As quimeras da loucura – Michel Foucault

Entende-se o delírio como momento para a expressão da verdade última da loucura, enquanto linguagem delirante que, num salto irônico, tem base na própria linguagem da razão. Convive com a linguagem da razão, pois é como que o espaço delimitado e excluído por ela: a linguagem delirante trabalha com a lógica irredutível e rigorosa da razão, mas através de um fio condutor ilusório.

Da série “Os loucos de Foucault“.

Índice

Introdução

qui·me·raa
substantivo feminino

      1. MIT [com inicial maiúscula] Monstro da mitologia grega, com cabeça de leão, corpo de cabra que, como um dragão, se dizia lançar fogo pelas narinas.
      2. POR EXT Qualquer animal fantástico representado pela composição de partes de animais diferentes.
      3. ARQUIT, ESCULT, PINT Pintura ou escultura de monstro ou animal fantástico e grotesco usada como elemento decorativo ou arquitetônico.
      4. FIG Criação da imaginação; ficção, ilusão.
      5. POR EXT Fantasia geralmente impossível, irrealizável; devaneio, sonho, utopia: “[…] tinha o aspecto dessas pessoas que se habituam a viver no mundo da fantasia, e que, sentindo-se como aturdidas quando descem à realidade, refugiam-se em suas quimeras”.
      6. POR EXT Algo sem unidade e coerência; absurdo, despropósito, disparate, incoerência: “Mas, como é que ele tão sereno, tão lúcido, empregara sua vida, gastara o seu tempo, envelhecera atrás de tal quimera?”.

A loucura não surge através da organização arbitrária das imagens (das quimeras) percebidas por um indivíduo: transforma-se em desatinado quem se aprisiona nas imagens, de tal maneira que a suposta liberdade que o arbitrário sugeriria (na quebra da ordem da realidade) se faz tão intensa que passa a normatizar a existência a partir de uma condição irreal.

Exemplo: é possível ter um sonho intenso de falecimento e, ao acordar, questionar-se sobre estar mesmo morto ou vivo. O questionamento sobre a imagem da morte já é uma denúncia de sua irrealidade. Não se está louco. A loucura emerge quando se afirma a condição de morto e quando se faz valer o conteúdo da afirmação. Ou seja, a loucura aparece com o sujeito que se vê morto e, por se ver morto não come, na medida em que mortos não comem. Por consequência, morre-se de inanição e a imagem cristalizada em afirmação sobre si, não em denúncia, realiza-se[1].

Portanto, a loucura está para lá da imagem, e no entanto está profundamente mergulhada nela, pois consiste somente em deixar que valha espontaneamente como verdade total e absoluta. O ato do homem razoável que, acertadamente ou não, julga verdadeira ou falsa uma imagem, está para lá dessa imagem, ele a ultrapassa e a avalia em relação àquilo que não é ela; o ato do homem louco nunca ultrapassa a imagem que se apresenta; ele se deixa confiscar por sua vivacidade imediata, e só a sustenta como sua afirmação na medida em que é envolvido por ela.[2]

A imagem, assim, é central na medida em que é transformada em realidade através de um ato específico, mas não é suficiente. O objetivo deste artigo é expor a visão de Michel Foucault sobre as quimeras da loucura baseado na relação do delírio e da imagem estabelecida no livro História da Loucura na Idade Clássica.


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O ato do delírio

O ato próprio do delírio é aquele que afirma a imagem. Trata-se de um ato de crença que, ao afirmar a imagem, raciocina e se insere cada vez mais fundo em sua lógica.

O homem que imagina ser de vidro não está louco, pois todo aquele que dorme pode ter essa imagem num sonho. Mas será louco se, acreditando ser de vidro, concluir que é frágil, que corre o risco de quebrar-se e que portanto não deve tocar em nenhum objeto demasiado resistente, que deve mesmo permanecer imóvel, etc. Este raciocínio é o de um louco, mas deve-se observar que, em si mesmo, não é nem absurdo nem ilógico.[3]

Ou seja, a loucura tem sua própria lógica que, a partir de uma premissa falsa, satisfaz as exigências do mais rigoroso lógico. As conclusões são razoáveis: se sou de vidro, então não devo encostar em objetos resistentes. Se não devo tocar em objetos resistentes, melhor ficar imóvel e garantir a proteção de meu corpo de vidro.

