A técnica temporal e de atenção multitasking (multitarefa) não representa nenhum progresso civilizatório. A multitarefa não é uma capacidade para a qual só seria capaz o homem na sociedade trabalhista e de informação pós-moderna. Trata-se antes de um retrocesso. A multitarefa está amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem. Trata-se de uma técnica de atenção, indispensável para sobreviver na vida selvagem (Han, 2015, p. 18).
A habilidade de ser multitasking é, talvez, uma das mais mitificadas e, ao mesmo tempo, requisitadas nos trabalhos modernos. Supostamente, trata-se da habilidade de realizar diversas tarefas ao longo do dia sem necessidade de pausas para um descanso mental que reiniciaria a atividade laboral.

O profissional multitask seria aquele que não precisa reiniciar suas tarefas, já que o caos de um número infinito de pequenas tarefas e pequenos problemas a serem solucionados pertenceriam ao mesmo conjunto do total de trabalho atribuído à função exercida. Um fluxo contínuo de mudança de rota sem necessidade de recomeço, já que o único recomeço seria, portanto, o início do dia.
Entretanto, esta atividade não pode ser associada ao desenvolvimento da humanidade ou da civilização moderna, já que suas raízes são encontradas justamente nas presas que necessitam, por sobrevivência, exercitar sua atenção de maneira difusa. Explica Byung-Chul Han:
Um animal ocupado no exercício da mastigação de sua comida tem de ocupar-se ao mesmo tempo também com outras atividades. Deve cuidar para que, ao comer, ele próprio não acabe comido. Ao mesmo tempo tem de vigiar sua prole e manter o olho em seu(sua) parceiro(a). Na vida selvagem, o animal está obrigado a dividir sua atenção em diversas atividades. Por isso, não é capaz de aprofundamento contemplativo – nem no comer nem no copular (Han, 2015, p. 18).
Não qualquer possibilidade da contemplação por parte da presa no interior de uma vida selvagem. A ausência da contemplação na vida selvagem é utilizada como ilustração para a própria vida moderna nos espaços de trabalho cotidianos e nas diversões contemporâneas. Segundo o filósofo sul-coreano, os jogos de computador também falham em oferecer uma atividade cuja atenção do sujeito se fixe por mais tempo e com qualidade maior que a atenção de um animal selvagem.
As mais recentes evoluções sociais e a mudança de estrutura da atenção aproximam cada vez mais a sociedade humana da vida selvagem (Han, 2015, p. 18).
Esta apresentação inicial do multitasking como elemento central na sociabilidade pós-moderna é essencial para a compreensão da ausência do tédio enquanto motor da produção criativa e pedra de toque na criação civilizacional.
A criação cultural, seja ela qual for, necessita da contemplação, do tédio, do tempo de espera, da ruminação. O período do não-fazer é diretamente relacionado à qualidade do fazer. Não-fazer é diferente de fazer nada, na medida em que o tédio característico desta atividade de não-fazer é parte do processo de construção do espaço vazio que será preenchido pela criatividade.
A criatividade, por sua vez, não é somente a ferramenta da resolução dos problemas que aparecem na vida cotidiana, mas é também uma maneira de delimitar ou criar os problemas que serão resolvidos. O verbo criar, aqui, não é utilizado como sinônimo de invenção, mas como forma de levar até a superfície um problema que ainda precisa de uma nova perspectiva para que seja visto e, então, se torne de fato um problema.
O processo de construção dos problemas também é um processo de criatividade, de contemplação e de criação.
Os desempenhos culturais da humanidade, dos quais faz parte também a filosofia, devem-se a uma atenção profunda, contemplativa. A cultura pressupõe um ambiente onde seja possível uma atenção profunda (Han, 2015, p. 19).
O sujeito contemporâneo, portanto, é disciplinado numa dinâmica de desempenho e positividade que o impede de reconhecer no tédio a possibilidade da vida, já que o papel que era dos gerentes foi internalizado na própria subjetividade trabalhadora. Um panóptico já não é mais necessário ao trabalhador precarizado, já que o olho do vigiar está em seu próprio âmago.
E visto que ele tem uma tolerância bem pequena para o tédio, também não admite aquele tédio profundo que não deixa de ser importante para um processo criativo (Han, 2015, p. 19).
Afinal,
quem se entedia no andar e não tolera estar entediado, ficará andando a esmo inquieto, irá se debater ou se afundará nesta ou naquela atividade. Mas quem é tolerante com o tédio, depois de um tempo irá reconhecer que possivelmente é o próprio andar que o entedia (Han, 2015, p. 19).
