discursiva e seu nascimento gera subsistemas dentro dos sistemas de formações. O exemplo de Foucault são as análises “metódicas” e “sistemáticas” na história natural, já que esta contradição não é terminal, não trata do mesmo objeto, não coloca diretamente em oposição final os termos que se contradizem; na verdade, são duas maneiras diferentes de se formar enunciados, com objetos que podem ser diferentes, conceitos, posições de subjetividade, escolhas estratégicas, enfim, tudo aquilo que é importante na análise arqueológica.

As contradições arqueologicamente intrínsecas também são descritas pelo seu nível e a contradição da história natural acima exemplificada pode ajudar a entender essas nivelações. Este é o tipo de contradição que permanece na formação discursiva e abre novas possibilidades com subsistemas, podendo surgir de:

  • Uma inadequação de objetos (como a descrição do aspecto geral da planta contra a descrição de algumas de suas características); divergência de modalidades enunciativas (como na linguagem rigorosa da análise sistêmica e a linguagem livre da análise metódica);
  • Incompatibilidade de conceitos (como o conceito de gênero, que é mais ou menos arbitrário na análise sistêmica, enquanto na análise metódica, precisa explicar o gênero real de cada espécie);
  • Ou na pura exclusão de alguma opção teórica (afinal, é a taxonomia sistemática que torna o fixismo possível e exclui qualquer possibilidade de transformação, descrita pela análise metódica).

A formação discursiva, Foucault afirma, não é um texto ideal, não é uma folha de contradições que pede por ajuda para encontrar a coerência que lhe é de direito, nem mesmo um poço profundo que pede a descoberta da contradição fundamental que lhe dá possibilidade de ser o que é.

Se trata, antes disso, de um espaço de dissensões múltiplas, em que as oposições de diferentes níveis devem, antes de tudo, ser descritas.

Referências

[1] FOUCAULT, Michel. As Contradições IN: A Arqueologia do Saber. 8ª edição, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012, p.183.

[2] FOUCAULT, Michel. As Contradições… p.185.

[3] FOUCAULT, Michel. As Contradições… p.186.

[4] FOUCAULT, Michel. As Contradições… p.188.

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