Índice
Introdução

Somente 5,7% do total de domicílios no Brasil não tinham televisão. Isso representa o número de 4,5 milhões num total de 78,3 milhões de domicílios no país. A televisão, mesmo com queda gradativa da sua presença pesquisa após pesquisa, ainda é um aparelho de comunicação dominante no território brasileiro e é justamente através dela que parte do racismo recreativo enquanto política cultural se manifesta.
Neste artigo, utilizarei o livro Racismo Recreativo de Adilson Moreira (2019) para definir a televisão como aparelho de produção de um campo representacional sobre as diferenças de raça no Brasil e como ela consegue produzir e reproduzir estereótipos raciais que se cristalizam na cultura brasileira fomentando a hierarquia racial do presente.
O discurso da televisão
Enquanto meio de extrema relevância para a produção e reprodução de discursos raciais no Brasil, a televisão é um espaço de condução, circulação e divulgação de representações cotidianas sobre grupos raciais na cultura brasileira. É necessário compreender que o discurso não se limita ao que é dito, à imaginação, às palavras ditas, às representações produzidas que seriam ou não incorporadas pelos espectadores. O princípio de uma reflexão discursiva sobre a participação da televisão enquanto aparelho prioritário para a reprodução de discursos raciais no cotidiano brasileiro envolve a consideração de que o sujeito que assiste se transforma em sujeito constantemente no ato de assistir.
O sujeito, portanto, não deve ser entendido enquanto um átomo independente da sociedade que, de certa forma, se oporia a ela. O sujeito, não sendo identificado enquanto indivíduo, não é, portanto, o conjunto de enunciados possíveis de serem ditos num espaço e tempo específicos. Em outras palavras, o sujeito é atravessado pelo discurso, não sendo seu oposto, mas seu condutor.
É importante salientar esta noção advinda dos trabalhos de Michel Foucault sobre o sujeito do discurso que eu coloco no artigo para amparar a leitura da crítica de Moreira sobre a televisão pois ela evita reduções simplistas que poderiam levar a reflexão até um momento de concluir que o povo seria manipulados (o que parte do princípio da existência de uma consciência irredutível que está em oposição à sociedade e, sendo assim, pode ser manipulada por outros indivíduos detentores de outras consciências) ou sobre uma essência do racismo localizada no caráter do indivíduo, aqui visto sob o tipo de sujeito “pessoa”, ou seja, enquanto pessoa, detentora da moral, caminharia para o mal uso de sua liberdade para uma escolha racista, uma escolha errada.
Este nível de análise que envolve tanto o fluxo de informações na sociedade como a moralidade dos sujeitos é relevante para determinados estudos interacionais ou para denunciar a desigualdade escolar e de acesso à informação na formação social capitalista brasileira, mas não é relevante para a compreensão da televisão enquanto parte integrante da produção de um discurso racista que compõe a própria possibilidade de existência de um povo. Que é seu ponto inicial e tem como positividade, como proposta de existência, como ponto inicial de existência, a hierarquia racial.
Televisão
Voltando à televisão, é justamente a partir das imagens reproduzidas por ela que a política cultural racista, inclusive no âmbito do humor, é indefinidamente salientada.
As imagens exibidas na televisão são exemplos de política cultural porque veiculam ideias que permitem a transformação da branquitude como um tipo de capital cultural, e a negritude como elemento de inferioridade moral. Assim, sentidos culturais são transmitidos todo o tempo por um instrumento que influencia a percepção de dezenas de milhões de pessoas, sendo que ele é integralmente controlado por membros do grupo racial dominante (Moreira, 2019, p. 66).
O controle material dos meios de comunicação feito por membros da raça branca é fundamental para a compreensão do resultado concreto da produção de signos feita por estes meios. Numa sociedade com divisões raciais, o controle branco dos meios de comunicação deve ser entendido como um aparelho de reprodução ideológica racista que produz, no nível ideológico (ou, realizando uma adaptação rápida, no nível da produção verbal), o racismo à brasileira. “Os meios de comunicação são, portanto, um meio pelo qual se cria um campo representacional no qual grupos lutam pelo controle sobre os significados das imagens de seus membros” (Moreira, 2019, p. 66).