A loucura se desenvolve justamente na linguagem da razão, entretanto, diferentemente da razão, ela centraliza a imagem, lhe dá o prestígio necessário para ser o fio condutor do raciocínio. A linguagem da razão, quando aplicada à loucura, é “limitada ao espaço aparente que a loucura define, formando assim, ambas, exteriormente à totalidade e à universalidade do discurso, uma organização singular, abusiva, cuja particularidade obstinada perfaz a loucura”[4]. Assim, o raciocínio e a lógica se relacionam de maneira específica na emergência da loucura[5]:

  1. Consideremos um exemplo tomado do médico holandês Ysbrand van Diemerbroek, de seu texto Disputationes practicae, de morbis capitis: um homem, melancólico profundo, culpava-se pela morte do filho e, como castigo, considerava que Deus havia colocado um demônio em suas costas para tentá-lo como aquele que tentou Jesus Cristo;
  2. Para entender o delírio, Diemerbroek investigou suas supostas causas: o filho do acometido pela loucura havia ido nadar, levado por seu pai, e morreu afogado. O remorso e todo conjunto das convicções do sujeito somadas ao conjunto de imagens que constituem a fantasia são os elementos que compõem o delírio;
  3. A reconstituição do delírio fica, assim, mais clara: o homem acredita ter matado seu filho, pecado execrável por Deus. A partir disso, imagina que sua pena é ser entregue para Satã, pior suplício imaginável. O homem não vê o demônio, mas como foi entregue, como a lógica funciona, a imagem prevalece sobre a realidade;
  4. Assim, a loucura como analisada por Diemerbroek contém dois níveis: um manifesto, que pode ser visto pelos razoáveis simbolizado pela tristeza profunda do homem; já outro ligado à imaginação depravada do homem, ligada à razão desmantelada que conversa com o demônio.

Nestes dois níveis, há um aparente que pode ser identificado como desordenado; outro secreto, oculto, que contém a razão “libertada de todos os ouropéis exteriores da demência, colhe-se a paradoxal verdade da loucura”. Segundo Foucault, isto ocorre

num duplo sentido, uma vez que aí se encontra tanto aquilo que faz com que a loucura seja verdadeira (lógica irrecusável, discurso perfeitamente organizado, encadeamento sem falhas na transparência de uma linguagem virtual) e o que a faz ser verdadeiramente loucura (sua natureza própria, o estilo rigorosamente particular de todas as suas manifestações e a estrutura interna do delírio).[6]

A verdade da loucura está localizada justamente na possibilidade das imagens serem alvos de crença, de fé, de afirmação certa. O convencimento do louco revela tanto a lógica irrecusável como demonstra a expressão concreta da loucura em suas minucias. As imagens foram gravadas no cérebro do doente de Diemerbroek, seu corpo e sua alma estão comprometidos. Nesta percepção, “a linguagem delirante é a verdade última da loucura”[7].

A partir de uma liberação dos apetites, a loucura é convidada a participar dos desejos dos homens. A liberação do apetite da morte, mas também pode-se ilustrar a partir da liberação do apetite amoroso: os delírios amorosos apresentam de maneira mais franca como a loucura é delirante na medida em que o corpo segue as paixões desordenadas e se entrega ao desejo amoroso. Num mesmo momento: 1) o princípio moral que leva à culpabilização e 2) as expressões orgânicas que levam ou indicam o perigo de vida.

Considerações finais

Entende-se, assim, o delírio como momento para a expressão da verdade última da loucura, enquanto linguagem delirante que, num salto irônico, tem base na própria linguagem da razão. Convive com a linguagem da razão, pois é como que o espaço delimitado e excluído por ela: a linguagem delirante trabalha com a lógica irredutível e rigorosa da razão, mas através de um fio condutor ilusório.

A quimera, monstro fantasioso, não existe de fato, mas a crença firme do louco consolida uma base forte para a construção de uma lógica inflexível. Desta forma, a loucura se inicia no ato de crença, na medida em que ela é percebida enquanto recusa ética fundamental. O ato de crença ocasiona a repetição das imagens, das quimeras, até que o cérebro, gasto pelo impacto constante, as absorva e as transforme em um tipo de realidade.

Foucault cita Sauvages: “Aquele que vê turvo e vê em dobro não está louco. mas aquele que, vendo em dobro, acredita que existem dois homens, está”[8].

A loucura, vista do ponto de vista da linguagem delirante, é mais próxima a um discurso (de uma lógica retórica, conteudista e qualitativa) que a uma alteração. Ela se situa mais na relação entre os signos que compõem os fluxos das paixões e da moralidade que na observação clara de alterações materiais. Ou seja, a observação do louco é amparada pelo olhar moral que, após este primeiro contato, permite uma investigação própria através dos signos que emergem nos delírios e em toda a análise qualitativa das paixões, da alma e de suas relações com a loucura oferecida pela Idade Clássica.

Referências

[a] Dicionário Michaelis Online. Grifos meus.

[1] FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva, 9ª edição, 2012, p. 232.

[2] FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica… p. 232.

[3] FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica… p. 233.

[4] FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica… p. 234.

[5] Idem.

[6] FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica… p. 235.

[7] Idem.

[8] FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica… p. 212.

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