Análise do discurso: 16 teses e dissertações para download gratuito

A análise do discurso nos ajuda a entender o dito num nível propriamente discursivo, não semântico, nem sintático. Daí os esforços dos pensadores nos anos 60 e 70 para identificar um método ou procedimento próprio de análise das coisas ditas. Listamos 16 teses e dissertações para você.

Foucault e a Análise do Discurso
Michel Foucault, um dos expoente da análise do discurso com o procedimento arqueológico.

A análise do discurso é uma maneira de analisar textos que se popularizou na França dos anos 70, com a emergência de pensadores famosos como Michel Foucault e Michel Pechêux. Sua característica notável foi a passagem da linguística da “frase” para a linguística do “texto”.

Essa mudança no objeto de análise provocou transformações na idéia classicamente aceita de que a ‘fala’ é individual, assistemática e, portanto, não passível de análise científica”[1] vai dizer Maria Gregolin.

Por sua vez, seguindo a chave de leitura da AD francesa, representada por Pechêux como ícone, Gregolin entende o texto como uma estrutura que articula diferentes elementos e os mantém num sentido coeso e coerente. Este texto carrega três níveis possíveis de análise:o fundamental, local em que se observa a redução máxima do sentido do texto; o narrativo, que é analisado com ajuda de Greimas, em que os valores fundamentais do texto são narrados com referência a um sujeito; e o discursivo, que envolve diretamente a AD e que mostra as escolha específica de cada sujeito na hora de narrar uma história e dar um sentido particular a ela.

Segundo Gregolin, “o discurso é um suporte abstrato que sustenta os vários textos (concretos) que circulam em uma sociedade. Ele é responsável pela concretização, em termos de figuras e temas, das estruturas semio-narrativas”[2]. Visão diferente da de Foucault, que cunhou o nome de Arqueologia para sua forma de análise de discursos, ele acredita que o discurso é um conjunto de enunciados e ações possíveis com esses enunciados, que quando regidos sob o mesmo sistema de dispersão, fazem parte de uma formação discursiva[3].

A formação discursiva em Pechêux e Foucault se separam na medida em que, para o primeiro, existe uma dependência com a formação ideológica, que determina em última instância a linguagem: a ideologia é entendida aqui – em termos gerais – como a visão de mundo de uma dada classe. Para Foucault, no entanto, o saber (que pode comportar uma formação discursiva) é constituído pelas posições possíveis que indiferentes indivíduos podem assumir, não havendo um corte específico de classe como a priori metodológico, mas somente se observado na própria pesquisa do discurso específico.

Gregolin afirma que “para entender os sentidos subentendidos em um texto é preciso que o enunciador e o enunciatário tenham um conhecimento partilhado que lhes permita inferirem os significados. Esse conhecimento de mundo envolve o contexto sócio-histórico a que o texto se refere”[4]. O sujeito, sendo assim, precisa estar numa situação prévia de conhecimento ou contextualização para fazer parte do discurso e se comunicar através dele. 

Já em Foucault, o discurso se situa num saber e o foco na definição do saber mostra outro tipo de noção de sujeito do discurso,

O saber também é o espaço em que o sujeito pode tomar posição para agir dentro do discurso. Ou seja, é um conjunto de funções que articulam um dado discurso – segundo o mestre, “neste sentido, o saber da medicina clínica é o conjunto das funções de observação, interrogação, decifração, registro, decisão, que podem ser exercidas pelo sujeito no discurso médico”. Além disso, o saber é “o campo de coordenação e subordinação dos enunciados em que os conceitos se definem, se aplicam e se transformam [e o saber] se define por possibilidades de utilização e de apropriação oferecidas pelo discurso.[5]

O sujeito não é, para Foucault, um alguém atravessado pelo discurso, mas sim uma posição com ações possíveis definidas pelo discurso. Daí, a primeira frase da citação acima assume outro sentido: o sujeito que pode tomar posições para agir dentro do discurso é um indivíduo indiferente que, ao ocupar esta posição de sujeito do discurso, tem limites para estabelecer relações com outros sujeitos do discurso.

A análise do discurso, em Foucault, visa encontrar as formações discursivas, mostrar as regularidades do dito, provar o vazio dos conjuntos de enunciados que se dizem verdadeiros. “Empreender a análise do discurso significa tentar entender e explicar como se constrói o sentido de um texto e como esse texto se articula com a história e a sociedade que o produziu. O discurso é um objeto, ao mesmo tempo, lingüístico e histórico; entendê-lo requer a análise desses dois elementos simultaneamente”, dirá Gregolin[6].

