Se o erro comum dos nossos tempos é imaginar que a propaganda pode conseguir tudo e que um homem pode ser persuadido a fazer qualquer coisa, contanto que a persuasão seja suficientemene forte e atraente, era crença comum naquela época que a “voz do povo era a voz de Deus”, e que a tarefa de um líder era, como disse Clemenceau com tanto desdém, seguir essa voz com esperteza. As duas atitudes derivam do mesmo erro fundamental de considerar-se a ralé idêntica do povo, e não uma caricatura dele (ARENDT, 1979, p. 102).

Hannah Arendt estabelece uma divisão inicial: o povo persuadido pela propaganda não era sua totalidade. Há um limite que divide duas partes da população: o povo e sua caricatura, a ralé. Enquanto o povo não é bem definido (ou é definido, de maneira inicial, a partir daquilo que não é), a ralé é compreendida como a parte da população que, por ser facilmente persuadida pelo aparelho da propaganda, se torna massa de manobra para líderes que estrategicamente a utilizam como base de aprovação para suas políticas.
A ralé é fundamentalmente um grupo no qual são representados resíduos de todas as classes. É isso que torna tão fácil confundir a ralé com o povo, o qual também compreende todas as camadas sociais. Enquanto o povo, em todas as grandes revoluções, luta por um sistema realmente representativo, a ralé brada sempre pelo “homem forte”, pelo “grande líder”. Porque a ralé odeia a sociedade da qual é excluída, e odeia o Parlamento onde não é representada. Os plebiscitos, portanto, com os quais os líderes modernos da ralé têm obtido resultados tão excelentes, correspondem à tática de políticos que se estribam na ralé (ARENDT, 1979, p. 102).
A ralé, assim, não é uma parte específica de uma camada social. Ralé é o resíduo, começa a se delinear como um subproduto de todas as classes sociais no interior do sistema capitalista. Enquanto o povo luta pela representatividade, a ralé luta pela dominação da sociedade que a exclui. Até o momento, é necessário compreender que esta exclusão não necessariamente se dá sob um olhar de justiça social: se o pobre é excluído de uma sociedade em que é necessário dinheiro para comprar comida, o nazista é excluído de uma sociedade em que o racismo é combatido. A ralé, portanto, não é necessariamente uma excluída social, mas é aquela que, mesmo vivendo no interior da sociedade, não tem representantes fortalecidos.
A alta sociedade e os políticos da Terceira República haviam apresentado à ralé francesa uma série de escândalos e fraudes públicas. Invadia-os agora um tenro sentimento de familiaridade paterna por seu rebento, um sentimento misto de admiração e medo. O menos que a sociedade podia fazer por sua filha era protegê-la com palavras. Enquanto a ralé tomava de assalto as lojas dos judeus e os agredia na rua, a linguagem da alta sociedade fazia com que a violência, intensa e verdadeira, parecesse inócua brincadeira de criança (ARENDT, 1979, p. 102).
Outra característica da ralé: ela se alia com a alta sociedade. A ralé é a brutalidade que a delicadeza elitista não permite que seus membros expressem. Cabe à ralé realizar o trabalho sujo que, no fim, beneficia não só a si próprios, mas também aos grupos da elite.
No contexto anterior à Segunda Guerra Mundial, a ralé percebia no judeu o elemento a ser extirpado das sociedades europeias. Se não podiam participar politicamente, se eram rejeitados socialmente, percebiam na tolerância aos judeus uma traição da própria sociedade enquanto ente coletivo, no próprio Estado enquanto ente jurídico-político.
Mais uma característica da ralé: por não ser inserida na política representativa, ela age nos espaços extraparlamentares e, ao mesmo tempo, compreendem que a sociedade é guiada também por grupos e em espaços extraparlamentares. Judeus, maçons e jesuítas se tornam, assim alvos de suas investigações e conspirações. Tudo se passa como se fossem grupos organizados com forte influência na realidade política. A conspiração é o paradigma da ralé. A vida social é, assim entendida como o resultado de pequenas artimanhas, conchavos e articulações voluntaristas. A história não existe enquanto movimento, mas enquanto coletânea de fatos.
Num momento imperialista do capitalismo, fins do século XIX, a aliança entre ralé e capital foi a base para o envio de partes da população das metrópoles para a colonização. Indivíduos supérfluos em sociedades que, aos poucos, substituíam diversos trabalhos pela máquina, exigiam o nascimento de novas especialidades, indivíduos que sobravam num mercado produtor limitado.
