Índice
- Introdução;
- Humor é fruto da criatividade do humorista;
- Racismo recreativo;
- Considerações finais;
- Referência.
Introdução
Umas das características das teorias sociais é a tentativa de explicar a regularidade nas práticas sociais. Ou seja, ao assumir que nós somos seres sociais e que as práticas sociais são coisas que podem ser vistas em sua própria realidade, a regularidade aparece como objeto a ser explicado a partir de causas que lhes são próprias. Evidentemente, a realidade é mais complexa que o nível sociológico de análise, mas o estabelecimento de uma ciência envolve justamente o estabelecimento de um objeto próprio e de um conjunto de ferramentas teóricas que possam contribuir na explicação dos fenômenos que circundam o objeto.
Gostaria de utilizar aqui a plataforma teórica foucaultiana baseada no eixo saber-poder-sujeito para contextualizar as observações acerca do humor e de sua indissociável condição de produto cultural como bem observa Adilson Moreira (2019) em seu livro Racismo Recreativo.
Humor é fruto da criatividade do humorista
Em qualquer sociedade, os processos de conhecimento e reconhecimento em relação ao sujeito são incessantes. Esses processos acontecem desde sua introdução numa posição específica no interior dos discursos que participa até na marcação do poder sobre seu corpo. O sujeito, assim, é um resultado do atravessamento dos discursos que o compõe e do poder que lhe marca. A introdução do sujeito na cultura, esta entendida enquanto um discurso, se dá justamente na caracterização que a cultura lhe entrega e, ao mesmo tempo, a partir das possibilidades discursivas que a cultura lhe permite, lhe proíbe e, no limite, lhe obriga. Parafraseando e alterando Barthes, a cultura é fascista, pois ela te obriga a significar.
O humor, filho legítimo da cultura, é resultado da própria vida em sociedade. Ele acompanha, seja justificando ou contradizendo, os valores sociais existentes. O humor trabalha diretamente com eles, os ironizando, justificando ou até exagerando. O humor, assim, não é resultado da criação produzida na mente dos humoristas, mas, pelo contrário, o humorista que é resultado da própria cultura e do próprio humor.
Ao contrário do que muitos atores sociais pensam, o humor não é mero produto de ideias que surgem espontaneamente nas cabeças das pessoas. As piadas que elas contam são produtos culturais, são manifestações de sentidos culturais que existem em dada sociedade. Por esse motivo, o humor não pode ser reduzido a algo independente do contexto social no qual existe. A produção do efeito cômico depende dos significados culturais existentes nas mensagens que circulam nas interações entre os indivíduos. Ele é, portanto, um tipo de mensagem que expressa o status cultural de que as pessoas gozam em uma determinada comunidade (Moreira, 2019, p. 63).
O efeito cômico e seus desdobramento, assim, depende intimamente da posição ocupada pelo enunciador no interior do grupo que pertence em relação aos coenunciadores. Desta maneira, uma piada autodepreciativa feita por um membro legítimo e respeitado de um grupo tem efeito qualitativamente diferente da mesma piada feita por um membro rebaixado.
Da mesma forma, a construção da figura do outro, daquele que está fora do grupo, também funciona como um estabelecimento de uma hierarquia social, geralmente baseada no normal e no anormal. O outro, cadeirante, alvo da piada, se torna um sujeito menor; ao mesmo tempo, caso a piada constranja a própria hierarquia social narrando uma reviravolta, quando o efeito cômico passa a ser a revanche ou o próprio preconceito, o humor ainda salienta a existência desta hierarquia, mas torna menor aquele que a valida.
Historicamente, o Brasil produz humor baseado em membros de grupos minorizados politicamente. Estas piadas não representam o marco inicial dos processos de opressão a esses grupo, mas funcionam como um mecanismo que revela e garante a sua existência. A piada racista confere um tratamento desfavorável ao negro no momento da piada, mas também é a manifestação do caldo cultural racista que lhe dá condição de possibilidade.
Moreira salienta a função legitimadora do humor no interior de relações de tensão tanto sociais como raciais: “Vemos então que, mais do que simples mensagens que fazem as pessoas rirem, o humor assume a forma de um mecanismo responsável por medidas que legitimam arranjos sociais existentes” (Moreira, 2019, p. 63).
As figuras construídas discursivamente acerca dos grupos minorizados funcionam manifestando a própria condição de opressão que esses grupos se situam e, ao mesmo tempo, também conferem o espaço perfeito para que sejam oprimidos. O humor, assim, avisa a qual lugar cada um pertence e guia cada indivíduo para que se acostume com sua posição.
Os estereótipos derrogatórios sobre minorias raciais expressam então entendimentos sobre os lugares que os diversos grupos sociais devem ocupar, as supostas características dessas pessoas, os limites da participação delas na estrutura política, a valoração cultural que eles podem almejar e ainda as oportunidades materiais às quais podem ter acesso (Moreira, 2019, p. 63).
