Criança que fica no quarto não mora na casa

É notável como a criança é tratada como hóspede na medida em que é desumanizada. E, claro, animalizada. A criança, enquanto um bicho que ainda não é humano, na família tradicional irá se tornar humano através da disciplina.

Este post é a adaptação de um vídeo do YouTube do Colunas Tortas

Há crianças que moram na casa dos pais, não em suas casas. Eu acho que vale um comentário aqui sobre a relação hierárquica que se tem na instituição familiar. Um tipo de hierarquia em que a criança é um fardo que se aguenta, um fardo que se toma conta, mas que, ao mesmo tempo, na ambivalência presente em qualquer relação, o fardo que supostamente se ama.

Na estrutura da família ideal, a figura da criança é daquela que precisa obedecer, é como um humano em falta, lhe falta algo, é necessário que cresça para que seja completo, para que tenha, por exemplo, desejos, vontades e etc.

Essa trajetória acontece sob o signo da criação e não do cuidado. É claro que é necessário que se tenha cuidado com crianças e que isso pode de fato acontecer, mas a palavra que simboliza a presença da criança na família tradicional ideal e que serve de referência em muitos lares é a da criação.

Se a criança está lá pra ser criada, então ela não é dona de um espaço, mas é visita numa casa que não é dela e, não sendo dela, a famosa frase “a porta da rua é a serventia da casa” está sempre presente como uma ameaça e um sinal. Um sinal de que há alguém que determina se você fica dentro da casa ou não no fim do dia.
Mas é claro que isso não é literal. No fundo, é o sinal de que a criança não tem sua humanidade reconhecida.

E nesse contexto, o quarto é o seu lugar. É claro que estou descrevendo um extremo que pode muito bem se manifestar de maneiras muito mais leves e delicadas, muito menos extravagantes ou violentas. Entretanto, se o interior da casa não é sua casa, então o quarto é seu lar, porque o quarto é o lugar em que, talvez, não precise suportar quem claramente não lhe trata como alguém que faz parte, mas como fardo.

Quando o quarto não é esse lugar, pode ser a rua, a casa de outras pessoas, enfim, um outro lugar. Foucault elaborou o conceito de heterotopia, outros lugares, são lugares que se situam no interior de espaços normatizados mas que, mesmo estando em seu interior, funcionam de maneira diferente na medida em que as pessoas que participam se despem daquilo são fora deste espaço e se transformam em outro ao adentrarem neles.

A criança se despe de subalternidade do lado de fora do quarto para vestir a roupa da autonomia e da humanidade do lado de dentro.

Uma dimensão disso está na presença dos “cantinhos das crianças”. Se estiver fora do cantinho, parece bagunça, porque está fora do lugar, porque o lugar não é aquele. Mesmo não sendo necessariamente bagunça, parece bagunça, porque está fora do lugar. Não deveria estar ali, logo, bagunça.

Também é notável como a criança é tratada como hóspede na medida em que é desumanizada. E, claro, animalizada. A criança, enquanto um bicho que ainda não é humano, na família tradicional irá se tornar humano através da disciplina.

A disciplina é o elemento principal nesta humanização do bicho criança que vai virar um adulto disciplinado, ou seja, com o corpo adequado à obediência. Aimé Cesaire em Discurso sobre o colonialismo, diz que a possibilidade de exercer poder infinito faz com que o sujeito se torne brutalizado, ele inverte a relação que seria da brutalidade do alvo da relação de poder e, a partir da posição subalterna, se levanta para denunciar a própria brutalidade daqueles que parecem ser civilizados e bondosos.

Adaptando aqui, a suposta brutalidade das crianças que precisam ser disciplinadas demonstra a real brutalidade do adulto que precisa inserir a criança num processo de disciplinamento que só lhe garante a entrada no espaço dos humanos depois de um certo tempo e de aguentar certas situações. Depois de reconhecer que a casa que mora não é sua, as é de outra pessoa, é deste outro que será a diferença e a referência. Aquilo que você não é e aquilo que você deveria ser, um humano supostamente legítimo. Um humano que já não é mais bicho.

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E, por fim, a vida desta criança, disciplinada pela instituição familiar, termina em ser a responsável pelo disciplinamento de outro bicho que um dia será humano.

O foco aqui é a estrutura tradicional familiar, que pode não existir concretamente na figura do pai, mãe e filho dentro de casa no Brasil, pois nosso país é lar de muitas formas de famílias, mas existe muito enquanto tipo ideal, enquanto forma ideal que se impõe como norma e como referência.

Claro, a introspecção por si só não é um problema, é algo difícil de ser incentivada em uma cultura da expansão como a nossa, falando em termos gerais.

Mas é necessário dizer também que a introspecção poderia acontecer em toda a casa, na sala, fora do quarto, enfim, mas o quarto acaba sendo um refúgio. Mas refúgio de quê? Acho que esse é o ponto.

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