Uma supremacia branca se constrói no interior das instituições públicas e privadas a partir de processos de manutenção de uma cor específica nos cargos de maior poder decisório, além da evitação em contratar pessoas negras para compor o corpo de funcionários.
Cida Bento conclui que há um pacto narcísico entre brancos, um pacto da branquitude, que quando realizado, particulariza e exclui as demais denominações raciais ou étnicas. Um pacto que, apesar de traçar uma estratégia de poder, não necessariamente é idealizado ou possuído por um sujeito estrategista.
Assim vem sendo construída a história de instituições e da sociedade onde a presença e a contribuição negras se tornam invisibilizadas. As instituições públicas, privadas e da sociedade civil definem, regulamentam e transmitem um modo de funcionamento que torna homogêneo e uniforme não só processos, ferramentas, sistema de valores, mas também o perfil de seus empregados e lideranças, majoritariamente masculino e branco. Essa transmissão atravessa gerações e altera pouco a hierarquia das relações de dominação ali incrustadas. Esse fenômeno tem um nome, branquitude, e sua perpetuação no tempo se deve a um pacto de cumplicidade não verbalizado entre pessoas brancas, que visa manter seus privilégios (BENTO, 2022, p. 15).
Tal pacto funciona como uma forma de reprodução do racismo que atravessou toda a formação do Brasil. Se o racismo é um crime, se a escravização já foi abolida, a ordem social não deixou de ser claramente desfavorável às pessoas de pele negra. Esta desigualdade de condições de vida e de oportunidades verificadas entre sujeitos bracos e negros, num golpe discursivo, tende a ser inserido numa perspectiva meritocrática, que compreende a vida como uma linha que se desenrola para frente, mas que não estabelece ligações com outras linhas paralelas, uma primazia do indivíduo na teoriazação do social.
O sujeito do neoliberalismo é centrado em sua vida, na medida em que suas relações são entendidas como voluntaristas (ou resultado de certa repressão externa) e direcionadas para a satisfação de um desejo específico. O consumo do sujeito do neoliberalismo, ou do homo oeconomicus nos estudos de Michel Foucault, é produção de sua própria satisfação.
O homo oeconomicus é um empresário, é um empresário de si mesmo. Essa coisa é tão verdadeira que, praticamente, o objeto de todas as análises que fazem os neoliberais será substituir, a cada instante, o homo oeconomicus parceiro da troca por um homo oeconomicus empresário de si mesmo, sendo ele proprio seu capital, sendo para si mesmo seu produtor, sendo para si mesmo a fonte de [sua] renda. (FOUCAULT, 2008, p. 311)
O homo oeconomicus compete com outros sujeitos que são também capital humano, ou seja, os outros sujeitos são seus competidores, são outras fontes de renda dispersas num mercado competitivo. Este tipo de sujeito é, na prática e acima de tudo, branco. Branco é o sujeito digno da competição, sendo assim, numa busca meritocrática pelas melhores posições no interior das instituições, o capital humano de maior valor receberá, portanto, o melhor retorno em renda e ocupará as melhores posições.
“Esse capital humano é composto de quê? Pois bem, ele é composto, dizem eles, de elementos que são elementos inatos e de outros que são elementos adquiridos”, dirá Foucault (2008, p. 312), mas, em seguida, retirará o racismo como núcleo central deste inatismo fundado na biologia e no geneticismo. Segundo o autor, a questão da atualidade é relacionada com as possibilidades de manutenção das vantagens genéticas para a reprodução de um capital humano valioso e todas as complicações decorrentes disso. No contexto brasileiro, definitivamente o racismo é um elemento central no valor do capital humano.
O brancos competem no espaço de disputa em que o capital humano está inserido, mas competem de maneira especial, pois se trata de “uma competição entre segmentos que se consideram ‘iguais'” (BENTO, 2002, p. 16).
É importante salientar que a realização de um espaço meritocrático não se dá somente na igualdade de oportunidades abstratas (como quando se entende que qualquer um pode se candidatar a uma vaga específica) e de condições (como quando se entende que todos partem das mesmas condições sócioeconômicas), mas também numa igualdade irrealizável de um mesmo tipo de sujeito.