Um sujeito que é alvo predileto de piada é, automaticamente, um sujeito desqualificado. A sua posição revela a indisposição em lhe oferecer oportunidades materiais ao longo da vida. Ou seja, é-se uma piada por ser minorizado e se é minorizado por ser uma piada. O humor constrói uma redoma de violência insuperável pelo alvo no interior da dinâmica violenta.
Racismo recreativo
Entende-se, assim que o racismo recreativo não é a expressão do humor individual de quem o pratica, mas é uma política cultural no interior de uma sociedade racista que uniu a cordialidade, a amenização dos conflitos, com a permanência da aversão à pessoas não brancas. Adilson Moreira nomeia esta narrativa da democracia racial de uma “transcendência racial”:
Pensamos que o racismo recreativo é uma política cultural característica de uma sociedade que formulou uma narrativa específica sobre relações raciais entre negros e brancos: a transcendência racial. Esse discurso permite que pessoas brancas possam utilizar o humor para expressar sua hostilidade por minorias raciais e ainda assim afirmar que elas não são racistas, reproduzindo então a noção de que construímos uma moralidade pública baseada na cordialidade racial. Esse projeto de dominação racial expressa a aversão que brancos sentem em relação a negros, mas permite que eles ainda assim apareçam como pessoas comprometidas com a igualdade. Dessa forma, o caráter aversivo e o caráter simbólico do racismo recreativo operam paralelamente para referendar uma ordem política que cria mecanismos culturais e legais para impedir a mobilização política em torno da questão racial (Moreira, 2019, p. 63).
Sendo assim, na piada, há a dificuldade de mobilizar as questões políticas concernentes ao racismo, na medida em que, enquanto humor, recebe um tratamento ameno, específico numa sociedade cordial e passiva, que tende a apaziguar o conflito latente manifestado na prática humorística. O próprio humor, por não ser direto ou literal, já constrói um espaço de apaziguamento em que é possível a prática racista sem que a vítima possa se defender.
É interessante compreender que a defesa da vítima não pode acontecer imediatamente também pelo humor, pelo menos não no nível da questão racial, já que brancos não são racializados e, portanto, sua raça não é uma marca socialmente reconhecível. A piada racista sobre brancos não tem o mesmo efeito que a piada racista sobre negros, na medida em que nem mesmo existe. Como o racismo contra brancos não existe, tal piada se transforma em uma declaração de ingenuidade, vulnerabilizando mais ainda a vítima.
Pior, a reação do oprimido, neste caso, pode resultar numa auto realização da profecia racista: o negro respondão, grosseiro e agressivo passa a tomar lugar numa trama em que a figura da pessoa negra já está, de antemão, prescrita e descrita.
É muito importante observar que os estereótipos descritivos e prescritivos expressos em piadas racistas são produto de percepções que naturalizaram a condição inferior do negro na nossa sociedade. Como afirma Gislene Aparecida dos Santos, a condição subordinada da população negra brasileira deve ser compreendida a partir das diversas políticas culturais que foram utilizadas para legitimar diferentes processos de marginalização racial. Entre elas estavam as noções da inferioridade moral e intelectual, de uma sexualidade degradada, da incapacidade de viverem dentro de uma sociedade organizada, da indolência constitutiva, da inferioridade estética, imagens que os aproximavam mais de animais do que de seres humanos (Moreira, 2019, p. 64).
Alguns personagens do humor brasileiro podem ser lembrados para contribuir com a citação acima:
- Mussum: o negro alcoólatra d’Os Trapalhões, alvo das piadas racistas que tinha como uma de suas claques a reação ao racismo. Antônio Carlos Bernardes Gomes, que dava vida ao personagem Mussum, era músico e compositor conhecido no samba carioca.
- Vera Verão: negra drag queen, personagem humorístico da Praça é Nossa tendo como claque os momentos em que era deparada com o fato de não ser feminina o bastante. Jorge Lafond, que dava vida ao personagem, era ator e dançarino.
- Adelaide: este personagem de Rodrigo Sant’Anna no semanal Zorra Total é um escárnio à figura da mulher negra.
- Clóvis Basílio dos Santos: o negro ator pornô ultras sexualizado que usa do humor para manifestar esta animalidade sexual.
Considerações finais
O racismo recreativo, como parte elementar do mecanismo de manutenção das tensões raciais escamoteadas na cordialidade brasileira, atua no complexo maior de opressão racial, entendida como
a presunção de que apenas pessoas brancas são merecedoras de respeitabilidade social porque só elas devem ser consideradas como agentes capazes de atuar de forma competente no espaço público, o que, no contexto da modernidade, é um requisito fundamental para o reconhecimento da plena humanidade dos indivíduos (Moreira, 2019, p. 65).
Diferentemente daquilo que é compreendido numa abordagem individualista ou interacional, o sentido racista da piada não é devedor somente dos sujeitos que a escutam. Pelo contrário, os sujeitos que escutam a piada racista são devedores do sentido que não só preenche o humor, mas que também os preenche enquanto espectadores e garantidores do efeito cômico.
Referências
Moreira, Adilson. Racismo recreativo. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.

Instagram: @viniciussiqueiract
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.
Autor dos e-books:
Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;
Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.
