A figura do corno na competição masculina

O homem que não chora é vazio de vulnerabilidade, não por de fato assim o ser, mas por incorporar a necessidade de escondê-la para jogar o jogo da jocosidade, para evitar ser confundido com uma mulher, para tornar seu corpo uma barra maciça de ferro impenetrável pela violência que deverá ser suportada. Assim, cabe ao corno aceitar sua estigmatização e lidar com o fato de que está incluído no circuito de masculinidade justamente pela desonra de sua condição.

No interior dos processos de socialização masculinidade, há um tipo de sociabilidade muito presente: a piada jocosa como forma de integração, apaziguamento e estigmatização.

Francisca Luciana de Aquino (2008) em sua dissertação de mestrado descreve uma dinâmica social de jocosidade entre homens em que o corno é aquele que, por sua desonra, tende a ser subjugado. Evidentemente, tal dinâmica demonstra uma competitividade no interior da própria masculinidade. A honra em ser homem está diretamente relacionada à inviolabilidade do matrimônio em sua estrutura: a mulher que trai, ao tomar para si uma conduta ativa, quebra certos pressupostos da vida familiar cristã em que cabe a ela uma posição de passividade.

Veja abaixo o vídeo “Por que corno só se dá mal?”

Não se trata somente da passividade deslocada em atividade, mas da própria falta de controle do homem em vigiar e operacionalizar a disciplina cristã que separa o casal em um polo de atividade e um de passividade (BRITO, PAULA, 2014). Neste momento, estamos diante da masculinidade enquanto ideologia com fundamento no cristianismo, religião dominante no Brasil.

Nesta dinâmica de honra e desonra, resta ao corno o papel de trouxa. Apesar de ser vítima de uma traição, ele é, também, o perpetrador da própria traição a partir do momento em que negligencia seu papel de homem disciplinador. Na medida em que sua honra de homem não é respeitada nem mesmo pela mulher, papel passivo da relação, sua desonra excede o limite do respeitável e a dinâmica jocosa ganha seu lugar.

Aquino (2008) ainda compreende que tal dinâmica acontece “entre amigos”, ou seja, trata-se de uma dinâmica entre conhecidos cujo funcionamento evita a erupção da violência física entre os participantes. Cabe ao corno aguentar a gozação que um dia também poderá perpretar. Cabe ao homem suportar sua derrota na corrida pela masculinidade e esperar o momento propício para passar à frente de outro colega.

Nesta dinâmica, há seus líderes, seus perpetradores ideiais, que são aqueles que, apontando ao corno, revelam também seu suposto capital simbólico masculino. O ato da gozação é, também, de demonstração da própria honra masculina, de demonstração de um capital masculino acumulado, seja pelo domínio da gozação, seja pela condição material de não ser traído.

Como a pesquisa de Aquino foi feita em um bairro popular de Recibe, Pernambuco, subentende-se, também, que a própria possibilidade de socialização está fechada no grupo de gozação, ou seja, não é tão fácil somente virar as costas e procurar outro grupo para socializar.  Na medida em que tal dinâmica não é meramente particular, também não seria simples procurar um grupo masculino sem competições ou sem interações que flertam com a violência e o risco (SOUZA, 2005).

Tal interação pode ser entendida como uma deficiência masculina em compreender os momentos de apoio e acolhimento, tão necessários para a saúde mental de cada indivíduo em sociedade. Entretanto, talvez seja necessário compreender que, se este tipo de dinâmica é parte da própria masculinidade, então esta dinâmica é o acolhimento possível. O olhar voltado para saúde mental masculina corre o risco de, em sua normatividade, ser insuficiente para compreender o funcionamento da masculinidade. Ou seja, a suposta ausência de um real acolhimento esconde o fato de que o acolhimento é a própria gozação. A condição para se participar do mundo masculino é a introdução e adaptação ao sistema de honras e desonras, vigilância e punição que este mundo entrega.

Num movimento contraditório, a gozação é a prática do pertencimento, na medida em que se pertence enquanto competidor. Ou seja, o pertencimento ao mundo masculino está diretamente atrelado à competição masculina e, portanto, às derrotas e vitórias que se pode ter nesta competição. Dentre as estratégias de acúmulo de capital masculino (aqui, eu estou livremente utilizando o conceito de capital para trabalhar esta dinâmica evidenciada por Aquino), a violência tolerável não só é uma delas, como é, também, a reciprocidade da participação que se tem com aquele que é violentado. O corno ainda é homem, mas derrotado. Estigmatizado pela desonra de ser corno. Será necessário para este corno lidar com a desonra por toda sua vida.

É claro que esta dinâmica, própria da masculinidade, é sustentada por uma estratégia de poder patriarcal em que a atividade masculinidade é sempre relacionada à certa violência e seu papel no lar à autoridade que deve ser desempenhada.

O homem que aprende a ser vítima da jocosidade e a aceitar a derrota na corrida pela honra masculina também aprende que está compromissado com o caminho da masculinidade. Aprende, também, que há homens de verdade e homens de mentira.

Veja abaixo o vídeo “O que é ser homem de verdade”

Acima de tudo, aprende que ser homem, para além da violência constitutiva, é negar a violência recebida. A violência naturalizada se torna padrão de operacionalização da própria sociabilidade masculina, de tal maneira que se nega recebe-la ao mesmo tempo em que se nega aplicá-la, mesmo quando se recebe e quando se aplica.

Homem não chora, portanto, homem se dá ao luxo de reconhecer a violência do próprio processo de masculinização que sofre enquanto parte anormal da vida. Esta violência faz parte da construção do sujeito homem que, ao longo de toda a vida, deverá suportá-la, naturalizá-la, reproduzi-la e alimentá-la.

E, por fim, esta é a violência, inclusive, que fundamenta a autoridade masculina perante sua família. O chefe de família não é só aquele que traz dinheiro para casa, não é só o provedor, mas é também o disciplinador, é também aquele que conhece a violência, metrifica sua força e a aplica a partir de uma certa justiça imaginária. O homem que não chora é vazio de vulnerabilidade, não por de fato assim o ser, mas por incorporar a necessidade de escondê-la para jogar o jogo da jocosidade, para evitar ser confundido com uma mulher, para tornar seu corpo uma barra maciça de ferro impenetrável pela violência que deverá ser suportada.

Veja abaixo o vídeo “Homem não chora”

Referências

AQUINO, F. L.; Felipe Rios do Nascimento, Luis. Homens cornos e mulheres gaieiras : infidelidade conjugal, honra, humor e fofoca num bairro popular de Recife/Pe. 2008. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2008.

BRITO, Gabriel Ferreira de; PAULA, Josías Vicente de. A masculinidade e a ideologia: a socialização masculina DOI 10.5216/o.v13i2.23404. OPSIS, Goiânia, v. 13, n. 2, p. 173–188, 2014. DOI: 10.5216/o.v13i2.23404. Disponível em: https://periodicos.ufcat.edu.br/index.php/Opsis/article/view/23404. Acesso em: 2 abr. 2025.

SOUZA, E. R. Masculinidade e violência no Brasil: contribuições para a reflexão no campo da saúde. Ciência & Saúde Coletiva, 10 (1), 59, 2005.

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