Temporalidade contemporânea a partir de Zygmunt Bauman – DROPS #11

Índice

Introdução

Na relação entre tempo e espaço, o primeiro termo é justamente aquele que pode ser manipulável, é o elemento que pode se flexibilizar, é a parte que pode ser rompida, encurtada. O tempo pode ser percebido de maneira diferente justamente quando o ritmo da própria existência oferece novas formas de comunicação, transporte, comércio, etc.

As novas formas de existir e encontrar um lugar para si no mundo durante a modernidade sólida foram baseadas na conquista do espaço e, portanto, seu marco pode ser observado no uso de máquinas velozes (sejam elas informacionais ou mecânicas). O mundo concreto conquistado a partir de máquinas que, em seu funcionamento, multiplicam o acesso ao espaço. A conquista do espaço exige um tempo em ritmo lento, um tempo de vigilância, de controle, que será utilizado na administração dos novos territórios incorporados. Zygmunt Bauman nomeia de era do hardware[1].

No entanto, é na passagem da era do hardware para o capitalismo de software, da modernidade líquida, que a fixidez territorial perdeu seu sentido tradicional. Junto à percepção veloz das distâncias, a fixidez do indivíduo no lar tende a diminuir: começando pelas próprias carreiras, que deixaram de existir na prática. A expectativa de trabalhar por toda a vida na mesma empresa já não é mais possível. Pior, a própria relação de trabalho se modifica, se flexibiliza. O tempo, que era percebido num ritmo rotineiro, se fixava ao solo, ao espaço. Na modernidade líquida, o tempo se desprende do solo, torna-se imediato, perde, assim, seu valor. O objetivo deste DROPS é exibir a oposição entre presença e ausência na contemporaneidade com base em nossa Janta Filosófica nº38 com a socióloga Claudia Sciré.


Receba tudo em seu e-mail!

Assine o Colunas Tortas e receba nossas atualizações e nossa newsletter semanal!


Sempre conectados

Nada acontece no mundo e fica desapercebido ao olhar público ou dessensibilizado em seu impacto público. Com uma esfera tecnológica de informação extremamente sofisticada, não há mais ponto cego no mapa terrestre nem nas ações humanas. Segundo Bauman:

A miséria humana de lugares distantes e estilos de vida longínquos, assim como a corrupção de outros lugares distantes e estilos de vida longínquos, são apresentadas por imagens eletrônicas e trazidas para casa de modo tão nítido e pungente, vergonhoso ou humilhante como o sofrimento ou a prodigalidade ostensiva dos seres humanos próximos de casa, durante seus passeios diários pelas ruas das cidades.[2]

Novamente, a temporalidade se modifica e nosso ritmo contemporâneo favorece o imediatismo do conhecimento, o alarmismo e, assim, a geração de medos propriamente líquido-modernos. Se entendemos que, num mundo aberto à livre-circulação, tudo aquilo que acontece em um lugar específico do mundo afeta de alguma forma como as pessoas de todos os outros lugares vivem, então

nada pode verdadeiramente ser, ou permanecer por muito tempo, indiferente a qualquer outra coisa: intocado e intocável. O bem-estar de um lugar, qualquer que seja, nunca é inocente em relação à miséria de outro. No resumo de Milan Kundera, essa “unidade da espécie humana”, trazida à tona pela globalização, significa essencialmente que “não existe nenhum lugar para onde se possa escapar”.[3]

Estamos fadados à conexão na contemporaneidade e, assim, somos sempre demandados por um sistema informacional de rapidez e por um sistema de trabalho que se acolhe na rapidez para aumentar a produtividade e controle sobre a classe trabalhadora.

Temporalidade na presença

O espaço informacional, definitivamente despregado do solo, permite uma temporalidade líquida, rápida, em que os espaços físicos são ignorados pela possibilidade de conexão informacional. O acesso às pessoas, portanto, o acesso à intimidade, portanto, a quebra da privacidade é facilitada através dos mecanismos tecnológicos informacionais. Segundo Claudia Sciré:

A ausência física no espaço bidimensional permite o acesso às pessoas através do espaço informacional. Se a pessoa não está aqui, pode-se ligar, mandar uma mensagem, sendo assim, pode-se trazer sua presença à força, coisa nova na história da humanidade. A carta demoraria dias para chegar, um telegrama poderia chegar no mesmo dia, mas o gap de temporalidade já não dá conta da conexão instantânea, simultânea, múltipla e acelerada que caracteriza nossas relações.[4]