De agora em diante, a ralé, gerada pela monstruosa acumulação de capital, acompanhava sua genitora ideológica nessas viagens de descoberta, nas quais nada era descoberto a não ser novas possibilidades de investimento. Os donos de capital supérfluo eram os únicos que podiam usar os homens supérfluos vindos dos quatro cantos do mundo. Juntos, estabeleceram o primeiro paraíso de parasitas, cujo sangue vital era o ouro. O imperialismo, produto de dinheiro supérfluo e de gente supérflua, iniciou sua surpreendente carreira produzindo bens dos mais supérfluos e irreais (ARENDT, 1979, p. 144).
No campo da construção da nação e do povo, da tentativa de incorporar a ralé ao povo, o discurso da hierarquia racial, da separação da humanidade entre raças inferiores e superiores, passou ser reproduzido, mesmo que visto e criticado como discurso artificial, na medida em que o marxismo já havia estabelecido a compreensão da luta de classes como motor da história e elemento central na cisão existe nas sociedades. A união entre alta sociedade e ralé era uma junção fabricada pelo interesse de tornar o espaço de exclusão em espaço de dominação. Se na Inglaterra e França, a ralé foi o personagem principal das possessões ultramar e na política colonial, na Alemanha e Áustria, foi motor da unificação nacional.
Apesar de alguns historiadores terem percebido a emergência da ralé, não perceberam que ela era parte integrante da sociedade burguesa e que, assim, poderia ser vista facilmente como ferramenta no interior das lutas sociais.
O que eles não compreenderam é que a ralé não é apenas o refugo mas também o subproduto da sociedade burguesa, gerado por ela diretamente e, portanto, nunca separável dela completamente. E por isso deixaram de notar a admiração cada vez maior da alta sociedade pelo submundo (que tão bem se percebe no século xix), seu recuo gradual e contínuo em todas as questões de moral e seu crescente gosto pelo cinismo anárquico, característico dos rebentos da ralé gerados pela sociedade (ARENDT, 1979, p. 145).
Aqui, é possível estabelecer um parentesco entre o bolsonarismo e a ralé descrita por Arendt: políticos reacionários num contexto de baixa representação prática (ou de baixa força política) munidos por uma camada da sociedade pouco representada (uma camada próxima de valores tradicionais cristãos) e amparados por um centrão sem característica própria e por líderes liberais que viam neste grupo a possibilidade de derrotar o Partidos dos Trabalhadores.
A ralé alcançou cargos políticos (Dep. Zé Trovão, Dep. Eduardo Bolsonaro, Deputados pastores e policiais locais) e manteve aliança com o capital excluído das grandes tomadas de decisão (Junior Durski, do Grupo Madero; Alexandre e Pedro Grendene, da Grendene; Sebastião Bomfim, da Centauro; Luciano Hang, da Havan e Afrânio Barreira Filho, do Grupo Coco Bambu, por exemplo).
Esse sentimento de parentesco, essa junção entre os genitores e a prole, já expressa de modo clássico nas novelas de Balzac, antecede a todas as considerações práticas de caráter econômico, político ou social, e faz lembrar aqueles traços psicológicos fundamentais do novo tipo de homem ocidental que Hobbes esboçou há trezentos anos. Mas foi principalmente devido à experiência adquirida pela burguesia durante as crises e depressões anteriores ao imperialismo que a alta sociedade finalmente confessou estar pronta a aceitar a mudança revolucionária de padrões morais sugeridas pelo “realismo” de Hobbes, ora novamente propostas pela ralé e por seus líderes. O fato de que o “pecado original” do “acúmulo original de capital” requeria novos pecados para manter o sistema em funcionamento foi mais eficaz, para persuadir a burguesia a abandonar as coibições da tradição ocidental, do que o seu filósofo ou o seu submundo. Foi esse fato que finalmente levou a burguesia alemã a arrancar a máscara da hipocrisia e a confessar abertamente seu parentesco com a escória, recorrendo expressamente a ela para defender os seus interesses de proprietários.
Foi justamente na emergência da ralé que o sujeito ocidental hobbesiano, abandonado do mundo e separado da cooperação voluntária, ao mesmo tempo, submisso a um Estado cujo objetivo é a acumulação eterna do poder e cujo exercício não ultrapassa as próprias fronteiras, se fez real na disputa pelo exercício do poder e da manutenção da dominação como forma de subjetividade. A partir de Hobbes, é possível compreender as diferentes nações em agrupamentos tribais separados por questões naturais que nada têm em comum com os outros agrupamentos próximos ou distantes. Trata-se da vitória naturalista do fator racial e da nação étnico-racial, destinada até o fim dos tempos à guerra conduzida pelos próprios instintos.
Referência
ARENDT, Hannah. As Origens do Totalitarismo. São Paulo – SP : Companhia das Letras, 1979.
Instagram: @viniciussiqueiract
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.
Autor dos e-books:
Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;
Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.
