A arqueologia do Orientalismo em Edward Said

Edward Said empreendeu uma arqueologia do Orientalismo, mas como ele a fez? Clique aqui e entenda o que o autor pegou de Foucault.

Edward Said, autor do livro Orientalismo, o oriente como invenção do ocidente.
Foto: Sipa Press / Rex Features, 1996.

Quando se fala a respeito do Oriente, de que se fala? É realmente do Oriente? Edward Said, em Orientalismo, o Oriente como invenção do Ocidente, não pretende organizar linearmente aquilo que ocidentais falam sobre o Oriente, nem mesmo recolher todos os enunciados a respeito do Oriente já proferidos e documentados por pensadores do oeste do globo. Seu objetivo é fazer uma arqueologia do Orientalismo, uma análise do discurso.

Edward Said, portanto, aplica o procedimento foucaultiano da arqueologia para entender o Orientalismo não como uma ideologia, uma prática irônica, cínica ou mau. Seu objeto de análise não está na consciência dos proferidores do discurso orientalista, mas sim na própria constituição deste discurso.

De início, o Orientalismo começa como guia e produto de uma visão de dominação do Ocidente, que vê no Oriente seu contrário ainda não descoberto e sempre perigoso,

Defendo o ponto de vista de que existe uma diferença entre um conhecimento de outros povos e outras eras que resulta da compreensão, da compaixão, do estudo e da análise cuidadosos no interesse deles mesmos e, de outro lado, conhecimento – se é que se trata de conhecimento –  integrado em uma campanha abrangente de autoafirmação, beligerância e guerra declarada. Existe, afinal, uma profunda diferença entre o desejo de compreender por razões de coexistência e de alargamento de horizontes, e o desejo de conhecimento por razões de controle e dominação externa. [1]

Essa diferença está à mostra nos discursos de políticos do império, especialistas árabes que traem suas origens deliberadamente ou em cientistas ocidentais que, no ímpeto de conhecer o Oriente, são atravessados sem nem mesmo saber por um discurso mistificador a respeito do leste.

“Ninguém tem necessidade de saber árabe ou persa ou mesmo francês para pontificar sobre como o efeito dominó da democracia é exatamente aquilo de que o mundo árabe necessita”[2] critica Said, sobre o discurso orientalista. Este discurso não é uma forma de limitar a fala a respeito do oriente, não é um jeito de dizer aquilo que pode e não pode ser dito, mas é uma forma de fazer dizer.

É tarefa do Orientalismo, sendo assim, homogeneizar um amontoado de indivíduos que não necessariamente têm algo em comum além do lugar em que vivem ou nascem. É criar uma identidade fictícia a um montante heterogêneo de pessoas. E essa criação acontece positivamente, já que o discurso não só mostra o que pode ser dito como coloca a competência de se dizer para cada sujeito que é atravessado por ele. O Orientalismo é um discurso que visa colocar o Oriente em um lugar de destaque na experiência ocidental.

Achei útil neste ponto empregar a noção de discurso de Michel Foucault, assim como é descrita por ele em Arqueologia do Saber e em Vigiar e Punir. Minha argumentação é que, sem examinar o Orientalismo como um discurso, não se pode compreender a disciplina extremamente sistemática por meio da qual a cultural europeia foi capaz de manejar – e até produzir – o Oriente política, sociológica, militar, ideológica, científica e imaginativamente durante o período do pós-iluminismo.[3]

Sendo assim, o que Edward Said quer com seu livro é construir, como já dito acima, uma arqueologia do Orientalismo. O Oriente sempre foi um tema envolvido por relações e interesses inevitáveis, impossíveis de se ver na hora da enunciação e não pensados pelo sujeito falante.

A minha ideia é de que o Orientalismo deriva de uma intimidade particular experimentada entre a Grã-Bretanha, a França e o Oriente, que até o início do século XIX significava apenas a Índia e as terras bíblicas. Do começo do século XIX até o fim da Segunda Guerra Mundial, a França e a Grã-Bretanha dominaram o Oriente e o Orientalismo; desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos dominam o Oriente, abordando-o como a França e a Grã-Bretanha outrora fizeram.[4]

O discurso em Foucault

Para Foucault, o discurso não é um ato de fala, uma frase ou uma proposição. Não há similaridade entre o discurso e as estruturas formais da construção de uma sentença com sentido ou de uma afirmação correta: o lugar do discurso é na superfície do texto.

Esta superfície precisa ser entendida como aquilo que se encontra no dito, não em significações ocultas que estariam latentes na fala, motivações não ditas pelo sujeito falante ou até mesmo motivações não sentidas por ele. A superficialidade da análise enunciativa de Foucault está na tentativa de somente querer entender o enunciado em sua raridade, não em seu mistério (ou seja, entender porque exatamente este enunciado foi dito e não qualquer outro para uma dada situação).