Dominique Maingueneau também nos ajuda a traçar uma linha de demarcação inicial para separar Foucault de Pêcheux: ao ser perguntado se a Análise do discurso se constitui como campo separado da linguística, esclarece que “há de fato ciências sociais de pesquisa que se valem da AD, mas que não se apóiam na Linguística; elas se inspiram, por exemplo, em Michel Foucault. No que concerne à AD de inspiração lingüística, podemos sustentar a idéia de que ela é menos uma ‘subárea da ciência linguística’ do que uma zona de contato entre a Linguística e as ciências humanas e sociais”[7].

Para o linguista, há ainda três maneiras de se utilizar a AD, sendo a última, a que ele considera justa ao nome: 1) a que utiliza a AD para fazer questões filosóficas (com análise empírica do discurso deixada para segundo plano); 2) a que utiliza a AD como caixa de ferramentas para de interpretar outras disciplinas e, portanto, lhe retira toda especificidade e trabalho empírico; já a 3) enxergaria a AD como um espaço de pleno direito nas ciências humanas e sociais, um conjunto de métodos baseados em análise empírica (mas que não se traduz em uma disciplina empiricista).

16 teses e dissertações sobre análise do discurso

Veja abaixo uma escolha de X teses e dissertações sobre análise do discurso para você entender o método, suas aplicações e conseguir empreender suas próprias análises discursivas.

  1. BRUM, André L. de O. Loucos ou criminosos?: uma análise do discurso de pessoas submetidas a medida de segurança;
  2. FRANCO, Leila M. A Política Antipobreza no Governo Lula: uma análise do discurso;
  3. FURTADO, Thais H. O jornalismo infantil e o desejo de consumo: o discurso da revista Recreio;
  4. GOMES, Rosely C. S. Arquegenealogia do Literário na Cultura Ocidental: A Trama Enunciativa do Trecento Italiano;
  5. MOTTA, Priscila C. Em torno de Michel Foucault e Luis Buñuel: saber e poder na análise de O Discreto Charme da Burguesia;
  6. NARCISO. Luiz F. S. Curtir’: Reflexões sobre um gesto enunciativo no Facebook;
  7. PEREIRA, Tania Maria Augusto. O Espetáculo de Imagens na Ordem do Discurso Midiático: O Corpo em Cena Nas Capas da Revista Veja;
  8. PINHEIRO, Maria L. P. Discursos: Marcas de Dialogismo e Alteridade em Sujeitos Autores no Facebook – Faces de Identidade;
  9. SALES, Marcia Rita dos S. A Construção Discursiva da Feminilidade em Propagandas de Cosméticos;
  10. SANTIAGO, Yara C. de O. Discurso, Memória e Hierarquia no Candomblé de Salvador-Bahia;
  11. SANTOS, Jeferson F. V. dos. Foucault na Formação Discursiva da Análise de Discurso: um autor, um conceito, uma positividade;
  12. SANTOS, Flavia Vieira da Silva. Análise foucaultiana na organização de documentos na web;
  13. SENA, Laécio R. de. O MST nos Discursos da Mídia Impressa Marabaense: Um olhar a partir dos jornais Correio do Tocantins e opinião, no ano 1996;
  14. SILVA, Thiago L. T. da. O novo por escrito: cinema, crítica, nacionalismo (1960/1964);
  15. SOUZA JUNIOR, J. N. de. O discurso autobiográfico nos quadrinhos: uma arqueologia do eu na obra de Robert Crumb e Angeli;
  16. UCHOA, Francisco A. R. Discurso, Verdade e Contraconduta em Michel Foucault.

Referências

[1] GREGOLIN, Maria do R. V. A Análise do Discurso: Conceitos e Aplicações. Alfa, São Paulo, 39: 13-21,1995, p. 13.

[2] GREGOLIN, Maria do R. V. A Análise do Discurso: Conceitos e Aplicações… p. 17.

[3] FOUCAULT, Michel. As formações discursivas IN: A Arqueologia do Saber. 8ª edição, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

[4] GREGOLIN, Maria do R. V. A Análise do Discurso: Conceitos e Aplicações… p. 20.

[5] SIQUEIRA, Vinicius. Saber, Ciência e Ideologia. Acessado em 18-10-2016.

[6] GREGOLIN, Maria do R. V. A Análise do Discurso: Conceitos e Aplicações… p. 20.

[7] MAINGUENEAU, Dominique. Análise do Discurso: uma entrevista com Dominique Maingueneau. Revista Virtual de Estudos da Linguagem – ReVEL. Vol. 4, n. 6, março de 2006. Tradução de Gabriel de Ávila Othero, p.1.

banner-camisa-foucault

2 Comments

Deixe uma resposta