As imagens sobre grupos minorizados que são disseminadas pela televisão não se resumem à questão racial, indo de encontro com preconceitos regionais, de classe, de gênero ou preconceitos à neuroatipicidade. A questão racial é frequente em imagens relacionadas à segurança pública, retratando o negro (e pobre) como bandido por excelência:
As imagens produzidas nesse meio de comunicação podem ser formas de disseminação de estereótipos descritivos e prescritivos sobre grupos raciais. Essas falsas generalizações não fazem apenas referências à questão racial. O tema da raça aparece associado a diversas outras questões em discursos que procuram referendar medidas de segurança pública, as respostas do governo a demandas de direitos, a valoração moral dos diversos grupos que fazem parte da comunidade política. Assim, mais do que representações específicas da raça, a televisão é um lugar de legitimação de vários outros aspectos responsáveis pela reprodução da hegemonia social das pessoas brancas. Um sistema de opressão como o racismo não opera isoladamente; o domínio de certos segmentos sobre outros também depende da exclusão econômica, da marginalização cultural e da ausência de representação política (Moreira, 2019, p. 66).
O resultado dessa profusão de imagens racistas que recreativamente são utilizadas como ilustração de diversos fenômenos sociais reprovados socialmente é o fortalecimento dos estereótipos raciais alimentados desde a época colonial brasileira, em que homens negros são imaginados como preguiçosos, bêbados e hiperssexualizados com interesse especial por mulheres brancas. Por sua vez, mulheres negras também são imaginadas como corpos aptos e instigantes de sexo, além de serem infantilizadas. Aqui, é importante compreender que a infantilização não passa pelo retrato branco da Lolita, mas atravessa o retrato racista do negro que, por ser uma criança, não pode tomar decisões corretas ou responsáveis.
Assim, muitas produções culturais retratam a figura do negro a partir de imagens estáticas de pessoas que se apresentam da mesma forma, em todas as situações e em todos os tempos. Essas representações criam sentidos que são reproduzidos em diversas áreas da vida social, definindo, entre outras coisas, a percepção das pessoas sobre quais grupos merecem atenção estatal e apreço social (Moreira, 2019, p. 67).
Por outro lado, a violência da exposição caricata e estereotipada de negros anda em conjunto com a ausência da retratação do negro como membro legítimo da sociedade, como sujeito ético e político, como portador da capacidade de ocupar posições de destaque ou de simplesmente ter uma vida que não é atravessada pelas expectativas racistas de como a trajetória de vida de uma pessoa negra é imaginada. Esta dinâmica de presenças e ausências cria a percepção de que somente pessoas brancas podem ocupar posições de destaque na sociedade e, além disso, somente elas são, de fato, sujeitos éticos detentores de proteção a sua humanidade.
Considerações finais
Ou seja, o racismo recreativo não se define pelo ato, mas pela construção através da estratégia de poder vigente na sociedade brasileira:
O que estamos chamando de racismo recreativo não pode ser visto como um tipo de comportamento individual porque está presente em diversas formações culturais, notoriamente nos meios de comunicação. Embora essas manifestações sejam apresentadas como humor, elas são manifestações de estereótipos que reproduzem conteúdos racistas sobre grupos minoritários. Observaremos que as generalizações sobre negros presentes nesses programas humorísticos são as mesmas que animam as formas racistas presentes nas decisões sobre injúria racial, o que demonstra a continuidade cultural de uma forma em relação a outra. Também devemos estar atentos ao fato de que os conteúdos desses estereótipos raciais possuem uma continuidade histórica (Moreira, 2019, p. 67).
As construções de figuras sociais racistas presentes na formação discursiva racista operante no interior da estratégia de poder racial brasileira interligam diversas noções que associam raça, estética e moralidade. A figura do negro é frequente reproduzida como aquela que está sempre fora de lugar, que se situa num lugar alugado, num lugar roubado, num lugar falso e, por isso, pode ser o alvo do escárnio ou pode ser inserida como coadjuvante.
O inverso da participação negra na mídia é a construção da figura da pessoa branca, simbolicamente fortalecida pela falta de ajustamento da negra.
Referências
Moreira, Adilson. Racismo recreativo. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.
Instagram: @viniciussiqueiract
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.
Autor dos e-books:
Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;
Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.
