“Ele não acredita no que fala, é só um personagem”

O presente artigo analisa a tendência contemporânea de desqualificar discursos públicos nocivos sob a justificativa de serem "apenas personagens". Através da sociologia de Erving Goffman, argumenta-se que a "fachada" e a representação social são constituintes da interação, tornando a crença íntima do emissor irrelevante diante do efeito produzido no mundo. O texto explora a "trama da cumplicidade" na cultura brasileira, dialogando com Sérgio Buarque de Holanda e Michel Pêcheux para demonstrar como a busca por uma autenticidade psicológica ignora a eficácia do sentido no corpo social. Conclui-se que a interpelação ideológica e os danos coletivos — como o machismo e o negacionismo — operam independentemente da sinceridade do ator, deslocando a responsabilidade ética do foro íntimo para a consequência objetiva da prática verbal na esfera pública.

Percebo ser comum na sociedade da informação e da hiperexposição certas reações ao se ter acesso a um tipo de conteúdo ou a uma fala pública que nos causa estranheza. Acredito que o título deste texto exemplifica a objeção com a qual quero lidar.

Quando Bolsonaro falava publicamente uma atrocidade, era tido como personagem para aqueles que o defendiam; quando um masculinista/redpill expõe alguma visão distorcida sobre a realidade, é entendido como personagem com objetivo mercantil já que, supostamente, o intuito é vender cursos; quando um religioso realiza uma interpretação espúria da Bíblia, trata-se de um personagem cujo objetivo é angariar doações etc.

Representação do eu em sociedade

Na contemporaneidade, a centralização ética do indivíduo e a busca por uma autenticidade como marca distintiva é tão grande que não é difícil esquecer que as palavras funcionam principalmente pelo efeito que causam, não pela crença daquele que fala. A realidade não é feita pela correspondência entre a ação e o pensamento, mas sim pelo efeito da ação no mundo.

Desta forma, afirmo que quando se estende a preocupação da coerência entre a fachada do indivíduo e a sua crença verdadeira nesta fachada, limita-se o olhar face a face ao indivíduo e se esquece do efeito que ela produz num público amplo, como numa grande plateia ou nas mídias tradicionais e digitais.

Fachada é o conceito de Erving Goffman para traduzir todos os elementos importantes para a sustentação de uma máscara social, na medida em que

quando um indivíduo chega à presença de outros, estes, geralmente, procuram obter informação a seu respeito ou trazem à baila a que já possuem. Estarão interessados na sua situação sócio-econômica geral, no que pensa de si mesmo, na atitude a respeito deles, capacidade, confiança que merece, etc. Embora algumas destas informações pareçam ser procuradas quase como um fim em si mesmo, há comumente razões bem práticas para obtê-las. A informação a respeito do indivíduo serve para definir a situação, tornando outros capazes de conhecer antecipadamente o que ele esperará deles e o que dele podem esperar. Assim informados, saberão qual a melhor maneira de agir para dele obter uma resposta desejada (Goffman, 1985, p. 11).

O indivíduo representa, seja conscientemente ou inconscientemente, quando está na presença de outros indivíduos. Essa representação não é sinônimo de uma falsidade ou de uma fraude, mas é um atributo da vida em sociedade. O mundo social é um mundo de representações onde não há um real natural nem uma autenticidade singular na medida em que ele é composto por atores sociais em interrelação, desta forma, o sentido da comunicação depende da própria relação que os diferentes atores sociais firmam entre si e do desenrolar da interação imediata.

Será conveniente denominar de fachada à parte do desempenho do indivíduo que funciona regularmente de forma e fixa com o fim de definir a situação para os que observam a representação. Facha, portanto, é o equipamento expressivo de tipo padronizado intencional ou inconscientemente empregado pelo indivíduo durante sua representação (Goffman, 1985, p. 29).

Um ator social pode ou não estar crente ou compenetrado com seu próprio desempenho social, com a representação que busca criar sobre si. Caso esteja e caso a plateia esteja também convencida do papel desempenhado, e essa é a regra, então será muito difícil existir qualquer forma de desconfiança em relação à veracidade de seu desempenho.

Mas o ator social também pode desempenhar sem a fé (ou a técnica) necessária para garantir a verdade de seu papel. O ator pode ser cínico e simplesmente usar sua plateia para outros fins que não o da interação social imediata. Por exemplo, um médico pode receitar placebo para um paciente ou um frentista pode checar diversas vezes a calibragem do pneu do carro de uma senhora ansiosa e aflita para evitar qualquer tipo de acidente com seu automóvel.

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Cumplicidade

No Brasil, a coisa mais comum do mundo é a prática de perguntas que não pedem uma resposta sincera (Holanda, 1996) e é justamente na falta de sinceridade que se situa o âmago da cumplicidade. Um indivíduo pergunta ao amigo se está bonito e o amigo responde que sim, sem hesitar e, ao mesmo tempo, sem realmente avaliar a beleza do primeiro. O papel de amigo sincero é rejeitado pela manutenção da simpatia, embora seja justamente a sinceridade pressuposta que garantiria a cumplicidade. A cumplicidade, portanto, existe enquanto uma afirmação aparente de uma sinceridade frequentemente negada. A cumplicidade é uma trama.

