A rebeldia conservadora – Esther Solano

A rebeldia conservadora não é uma força de avanço, mas sim de recuo de busca de um passado melancólico e supostamente mais organizado.

Da série “Pensando o fascismo“.

Em outubro de 2018, o sociólogo Ruy Braga coordenou um debate sob o tema “O fim da era dos pactos: violência política e novas estratégias”, com a participação da cientista política Esther Solano, Vladimir Safatle e Ricardo Musse. Abaixo, a fala de Solano sobre a bolsonarização do espaço público:

Eu qualifico o voto em Bolsonaro como o voto da rebeldia conservadora. É uma rebeldia antipolítica, um voto de desabafo, do cansaço, do “não aguento mais”. É a politização da antipolítica, mas, por outro lado, não é uma rebeldia vanguardista, de uma mudança para frente, olhando para o futuro. É uma rebeldia que volta ao passado.

É aquela rebeldia antipolítica, anti-establishment, antissistema, mas com aquele saudosismo melancólico de um passado que era muito mais organizado, quando as hierarquias sociais estavam muito mais definidas, quando haviam feministas saindo pelas ruas, não havia uma parada LGBT com duas milhões de pessoas. Isso supõe uma desordem social com a qual muita gente não sabe lidar.

Esse tipo de negação das pautas identitárias e progressistas e entendê-las como uma ameaça direta à própria vida é uma característica desse tipo de rebeldia. Quando falamos com um desses ultraconservadores, percebemos que ele enxerga esses movimento como uma ameaça à estabilidade da própria vida e da própria existência. Somos nós como inimigos da própria existência do sujeito. Como se a feminista estivesse ameaçando a vida dele, o movimento negro estivesse colocando em risco a sua própria forma de entender o mundo e a própria vida do sujeito.

É a ideia absolutamente incompatível com o regime mínimo democrático de “inimigo”, “este é seu inimigo”. Se a democracia se constrói como um regime de inclusão da diferença, de inclusão das alteridades e das subalternidades, se eu rotulo o outro como inimigo que é diferente de mim eu estou construindo um espaço que é absolutamente antidemocrático.

A força do anti-identitarismo e do antipoliticamente correto é importantíssimo para entender o voto dessa nova direita. Foi muito importante para entender o voto em Trump, o voto em Marie Le Pen e dos movimento de extrema direita na Europa e é muito importante para entender o voto em Bolsonaro.

– Esther Solano

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