A metáfora da dança, muito utilizada por Nietzsche, é evocada por Han: justamente nos movimentos da dança se tem o luxo do não linear, daquilo que não necessariamente leva o sujeito a uma alta performance, ao desempenho máximo. A dança, enquanto exercício livre, substitui o passo da caminhada, o passo linear, o passo objetivo, para um passo artístico, em que o tédio se liquefaz sob movimentos não devedores de performance.
Considerações finais
A demora, portanto, é aniquilada na sociedade da positividade, a sociedade da peformance, pois o princípio da produtividade é internalizado pelo sujeito de tal maneira que sua própria subjetividade exerce o papel que um dia foi do fiscal, do gerente, do supervisor. A supervisão de si enquanto atividade íntima é produtora do sujeito inimigo do tédio, inimigo, assim, da filosofia.
O sujeito da performance vive em respirações rápidas, ritmo intenso e justifica este auto flagelo por meio da palavra disciplina. O longo fôlego, que pede paciência e gozo na demora se perde, assim como a própria agência:
Só o demorar-se contemplativo tem acesso também ao longo fôlego, ao lento. Formas ou estados de duração escapam à hiperatividade […] No estado contemplativo, de certo modo, saímos de nós mesmos, mergulhando nas coisas (Han, 2015, p. 20).
Se a sociedade disciplinar é movida pelo “não”, pela proibição, pela vigilância que gera limite, a sociedade do desempenho é movido por um sim internalizado, que gera motivação, que gera certo tipo de auto vigilância produtora do imperativo para a produtividade.
Evidentemente, a precarização do trabalho é um dos elementos que naturalizam o desempenho, na medida em que a hora trabalhada no emprego uberizado é convertida em renda, não mais em salário previsível. O desempenho é uma necessidade material convertida em condição psicológica destruidora do tédio, da criação e da transformação.
Referência
Han, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.

Curso introdutório: Sociedade do consumo para Zygmunt Bauman
O objetivo deste curso é fornecer uma introdução ao entendimento de Bauman sobre a sociedade do consumo que vivemos, passando pela descrição de como nós, enquanto sujeitos desta sociedade, somos constituídos e explicando como funciona a dinâmica social do consumo presente em nosso dia a dia.
Roteiro do curso:
1 – Introdução à teoria do sujeito de Louis Althusser (que dá base para o entendimento de Bauman sobre a sociedade do consumo):
a) A diferença entre sujeito e indivíduo (pois Bauman trabalha diretamente com essa diferença para descrever nossa transformação em sujeitos do consumo);
b) O que é tornar-se sujeito (como funciona o processo de se tornar um sujeito adaptado e adequado a uma sociedade, mesmo que essa adequação seja disfuncional);
c) O que é ideologia (noção fundamental para compreender o funcionamento da cultura e da mídia enquanto parte cotidiana de nossas vidas numa sociedade de consumo).
2 – Conteúdo principal: a sociedade do consumo para Zygmunt Bauman (aqui, entramos no conteúdo diretamente relacionado à obra do autor):
a) A sociedade do consumo (aqui, com base nas aulas anteriores, descrevo o funcionamento da sociedade do consumo capturando indivíduos para que se tornem sujeitos do consumo);
b) A cultura do consumo (aqui, entenderemos como toda sociedade é preenchida por um nível simbólico cultural que nos fornece os significados utilizados para que nossa própria vida faça sentido. A sociedade do consumo tem uma estrutura cultural específica);
c) Tempo social na sociedade do consumo (neste momento, nosso alvo será o entendimento do tempo social, ou seja, da marcação social do ritmo acelerado que nós vivemos na sociedade do consumo);
d) Felicidade consumidora (por fim, entenderemos como a felicidade é instrumentalizada enquanto objetivo final e quase inalcançável relacionado diretamente aos objetos de consumo presentes no mercado).
Curso gravado com acesso vitalício, o acesso se dá pela plataforma do hotmart;
Haverá emissão de certificado;
2 (duas) horas de curso;
Todas as pessoas inscritas podem se sentir à vontade para entrar em contato comigo, professor do curso, caso reste alguma dúvida acerca do conteúdo. O diálogo é sempre bem-vindo e as portas estão sempre abertas.
O valor investido no curso é de R$ 99,00.
Instagram: @viniciussiqueiract
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.
Autor dos e-books:
Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;
Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.