Dessa forma, o que interessa para Foucault é observar claramente a formação discursiva, descrita pelo filósofo na Arqueologia do Saber,

no caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva.[5]

Esta formação discursiva é uma leitura dinâmica da construção do discurso e sua construção é regida por regras próprias,

chamaremos de regras de formação as condições a que estão submetidos os elementos dessa repartição (objetos, modalidade de enunciação, conceitos, escolhas temáticas). As regras de formação são condição de existência, mas também de coexistência, de manutenção, de modificação e de desaparecimento) em uma dada repartição discursiva”.[6]

Com base no procedimento foucaultiano, Said pode afirmar que,

o Orientalismo não é um simples tema ou campo político refletido passivamente pela cultura, pela erudição ou pelas instituições; nem é uma grande e difusa coletânea de textos sobre o Oriente; nem é representativo ou expressivo de alguma execrável trama imperialista “ocidental” para oprimir o mundo “oriental”. É antes a distribuição de consciência geopolítica em textos estéticos, eruditos, econômicos, sociológicos, históricos e filológicos; é a elaboração não só de uma distinção geográfica básica (o mundo é composto de duas metades desiguais, o Oriente e o Ocidente), mas também de toda uma série de “interesses” que, por meios como a descoberta erudita, a reconstrução filológica, a análise psicológica, a descrição paisagística e sociológica, o Orientalismo não só cria, mas igualmente mantém; é, mais do que expressa, uma certa vontade ou intenção de compreender […] o que é um mundo manifestamente diferente.[7]

Divergências com Foucault

A diferença da arqueologia do Orientalismo, proposta por Edward Said, em comparação com o procedimento formulado por Foucault, está na consideração dos indivíduos particulares como centrais no desenvolvimento do discurso.

Enquanto Foucault admitia que os indivíduos não eram o foco da análise discursiva ― pois o sujeito seria uma posição vazia em que indiferentes indivíduos ocupariam o espaço conforme as relações que participam no discurso ―, para Said, pelo menos em relação ao Orientalismo, é necessário entender que alguns indivíduos têm papel central.

Acredito na marca determinante de escritores individuais sobre o que seria de outro modo um corpo coletivo e anônimo de textos a constituir uma formação discursiva como o Orientalismo. A unidade do grande conjunto de textos que analiso se deve em parte ao fato de que eles frequentemente se referem um ao outro: o Orientalismo é afinal um sistema para citar obras e autores.[8]

No entanto, para além deste ponto particular, a arqueologia de Said ainda mantém os traços de Foucault: não há uma tentativa de construir a história cronológica do Orientalismo, não há uma tentativa de ligar todos os textos a respeito do Oriente, mas há uma tentativa de organizar em séries os enunciados orientalistas, não todos, mas aqueles que participam, fazem existir e contribuem para o discurso orientalista.

A arqueologia no fato

Para descrever a formação discursiva do Orientalismo, Said cita ingleses da invasão britânica ao Egito, como Arthur James Balfour – primeiro-ministro do Reino Unido entre 1902 e 1905 – que instruiu a Câmara dos Comuns a lidarem com os problemas básicos da permanência do exército britânico no Egito, em que parece demonstrar saber mais sobre os egípcios do que eles mesmos e pretende, desta forma, libertá-los de sua barbárie e comandá-los de maneira que alcance o nível cultural antigo, de uma história remota que somente os ingleses estudiosos do Orientalismo saberiam.

É característica de discursos como o dele ou de Evelyn Baring (o lorde Cromer), também estadista inglês, até mesmo dos estudiosos franceses sobre o Oriente, lidar com o Egito (e com o Oriente em geral) como algo que existe exatamente igual ao que o conhecimento ocidental disponibiliza.

É também com base neste suposto conhecimento que Napoleão, para tomar o Egito, parte de livros do Conde de Volney (como Voyage en Syrie et en Egypte, de 1789) como verdade absoluta a respeito do território a ser conquistado.

Ao mesmo tempo, é com o mesmo princípio de que a verdade oriental está no Ocidente que estadistas estadunidenses utilizam pesquisadores com argumentos tipicamente orientalistas para justificar suas ações contra o islamismo. Estes pesquisadores, aliás, podem ou não ser orientais, isso não importa para o discurso, apesar de ser relevante para os objetivos dos Estados Unidos em mostrar alguma imparcialidade para a guerra ao Oriente Médio.

Said demonstra como o Orientalismo faz parecer que os territórios ocupados por tropas militares ocidentais pedem pela ocupação, como se a base civilizacional das terras do Oriente fosse a própria ocupação, como se a fundação da sociedade legítima estivesse na suposta ajuda que o império ocidental, de bom grado, fornece ao Oriente.

O discurso orientalista, e este é o objetivo deste artigo, não só é o que pode ser falado, mas também é o que deve ser falado, sem indicar diretamente aquilo que deve ser dito, mas funcionando como matriz do que se diz, como injunção para o dizer.

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Referências

[1] SAID, Edward. Orientalismo, O Oriente Como Invenção do Ocidente. Tradução: Rosaura Eichenberg. 1ª edição, São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.15. Voltar ao texto.

[2] SAID, Edward. Orientalismo, O Oriente Como Invenção do Ocidente… p.17. Voltar ao texto.

[3] SAID, Edward. Orientalismo, O Oriente Como Invenção do Ocidente… p.29. Voltar ao texto.

[4] SAID, Edward. Orientalismo, O Oriente Como Invenção do Ocidente… p.30-31. Voltar ao texto.

[5] FOUCAULT, Michel. As Formações Discursivas IN: A Arqueologia do Saber. 8ª edição, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012. Voltar ao texto.

[6] FOUCAULT, Michel. As Formações Discursivas IN: A Arqueologia do Saber.  Voltar ao texto.

[7] SAID, Edward. Orientalismo, O Oriente Como Invenção do Ocidente… p.40-41. Voltar ao texto.

[8] SAID, Edward. Orientalismo, O Oriente Como Invenção do Ocidente… p.54. Voltar ao texto.

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