Mas, perceba, no estabelecimento desta trama, o cinismo tem como efeito a própria cumplicidade que se reafirma a cada nova avaliação cínica. No fundo, é a própria relação que está sendo avaliada. Negar a cumplicidade está para além de negar a satisfação do outro ao ouvir que sua roupa está bonita, trata-se de negar o próprio substrato da amizade, negar a própria trama.

Esta trama é constituída, a princípio, por uma dinâmica de reconhecimento que tomarei como base o trabalho de Pêcheux (1990): 1) eu sei que você sabe que não é necessário ser rigorosamente crítico na avaliação; 2) eu sei que você sabe que eu sei que não é necessário tal rigor. Assim, a sinceridade aparente opera, é reconhecida, mesmo que se compreenda que o cinismo é pressuposto. No cinismo da avaliação, emerge a verdade da amizade: a cumplicidade.

O efeito social da interação é a cumplicidade. O efeito da prática social da cumplicidade é a amizade.

Como entender analise do discurso para Pecheux

Ingenuidade

Geralmente, entende-se como ingênuo aquele que não compreende o efeito em detrimento de uma busca pela autenticidade dos indivíduos que participam da dinâmica. Quando a mentira da avaliação vale mais que o efeito da cumplicidade, tem-se um amigo ingênuo. Ingênuo socialmente, na medida em que não compreende que o sentido não é produzido na interação imediata e logo morre. O sentido está no conjunto das interações que formam uma dinâmica social específica.

Mais que isso, a própria dinâmica social está inserida numa formação cultural específica, histórica, que localiza a dinâmica específica da cumplicidade como base e prova da existência da amizade.

O ingênuo também é aquele que realmente acredita que o outro realizou uma avaliação criteriosa. É possível elaborar um exemplo mais simples: é aquele que responde o “tudo bem?” casual com uma longa divagação sobre seu estado mental. Aqui, a cumplicidade tem como efeito a simpatia, a quebra de gelo, é a etiqueta social para o início de uma interação.

Desta forma, a ingenuidade social aparece nos momentos em que, a partir da centralização ética do indivíduo, a interação é perdida. A ação é vista separadamente, nunca em conjunto, numa gerando uma interação e, portanto, nunca alcançando o status de dinâmica social para que, por fim, nunca possa ser entendida como parte de uma prática social.

Posso usar da metáfora do leitor despreparado: aquele que busca o significado de dicionário para cada palavra presente no texto, sem recorrer ao texto como o todo que fornece o sentido das palavras. Sem o reconhecimento do sentido como aquilo que aparece na relação entre as palavras; entre os parágrafos; entre o início, meio e fim do texto. Cada palavra se transforma num mundo próprio. A interpretação se perde na ausência do todo a ser interpretado.

“Ele é só um personagem”

Por fim, saliento aqui a irrelevância da pergunta que dá nome a esta seção do texto: a autenticidade do indivíduo não é relevante para que se leve em consideração o efeito da prática verbal. Sua intenção não é o que produz o sentido de suas falas.

O efeito de uma fala machista feita sob a roupagem de uma nova ciência ou de uma fala que traduz uma estratégia necropolítica (Mbembe, 2016) traduzida numa roupagem moral de valorização da tradição e dos costumes ainda acontece para além daquilo que se encontraria no núcleo do indivíduo que fala.

A busca pela verdade íntima do indivíduo que fala ignora o efeito de sentido que sua fala tem: enquanto a afirmação especulativa sobre o cinismo ou autenticidade tendem a ser subjetivas, tendem a confirmar o que o indivíduo avaliador considera como razoável de ser dito contra aquilo que não parece ser razoável e por isso seria propositalmente falso, o efeito de sentido não é individual, mas particular, já que se refere ao grupo social específico que estabelece uma relação com aquilo que é dito.

Desta forma, o prejuízo de enunciações públicas não está no interior do indivíduo que fala, na medida em que a questão que se desenvolve sobre sua fala não está unicamente relacionada com a relação ética do sujeito com o que diz, mas está na consequência ética que acontece após a interpelação do indivíduo que ouve. Está no fato de que, por exemplo, um negacionismo científico funciona como isca para a interpelação do indivíduo em sujeito do discurso negacionista.

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Referências

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana . Petrópolis: Editora Vozes, 1985.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. O Homem Cordial IN Raízes do Brasil São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Arte & Ensaios – revista do ppgav/eba/ufrj, n. 32, dezembro 2016.

PÊCHEUX, Michel. Por uma análise automática do discurso. Campinas: Unicamp, 1990.

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