Trend “treinando caso ela diga não” é uma catarse do feminicídio

Este artigo analisa a trend "caso ela diga não" no TikTok, onde criadores encenam agressões contra parceiras após rejeição. Longe de ser apenas "humor do absurdo", a prática revela uma catarse voltada à reafirmação da masculinidade hegemônica em crise. Apoiando-se em Butler, Althusser e Bauman, discute-se como esses vídeos funcionam como atualizadores de uma performatividade violenta. O humor, aqui, atua como gênero estruturante que mantém a cumplicidade social. Conclui-se que o conteúdo cristaliza a necessidade de obliterar o outro para a manutenção de uma honra masculina arcaica.

Nas últimas semanas, o Tiktok foi palco de uma nova trend chamada “treinando caso ela diga não”. Neste modelo de vídeo, os criadores homens encenam uma situação em que pedem suas parceiras em casamento ou namoro e, ao receberem um não, simulam agressões com armas brancas, socos e chutes.

A Polícia Federal iniciou uma investigação acerca da trend. Os vídeos de criadores que a reproduziram foram desativados e o próprio Tiktok foi chamado a prestar esclarecimentos sobre a presença deste tipo de conteúdo, de apologia ao feminicídio, em sua plataforma.

O vídeo, considerado humor, revela uma função específica que pode facilmente ser confundida e até defendida como apelo ao absurdo. Se o humor se faz, também, pelo contraste do absurdo com a realidade, é necessário compreender que a agressão às mulheres que negam uma investida não é estatisticamente irrelevante. Somente nas últimas semanas, Mariana Camila de Oliveira Santos foi morta em sua casa pelo seu parceiro em pleno Dia Internacional da Mulher; Alana Anísio foi esfaqueada por um stalker após rejeitá-lo, ela conseguiu sair com vida; e Priscila Beatriz Assis Teixeira também foi morta por ataque de arma branca após rejeitar seu agressor.

Acredito que é possível descartar o absurdo como fonte do humor. O humor, inclusive, é um gênero. Humor não é o resultado da risada, mas é o gênero do texto produzido. O humor, portanto, não é neutro e nem é uma forma de arte elevada: trata-se de um gênero com estrutura própria que pode ou não ser transmissor de diferentes sistemas simbólicos a depender da maneira como é utilizado, a depender de como é mobilizado no interior de uma sociedade preenchida por conflitos.

Sendo assim, ao contrário do propagado pela nova onda de artistas do humor, o riso não é o resumo do ato humorístico. O riso é um pedaço, talvez um objetivo, mas não resume ou delimita o humor. O uso do absurdo como forma de fazer humor, por exemplo, é uma das maneiras de compreender que há uma fórmula, uma equação do humor, um conjunto de procedimentos e contextos que, ao serem utilizados a partir de significações compartilhadas, geram um ato de humor bem sucedido.

Então, se o efeito da surpresa pelo absurdo óbvio não é o resultado do humor desta trend, acredito que se possa dizer que a especificidade deste tipo de vídeo está na catarse. A catarse é o momento em que um alívio subjetivo é manifestado na obra vista, de tal maneira que a própria subjetividade do espectador é atualizada a partir deste alívio.

Os vídeos, assim, não funcionam na medida em que mostram um absurdo, mas na medida em que geram uma catarse. Uma atualização da subjetividade masculina construída sob e para a violência. O alívio acontece justamente num período em que a própria masculinidade hegemônica é problematizada e rejeitada cada vez mais por movimentos sociais e indivíduos públicos. Este alívio é o resultado de força de perpetuação das formas de masculinidade que são problematizadas e, ao mesmo tempo, ainda são ensinadas cotidianamente dentro das famílias brasileiras.

O sujeito que se esforça para se encaixar na masculinidade hegemônica tem muito a perder com a problematização desta performatividade: a sua suposta essência. A catarse do feminicídio é a reafirmação desta performatividade através da reprodução de uma de suas manifestações específicas, de um de seus atos. O gênero, nos avisa Judith Butler, não é resultado de uma identidade fixa, mas é produto de uma constante prática social, de constantes reconhecimentos:

O gênero não deve ser construído como uma identidade estável ou um locus de ação do qual decorrem vários atos; em vez disso, o gênero é uma identidade tenuemente constituída no tempo, instituído num espaço externo por meio de uma repetição estilizada de atos (Butler, 2018, p. 187).

A trend existe e foi reproduzida pela reatualização masculina no conteúdo dos vídeos. O vídeo não é um incentivador, mas sim um atualizador. Não é um absurdo, mas sim um banal, um normal. Uma reafirmação de si que não precisa ser feita pelo próprio sujeito que se afirma.

Desta forma, a repressão a este tipo de manifestação é mais um golpe de repressão a essa própria masculinidade. Não há saída. Ao ser reprimido, o sujeito há de encontrar uma nova performatividade, na medida em que a masculinidade hegemônica tende a ser percebida como estigma. O alívio subjetivo (que também se faz enquanto alívio político, na medida em que reafirma a relação de poder garantida à masculinidade hegemônica) quando reprimido, abre espaço para novas formas de se encontrar vazão para a necessidade de ser alguém no mundo.

Mas a trend não é a única forma de reafirmação da masculinidade hegemônica: coaches de vida, coachs de sedução, conselheiros de casais, líderes religiosos e influenciadores digitais estão, cada vez mais, preenchendo este espaço de guia de vida. Ao contrário dos especialistas, eles não precisam de um diploma, mas da pura e simples experiência (Bauman, 2001).

É a partir da publicização da suposta experiência própria que a credibilidade do coach é garantida, mas é pela publicização de uma masculinidade já hegemônica que a mera exposição da experiência já se qualifica como passível de crédito. Ao homem adequado ou desejante da masculinidade hegemônica, a cumplicidade se faz como princípio, daí da credibilidade ser aplicada ao sujeito que formaliza a performatividade de gênero em um manual de instruções. O ponto não é a forma, mas o conteúdo. Para participar deste conteúdo, o indivíduo precisa ser interpelado em sujeito homem (Althusser, 1980) e, enquanto sujeito homem, é óbvia a cumplicidade com a demonstração de masculinidade.

Assim, na formação discursiva masculina, a piada funciona como forma de manutenção da cumplicidade. Atenua retoricamente os efeitos catárticos do humor de (e da apologia ao) feminicídio e amplifica, na prática, os efeitos de sentido da masculinidade que está diretamente inserida numa formação discursiva em que o uso da violência é uma forma de resolução de um conflito em que o outro precisa ser obliterado para a manutenção da honra do eu.

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Referências

ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. 3 ed. Lisboa: Editorial Presença/Martins Fontes, 1980.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

BUTLER, Judith P. Problemas de gênero [recurso eletrônico]: feminismo e subversão da identidade. Tradução Renato Aguiar. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2018.

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