O voto não é o resultado simples da conclusão racional baseada em propostas públicas.
Não é novidade.
O voto é direcionado àquele que faz o coração bater mais rápido. Seja por medo ou por esperança. No entanto, numa batalha entre medo e esperança, quem move esta última tende a ser o vencedor.
A esperança é uma palavra e suscita uma emoção. Ela é forte. Com esperança, a metáfora da picanha serviu como fio condutor da candidatura de Lula em 2022. A picanha era a esperança frente ao aumento da porcentagem da população em insegurança alimentar, frente à entrada do país no mapa da fome.
Em 2018, #Elenão se provou insuficiente. Rejeitar Bolsonaro não foi suficiente. Entre as diversas rejeições que orbitavam o cenário comum do debate ético-político cotidiano, a negação de Bolsonaro foi inútil. Naquele momento, a negação ao PT despertava a esperança de um novo Brasil. A negação ao Bolsonaro indicava uma tentativa de permenecer no mesmo Brasil.
Comunicação é uma esfera da prática, não da razão. A comunicação não se importa com o correto e o errado, com o verdadeiro e o falso, mas sim com a eficiência de uma ligação estabelecida entre o emissor e o destinatário.
O voto, portanto, é um ato do coração.
Hannah Arendt salienta que
Na ação e no discurso, os homens mostram quem são, revelam ativamente suas identidades pessoais e singulares, e assim apresentam-se ao mundo humano, enquanto suas identidades físicas são reveladas, sem qualquer atividade própria, na conformação singular do corpo e no som singular da voz (Arendt, 2007, p. 192).
A voz que fala sobre política, apresenta-se ao mundo como voz de alguém. Alguém que fala com outro alguém. A identidade física apresenta o que se é, enquanto a ação e o discurso apresentam quem se é. Quando a apresentação de si se faz na negação do outro, a chance de estabeler uma ligação com o destinatário enfraquece.
Ou melhor: a ligação acontece, mas talvez, grosso modo, por conta de nossa cultura favorece as relações interpessoais baseadas na simpatia e na permissão, essa ligação é de repúdio ou, no máximo, indiferença.
Acredito que a ausência de uma proposta de futuro baseado na esperança foi central na derrota histórica do PT no território nacional como um todo. O PT, nestas eleições, foi o sujeito chato que tenta mobilizar outros sujeito por meio da culpa ou do medo. Do medo que gera culpa. Do medo pelo futuro do outro que gera culpa sobre si.
A eleição de Jones Manoel talvez seja uma demonstração que a ação e o discurso combativo e que se propõe a todo instante a ser melhor que seus adversários funciona melhor que o discurso do medo. Além, claro, da boa utilização dos recursos digitais tão necessários e importantes na atualidade.
O querer é sempre mais forte que o não querer. A vontade que é direcionada para a vida tende a ser mais forte que a vontade direcionada ao nada.
No fundo, ainda é necessário compreender que
E este segredo a própria vida me confiou: “Vê”, disse, “eu sou aquilo que deve sempre superar a si mesmo […] O que quer que eu crie e de que como quer que o ame – breve terei de ser seu adversário, bem como o do meu amor: assim quer a minha vontade (Nietzsche, 2005, pp. 145-146).
Superar a si mesmo é propor o novo mesmo após uma vitória. Propor a esperança mesmo depois de derrotar o adversário. Fazer da vida uma potência de vida em realização constante e interminável.
Em termos práticos: superar a própria condidatura a todo instante. Superar a si mesmo é reativar a esperança infinitamente. Em vez de negar o outro, afirmar a si. Negar o outro através da afirmação de si.
Agora o Deus nos acuda será óbvio: Lula tentará se reunir com clubes de futebol para negociar suas dívidas e, talvez, conseguir apoio dos torcedores. Ao mesmo tempo, a proibição das bets demorou muito pra acontecer e os clubes vivem sob o pilar das empresas de aposta.
A negociação com clubes e a proibição de apostas online se chocam. Sem o recuo da proibição das bets, como será a negociação? Mesmo com uma negociação positiva, os clubes têm força para mobilizar 8 milhões de novos votos? Os torcedores são mais fiéis aos clubes ou ao bolsonarismo que se torna parte do senso comum político e social brasileiro?
O bolsonarismo já não é mais uma onda. Ele se estabelecer e afirmou a si próprio. Ele não é mais somente antilula. O bolsonarismo deixou de ser um movimento que não é. Agora ele é.
Essa afirmação de si que parte do bolsonarismo deveria ser o incômodo que gera o movimento para uma superação em vez de ser um mote ao ressentimento. Bolsonaro não é um inimigo, mas é um mote que permite a criação de uma afirmação de si da própria esquerda.
Novamente, a eleição de Jones Manoel talvez seja uma indicação de como se afirmar, de como criar no presente.
Referências
ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 10ª edição. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Mário da Silva. 13. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
Instagram: @viniciussiqueiract
Vinicius Siqueira de Lima é mestre e doutorando pelo PPG em Educação e Saúde na Infância e na Adolescência da UNIFESP. Pós-graduado em sociopsicologia pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo e editor do Colunas Tortas.
Atualmente, com interesse em estudos sobre a necropolítica e Achille Mbembe.
Autor dos e-books:
Fascismo: uma introdução ao que queremos evitar;
Análise do Discurso: Conceitos Fundamentais de Michel Pêcheux;
Foucault e a Arqueologia;
Modernidade Líquida e Zygmunt Bauman.