A partir deste tipo de conexão, a presença é transformada em disponibilidade. Desta forma, a oposição entre presença e ausência se transforma em uma oposição entre disponibilidade e indisponibilidade:

Este tipo de conexão nos permite ficar sempre disponíveis e esta disponibilidade é entendida como presença, mas não é de fato presença. A presença de fato depende de se estar inteiro na relação com o outro, o que raramente acontece quando se está com vários aplicativos abertos e fazendo múltiplas coisas. Você pode até parar cinco minutos para estar presente alí, mas se começam a chegar outras mensagens que você julgue importante, esta presença é compartilhada, dividida. Nossa nova realidade permite estejamos mais ausentes que presentes, mas sempre estamos conectados. Somos conectados ausentes.[5]

E, enquanto conectados, estamos imersos num fluxo temporal propriamente maquínico. No entanto, nosso corpo é orgânico, o ritmo maquínico não atende nem corresponde às necessidades orgânicas, sociais, psicológicas e culturais do indivíduo humano.

Escravidão maquínica

O ritmo da máquina transferido para o corpo revela, no nível social, uma escravidão maquínica, ou seja, uma escravidão ao ritmo da máquina, que é, em resumo, uma escravidão ao ritmo informacional:

Não temos o raciocínio de uma máquina, nem sua velocidade e é bom que não tenhamos, embora pareça que fazemos questão de ter, o que embaralha a temporalidade. Queremos seguir um ritmo de vida em que queremos fazer milhares de coisas, o que é impossível fazer, ainda mais na pandemia, então queremos estudar, fazer mil cursos, ler, estar conectado e ao mesmo tempo responder e-mails, trabalhar.[6]

Num lapso de inconsciência acerca da própria divisão da vida em sociedade, a esfera do trabalho se confunde com as esferas da vida fora do trabalho e passa a ameaçar nossa própria existência, nossa própria emancipação ainda não alcançada:

Os tempos do trabalho se confundem com os tempos da vida de uma maneira que é ameaçadora à nossa existência. Sermos acessados dez horas da noite com uma mensagem no Whatsapp do grupo do trabalho é muito prejudicial à nossa existência. Parece uma bobagem, mas isso pode gerar ansiedade, senso de urgência, a sensação de que, ao ler a mensagem pela noite, pela manhã a mensagem já estará alí lhe esperando, o trabalho já estará pronto para ser executado.[7]

E o golpe de dominação acontece justamente pelo uso do Whatsapp nos celulares privados de funcionários. A urgência na resposta não só se faz como obrigatória, mas como item de avaliação do trabalho:

Eu me vejo conectada porque eu tenho que falar com as pessoas que eu quero falar. Se eu estou fora do tempo do trabalho, eu quero falar com as outras pessoas dos meus circulos e eu vou ter que usar o Whatsapp. Então, a menos que eu tenha um celular para o trabalho e o desligue após o horário do expediente, esta estratégia é perversa, pois empregadores podem fazer isso de propósito, já que sabem que seus empregados não deixarão de usar o aplicativo, então é perverso utilizar o Whatsapp, pois assim se tenta garantir que o empregado esteja conectado para ver as mensagens que chegam.[8]

Desta forma, a escravidão maquínica, ou a escravidão à temporalidade informacional, adoece o corpo orgânico e se desenrola como se fosse o ápice do desenvolvimento humano.

Considerações finais

Entende-se que, para Bauman, é impossível imaginar uma vida humana isolada do restante do mundo. Os acontecimentos mais longínquos afetam o tempo presente mesmo em espaços extremamente distantes. Se a conexão é regra, a temporalidade desta conexão na contemporaneidade é rápida, veloz, pode ser pensada sob a metáfora conceitual da liquidez.

A partir da liquidez nas relações de trabalho, a temporalidade contemporânea desregula relações entre diferentes esferas: a da vida no trabalho e aquela que engloba todas as outras. Trabalho, lazer e descanso estão presentes no mesmo meio de interação rápida.

Referências

[1] BAUMAN, Zygmunt. Tempo e Espaço IN Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

[2] BAUMAN, Zygmunt. A vida líquido-moderna e seus medos IN Tempos líquidos; tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

[3] Idem.

[4] Colunas Tortas. A construção de um novo social: celulares, mercado e mundo C/ Claudia Sciré | Janta Filosófica [38]. Canal do Colunas Tortas, 2022. Acesso em 29 mai 2022. Disponível em <<https://youtu.be/WCqs2LiMiK0>>

[5] Idem.

[6] Idem.

[7] Idem.

[8] Idem.

Deixe sua provocação! Comente aqui!