Pois tipos de sujeitos diferentes se inserem de maneiras diferentes no espaço social, de tal maneira que trajetórias sociais similares resultam em sujeitos com disposições diferentes quando, por exemplo, um é branco e outro é negro. Mais ainda, sujeitos diferentes ocupando a mesma posição social estarão, mesmo na mesma posição social, inscritos de maneiras diferentes nos campos sociais que ocupam. O racismo é um elemento que não se apaga frente ao dinheiro ou ao prestígio. Sendo assim, a racionalidade de uma ordem social meritocrática se torna quase impossível de ser alcançada num horizonte social em que a diferença está situada seu núcleo.
De fato, o conceito comum de meritocracia é o de um conjunto de habilidades intrínsecas a uma pessoa que despende esforço individual e não estabelece nenhuma relação dessas “habilidades” com a história social do grupo a que ela pertence e com o contexto no qual está inserida. Ou seja, a meritocracia defende que cada pessoa é a única responsável por seu lugar na sociedade, seu desempenho escolar e profissional etc. Parte de uma ideia falsa para chegar a uma conclusão igualmente falsa (BENTO, 2002, p. 18).
Grosso modo, a meritocracia verdadeira é limitada ao grupo de brancos ricos que ocupam posições de destaque no setor financeiro.
Fui consolidando uma perspectiva sobre o modo de operacionalização das discriminações dentro das organizações, em que questões éticas, morais e relacionadas com a democratização de espaços institucionais sempre são tratadas através de uma perspectiva “racional”, que busca justificar as desigualdades a partir da ideia de mérito. Ou seja, se constatamos representação excessiva de pessoas brancas nos lugares mais qualificados é porque elas mereceram isso, e a ausência de negras e negros e de outros segmentos deve-se ao fato de não estarem devidamente preparados (BENTO, 2002, p. 16).
O imaginário meritocrático, assim, não é meramente uma ideologia no sentido clássico, mas funciona enquanto um dispositivo na produção de sujeitos neoliberais e exclusão de negros da própria competição. A meritocracia, para além de ser uma produção discursiva da autorresponsabilização pelo fracasso, é uma forma de exercício de poder sobre os corpos.
Neste sentido, naturaliza-se a capacidade do indivíduo que ocupa um lugar de destaque e, indiretamente, naturila-ze a presença de brancos em posições de tomada de decisão. E o golpe de violência está presente no esquecimento da trajetória social em detrimento da posição ocupada no presente.
Um dos desafios está em problematizar o entendimento de que os resultados de processos seletivos, contratações e promoções que colocam homens brancos majoritariamente em posições mais qualificadas são decorrentes exclusivamente do mérito que essas pessoas têm pela excelência individual naquilo que são e fazem (BENTO, 2002, p. 17).
Estes sujeitos que parecem ocupar suas posições por simples mérito individual estão inseridos em relações específicas desde o nascimento de tal maneira que a familiaridade com os códigos da cultura organizacional são adquiridos ao longo de toda a trajetória acadêmica e profissional sob a forma de um habitus corporativo. Esta trajetória não é, na prática, livre para uma ampla participação por grupos discriminados e excluídos e, ao mesmo tempo, é o conjunto das experiências que compõem estas relações que constitui o habitus específico dos sujeitos perfeitamente adequados à vida de liderança empresarial.
Implicitamente, a crítica de Cida Bastos não está na dificuldade de negros em alcançarem cargos de destaque, mas está na sua impossibilidade no miolo de um sistema que tem no racismo um elemento central.
Considerações finais
O pacto da branquitude é um elemento estratégico que garante o monopólio das posições de destaque aos brancos numa sociedade racista como a brasileira. Neste pacto, seja conscientemente ou inconscientemente, brancos assumem certa cumplicidade na manutenção de suas posições de destaque e reproduzem o racismo que permite esta desigualdade.
Estudar os processos de construção e legitimação da hierarquia de raça e gênero, em ambiente de trabalho, ouvindo o que tinham a dizer tanto pessoas negras como brancas, permitiu compreender a naturalização da supremacia branca nas instituições, sua construção e reprodução ao longo da história (BASTOS, 2002, p. 19).
Na medida em que justamente a fala, enquanto discurso, entrega possibilidades de se entender as condições de possibilidade que fornecem as possibilidades concretas da realização da vida em seu nível simbólico.
Referências
BENTO, C. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. Versão digital. Disponível em <<https://elivros.love/livro/baixar-livro-o-pacto-da-branquitude-cida-bento-em-epub-pdf-mobi-ou-ler-online>>.
FOUCAULT, M. O nascimento da biopolítica: Curso do Collége de France. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
Instagram: @viniciussiqueiract
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.
Autor dos e-books:
Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;
Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.